O Brasil acaba de assumir a vanguarda na fronteira da biotecnologia e da medicina global. O nascimento do primeiro porco clonado da América Latina não é apenas um feito de laboratório, mas a peça-chave de um plano ambicioso para zerar as filas de espera por órgãos no país.
Atualmente, 48 mil brasileiros aguardam por um transplante. A nova tecnologia pode ser a solução definitiva para esse gargalo do sistema público de saúde nacional.
Nascido em Piracicaba, São Paulo, o animal é fruto de anos de pesquisas lideradas por grandes nomes da Universidade de São Paulo (USP), como o cirurgião Silvano Raia, professor da Faculdade de Medicina (FM) da instituição; a geneticista Mayana Zatz, professora do Instituto de Biociências (IB) da USP e coordenadora do Centro de Estudos sobre o Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL); e o imunologista Jorge Kalil, professor da FM-USP.
O objetivo central do estudo é o chamado xenotransplante, que consiste na transferência de órgãos entre espécies diferentes. “O passo que demos agora é crucial porque a clonagem de suínos é uma das técnicas mais difíceis de serem dominadas [para esse fim]”, disse Ernesto Goulart, professor do IB-USP e principal pesquisador do CCD, à Agência FAPESP.
Para que o processo funcione sem que o corpo humano rejeite o órgão imediatamente, os cientistas usaram a técnica de edição genética CRISPR/Cas9 para inativar três genes suínos e inserir sete genes humanos nas células do animal.
Processo de criação do clone é extremamente minucioso - Imagem: Divulgação/Docme Comunicação para Genoma USP
O processo de criação do clone é extremamente minucioso. Os pesquisadores retiram o núcleo de um óvulo suíno e introduzem a célula geneticamente modificada; em seguida, um choque elétrico induz o início da formação do embrião, que é transferido para uma "barriga de aluguel". O primeiro filhote nasceu com 1,7 kg e apresenta saúde perfeita, o que prova que os cientistas brasileiros finalmente dominaram essa técnica complexa.
A escolha do porco como doador não é casual. Seus órgãos têm tamanho e funções muito semelhantes aos dos humanos, além de a espécie possuir um ciclo reprodutivo rápido. O foco inicial da pesquisa está na produção de rins, córneas, corações e pele. De acordo com os dados do projeto, esses quatro itens seriam capazes de atender a 94% de toda a demanda atual do SUS.
Manter os animais exige estrutura de ponta - Imagem: Divulgação/Docme Comunicação para Genoma USP
Manter esses animais, contudo, exige uma estrutura de guerra contra microrganismos. Os clones vivem em laboratórios de "grau clínico", com altíssimo controle sanitário para garantir que sejam livres de qualquer vírus ou bactéria que possa ser transmitida ao receptor humano no futuro.
"As duas instalações têm altíssimo controle sanitário porque, no fim das contas, os órgãos obtidos a partir desses animais serão um produto médico", complementa Goulart.
O domínio dessa tecnologia em solo nacional é considerado estratégico para a soberania do Brasil. Sem esse avanço, o país correria o risco de se tornar dependente da importação de órgãos dos Estados Unidos ou da China a preços inacessíveis. A meta final dos pesquisadores é fornecer esses tecidos diretamente ao SUS, permitindo que o brasileiro tenha acesso ao transplante sem custos.
Os próximos passos incluem o monitoramento do crescimento do clone até a sua maturidade sexual. A ideia é criar um plantel de animais que, por meio da reprodução natural, consigam manter essas modificações genéticas nas futuras gerações, criando uma fonte sustentável de órgãos para a medicina.