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Sul-mato-grossense cria pacote digital que lê o boi “por dentro”

Publicado em 16 outubro 2019

Modelo preditivo usa a inteligência artificial para informar ao pecuarista quando deve abater, para qual frigorífico e quanto de lucro obterá com cada animal.

A afirmação de que o Mato Grosso do Sul faz a pecuária tropical de melhor qualidade no Brasil, é compactuada pela quase unanimidade dos especialistas. O que poucos apostavam era de que o Estado seria o berço de uma inovação digital considerada por muita gente até agora como a de maior impacto para a bovinocultura de corte nacional (em especial para o bolso do produtor) e que já começa a ser usada em outros países. Coube a um sul-mato-grossense criar um pacote tecnológico que permite olhar o boi “por dentro” e informar o lucro (ou prejuízo) diário de cada animal e o momento certo dele ser abatido, praticamente aposentando a prática de avaliação visual nos confinamentos.

Em resumo: sua invenção usa da inteligência artificial para indicar ao produtor (confinador) o melhor momento para vender cada animal e o frigorífico que oferece a maior remuneração para que ele obtenha o máximo lucro possível. Teoria? Nada disso! O pacote já é utilizado em fazendas no Mato Grosso do Sul, permitindo diferenças em lucratividade de até 30%.

Com esta novidade, Tiago Zanetti Albertini, nascido em Ponta Porã, está decolando no cenário AgTech (ou PecTech). De olho no mercado internacional, ele batizou sua invenção de Beef Trader (‘comerciante de carne’, numa tradução literal) e a colocou no mercado em 2018. Menos de um ano depois chegou a uma versão superior – o Beef Trader Premiun (BTP) – apresentada oficialmente durante o Confinar 2019, simpósio de bovinocultura de corte realizado no último mês de abril, em Campo Grande.

Sua ‘invenção’ é fruto de muita capacitação, trabalho, organização e base científica. Albertini é médico veterinário formado pela UFMS e mestre em Ciência Animal e Pastagens com passagem pela Embrapa Gado de Corte. No currículo ainda carrega dois doutorados e dois pós-doutorados que lhe deram ampla formação também em agronomia e tecnologia digital. Hoje, aos 38 anos, comanda a @Tech, uma empresa (ex-startup) de pecuária de precisão sediada em Piracicaba (SP) e que abriga o BTP. (assista um resumo desta história pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=bldQ4zIdxBg&t=77s).

Para colocar seu projeto na estrada ele teve de cumprir várias etapas. Albertini levou a ideia do pacote tecnológico para a incubadora da ESALQ-USP onde recebeu o primeiro apoio para a criação de um modelo de negócio. Em seguida apresentou sua solução à FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) que acabou sendo aprovada e encaixada dentro do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE). A partir daí, ele conta ter rodado mais de 30 mil quilômetros pelo Brasil para validar seu pacote tecnológico.

Feito isso, a @Tech foi selecionada como a primeira startup de pecuária no Pulse, o hub de inovação da Raízen. Atualmente a empresa de Albertini coleciona prêmios nacionais e internacionais e cuida daquele que vem sendo chamado de “primeiro hub de inovação para a pecuária no mundo”: o AnimalsHub. Segundo o empresário, a prioridade vem sendo dada para startups com tecnologias envolvendo sistemas de produção de pastagem focados na relação solo-planta-animal e na biotecnologia in vitro com inteligência artificial para crescimento celular e reprodução animal. (conheça mais no link: https://www.youtube.com/watch?v=1Il66mI6PiU)

O primeiro modelo (Beef Trader) já informava dados sobre peso e mercado, mas foi somente com a versão aprimorada (BTP) que @Tech passou a oferecer a leitura do escore de condição corporal de cada animal, procedimento digital que surpreende até mesmo os mais antenados em tecnologia.

De acordo com Albertini, o BTP “abre a caixa preta que existe no confinamento” garantindo a avaliação individual do animal que, segundo ele, ainda é limitada no Brasil à pesagem na entrada do confinamento e na saída para o frigorífico, reforçada pela observação visual. Após as primeiras aplicações a campo, o empresário chegou a afirmar que o novo modelo oferece um retorno ao pecuarista na ordem de até R$ 2,50 para cada R$ 1 investido.

Pacote tecnológico

O BTP envolve um conjunto tecnológico diverso. De acordo com Marcos Debatin Iguma, coordenador de mercado e negócios da @Tech, são necessários os usos de brincos eletrônicos (R$ 5,60 cada unidade) nos animais e de uma balança digital para cada baia de confinamento monitorada (que custaria a partir de R$ 6 mil cada, segundo ele). Estes instrumentos são fornecidos por empresas parceiras.

Na prestação de serviço, a @Tech disponibiliza câmeras digitais especiais e um tablet para alimentação de dados, por enquanto sem custo para o pecuarista. “Essa câmera foi desenvolvida por nós e é acionada por sensor. Compramos os componentes e montamos. É o coração do projeto. Ela é responsável pela coleta de imagem e sua tradução em códigos como informação final. Através da biometria, ela consegue fazer a leitura sobre o tamanho do cupim, altura do animal, deposição de gordura, de músculo, etc.”, explica.

A empresa também fica responsável pela coleta de informações de mercado como, por exemplo, o preço da arroba, bonificações e descontos nos frigoríficos: “Com a anuência das fazendas, entramos em contato via fone com indústrias mais próximas, nos identificamos e informamos sobre a disponibilidade de animais para negociação, adiantando informações relativas a um lote específico programado para entrega em escala de ‘x’ dias. Depois de repassar também o perfil destes animais em 30 características avaliadas, indagamos sobre as condições de aquisição. Estes dados são injetados na plataforma que informará a melhor opção para o pecuarista”. Cabe à fazenda, por outro lado, alimentar o sistema com os custos operacionais e dados detalhados de manejo – através do tablet cedido em comodato. “Oferecemos treinamento para isso”, avisa Iguma.

A cobrança pelo serviço ocorre a partir do uso de um software, responsável pela sincronização de todas as informações e transferência de dados via nuvem (cloud). Para isso, segundo o coordenador, é cobrado uma taxa/animal/dia que hoje parte de R$ 0,41. “Este valor é calculado em função da quantidade de animais por baia. O pacote mais barato é de R$0,41/animal para uma baia com 200 cabeças. Caso o confinamento seja de 100 dias, cada bovino demandará R$ 41”, calcula.

O coordenador avisa que, para adoção do pacote, a propriedade tem de disponibilizar sinal de celular (GPRS) ou de Internet (desde que não seja via rádio): “Ainda é um gargalo, mas basta a fazenda oferecer a web em seu escritório. Temos tecnologia de ponto a ponto que leva este sinal até a baia, independente da distância. Evidente que esta operação envolve um custo adicional que variará caso a caso”.

Como funciona

Todo o trabalho começa, segundo Iguma, no manejo de entrada dos animas no confinamento. Neste momento são avaliadas 30 características em cada um. Em seguida o lote entra na baia onde estes indicadores continuam sendo avaliados através da balança (peso) e câmeras (dados por imagem) ao longo de todo o período em que o conjunto permanecer fechado.

“Um brete simples abriga a balança, colocada à frente do bebedouro. Sempre que o animal for beber água terá de subir nela. Uma câmera digital é posicionada no local de forma a mapear a lateral do animal. Outra é instalada para captar informações do dorso. Dessa forma, o conjunto faz a leitura do escore corporal de cada bovino, indicativo fundamental para informar o acabamento de gordura, tirando a subjetividade que existe na avaliação visual”, garante.

O coordenador da @Tech sugere 30 dias como o período mínimo para que o pacote tecnológico possa começar a apresentar resultados sólidos de indicações de venda. “A partir dai o sistema sugerirá o número de animais a ser tirado em cada baia, a data para isso, para qual frigorífico, além de fazer uma avaliação da lucratividade com a operação. São informações futuras. Mas não recomendamos qualquer decisão antes de pelo menos um mês de trabalho”.

Inteligências

Diante de um mercado relativamente cru, mas de alto potencial, a @Tech adota a tática de grandes corporações ao considerar alguns detalhamentos relativos ao funcionamento do pacote tecnológico como confidenciais e estratégicos. O CEO, Tiago Albertini, no entanto, explica que o sistema funciona graças ao cruzamento de três fontes de dados: inteligência de algoritmo (desempenho animal, econômico e ambiental do confinamento); inteligência de mercado (informações captadas junto à cadeia produtiva) e inteligência artificial (visão computacional a partir de câmeras, balanças e sensores que monitoram o escore de condição corporal).

“Este conjunto permite que o produtor tenha informações sobre a lucratividade de seu confinamento de qualquer lugar do mundo, utilizando celular, tablet, notebook ou computador de mesa. Isso lhe garante segurança e confiabilidade para tomada de decisões”, avalia.

O coordenador Iguma explica como a inteligência artificial funciona: “A cada dia os algoritmos aprendem sobre o crescimento fisiológico dos animais através da avaliação de peso e imagem. A isso são juntados os dados de mercado e de custo/manejo. A inteligência artificial atua graças a estas informações coletadas ao longo do tempo, indicando, por exemplo, o PON, ou seja, o momento certo de mandar o animal para o abate”.

Em fazendas

Albertini e equipe só consideraram validado o BTP após sua aplicação por dois anos em duas fazendas no Mato Grosso do Sul, ambas pioneiras na adoção deste serviço. “Elas possuem uma sinergia na adoção de tecnologias e carregam uma visão de futuro mais produtivo e sustentável para o agronegócio”, justifica o CEO.

Na Fazenda Nossa Senhora de Fátima, do Grupo Höfig Ramos (Brasilândia, MS), o BTP já está no segundo ciclo de monitoramento. “No primeiro ano, conseguimos aumentar em cerca de 30% a lucratividade de um lote dentro do confinamento em relação ao procedimento tradicional, que prevê a entrada e saída de todos os animais juntos”, revela o coordenador Iguma. Já na segunda propriedade – Fazenda Água Tirada (Maracaju, MS) – a diferença de lucratividade foi de 29% a favor do BTP em 2018.

Aos poucos a demanda de trabalho aumenta. Em dois anos, a equipe da @Tech aumentou de três para mais de 40 funcionários e as expectativas são de crescimento mais acentuado. Além do mercado brasileiro, a empresa está de olho em países da América do Sul, América do Norte e Oceania. “No segundo semestre deste ano demos início à nossa internacionalização através do monitoramento de fazendas em outros países”, afirma Iguma.

Autoria: Ariosto Mesquita