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Revista Visão online

Super drone vai ajudar nas pesquisas dos povos antigos que viviam na Serra Catarinense

Publicado em 10 maio 2017

Você já pensou em um equipamento capaz de enxergar além das vegetações, as superfícies do solo e ajudar a desvendar nosso passado? Pois ele existe. Trata-se de um Super Drone com quase quatro metros de asa e um aparelho com sensor muito potente, que chegou a Santa Catarina para uma pesquisa arqueológica que deve mudar a história do nosso estado e do Sul do Brasil.

Essa é a segunda vez que o equipamento será usado no Brasil. Com ele, os pesquisadores pretendem descobrir a verdadeira história e compreender como viviam os povos antes mesmo de Colombo chegar ao Brasil. Ousadia? Não é o que eles pensam! Há pouco mais de uma semana em solo catarinense, já descobriram que nossas terras eram habitadas há mais de 1500 anos.

A pesquisa, que começou a ser desenvolvida na serra catarinense e deve chegar a outros municípios, seguindo até o estado vizinho, Rio Grande do Sul e divisa com Argentina, faz parte de um projeto maior, chamado “Paisagens-Jê do Sul”, financiado pelo Conselho de Investigação das Humanidades do Reino Unido (AHRC) e Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e coordenado pelos professores de Arqueologia da Universidade de Exeter (Inglaterra), o uruguaio José Iriarte, e pelo brasileiro Paulo DeBlasis, da Universidade de São Paulo. Informações completas sobre a pesquisa estão disponíveis no site jelandscapes.exeter.ac.uk.

A pesquisa vem comprovando a existência de povos na região desde os anos 400 dC. Os vestígios dessa cultura estão sendo encontrados desde a divisa de São Paulo, passando por Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, principalmente nas regiões de planalto.

Em Santa Catarina, a região da serra está sendo pesquisada por ser uma área rica para a arqueologia. De acordo com os pesquisadores, já foram localizados 55 sítios arqueológicos e cerca de 30 deles escavados, o que permitiu descobrir sítios que vão do Século V até o Século XVII, com informações arqueológicas muito preservadas.

SUPER DRONE

A pesquisa “Paisagens Jê do Sul” já vem sendo realizada no país há quatro anos. Neste período, ela conta com uma importante novidade: um Super Drone aliado a um sensor muito potente, capaz de mapear o solo e realizar a topografia detalhada dos sítios arqueológicos com maior precisão. “Com essa pesquisa, poderemos fazer dois mapas: um da topografia abaixo das árvores; e outro das copas. Neste segundo, poderemos descobrir também tipos de flora mais comuns na região”, explica o pesquisador Iriarte. Na Amazônia, onde o projeto também é realizado, o equipamento já foi utilizado apresentando excelentes resultados. Agora, ele está sendo usado aqui em Santa Catarina.

Criado pela parceria entre a Universidade de Exeter, INPE e XMOBOTS, o Super Drone, uma espécie de avião, conta com um sensor Chamado LIDAR, tem 25 quilos e quase quatro metros de asa. O avião chega a atingir 110 km por hora, voa a 300 metros de altura e pode ir até 90 km da base de onde decolar, o que facilita as pesquisas.

PISTA NA VINÍCOLA

Neste formato, o LIDAR apresenta uma praticidade no manuseio e controle, que é feito em solo por um piloto e pode chegar a diferentes regiões, além da possibilidade de se lançar em pistas pequenas, de até 100 metros de comprimento, a exemplo da que foi construída na Fazenda da Vinícola Abreu Garcia, em Campo Belo do Sul.

O equipamento foi criado para fazer a reprodução tridimensional da paisagem de toda a área a ser pesquisada, com resolução espacial de até 1 cm, que permite fazer a topografia dos bosques e calcular até a biomassa com muita precisão.

É muito importante para os arqueólogos saber o que está em baixo dos bosques. Isso permitirá ver em grandes áreas se existe sítios arqueológicos abaixo da floresta. O que já foi possível descobrir é que existem casas subterrâneas das aldeias indígenas que existiam naquela época. Com esse equipamento, o estudo será ainda mais profundo e permitirá estudar as características desses povos, cultura, arquitetura e manuseio do solo.

IMPACTO NA HISTÓRIA E NA ECONOMIA

Essa pesquisa pode mudar tudo o que se estudou até aqui nos livros de história e geografia do Brasil e do mundo. Isso porque os resultados da pesquisa mostram mudanças no que se pensava. Um exemplo é de que sempre se estudou que os antepassados da região pesquisada eram caçadores coletores, que não cultivavam nem plantavam. Os resultados da pesquisa apontam para outro rumo. As marcações no solo, a presença de restos de plantações, mostram que eles viviam em locais permanentes, mais planificados, construíam coisas nesses lugares e cultivavam o solo. Isso foi possível descobrir pela análise dos materiais arqueológicos como cerâmicas, onde encontraram resíduos de milho, mandioca, abóbora e feijão, além do pinhão. Acredita-se, inclusive, que a natureza não foi a única responsável pela expansão da araucária, mas que a espécie foi replantada pelo homem.

De acordo com as pesquisas, esses povos, conhecidos como proto-Jê, são os antepassados dos atuais índios Kaingang e Xokleng. Outro resultado importante dessa pesquisa será o enriquecimento do Patrimônio Cultural do estado, que pode permitir o turismo arqueológico na região, com a descoberta dos sítios que podem ser visitados e recontar a história dos povos que já passaram por aqui.