Notícia

Revista Globo Rural

Suínos enquadrados

Publicado em 01 fevereiro 2008

Produtores da periferia da capital paulista aprendem a criar seus rebanhos com mais sanidade e qualidade e a cuidar melhor das contas.

Em seus 53 anos de vida, Becino Magalhães já perambulou muito pelo país, mas sempre esteve ligado ao campo. Mineiro de nascimento, passou a infância no Paraná, ajudando os pais na roça. Depois mudou-se para São Paulo, onde lidou com suínos por mais de duas décadas. Nos anos 90, aventurou-se por Goiás, atraído pelo crescimento do Centro-Oeste. A experiência não foi bem-sucedida, e o jeito foi voltar a São Paulo. Instalou-se então em Embu Guaçu, na região metropolitana da capital. Mesmo ali Becino — ou Cabeção, como é mais conhecido — manteve um pé no mundo rural e arrendou um hectare e meio, onde voltou a criar suínos. O nome da granja não poderia ser mais sugestivo: Nova Esperança.

O começo foi difícil. Becino contava com apenas três matrizes, o que mal-e-mal dava para produzir leitões suficientes para pagar o arrendamento da terra. Sua sorte começou a mudar quando conheceu o projeto Criação de Suínos Saudáveis, mantido pelo Instituto Biológico, órgão da Secretária de Agricultura e Abastecimento paulista, em parceria com outras instituições de pesquisa.

A idéia do programa é dar assistência técnica aos criadores que vivem na periferia da capital, orientando-os em temas como sanidade, reprodução, manejo, nutrição e até mesmo administração de contas. Segundo estimativa da Fapesp Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, cerca de 40 mil suínos são criados clandestinamente no entorno da metrópole — quase sempre sem quaisquer cuidados sanitários. Os animais são vendidos em feiras livres ou a abatedouros também clandestinos, o que coloca em risco a saúde dos consumidores. Por isso, uma das preocupações do projeto é regularizar a situação dos suinocultores, incentivando-os a se registrar na Secretaria de Agricultura para controle da produção.

Antes de integrar o programa, Becino colecionava problemas na granja. O plantel da Nova Esperança sofria perdas elevadas em razão de doenças. O ritmo de ganho de peso dos leitões era baixo, já que os animais alimentavam-se apenas de lavagem, uma mistura de água servida com restos de alimentos. Além disso, a falta de cuidados sanitários prejudicava o produtor na hora da venda. O cenário desolador começou a ser alterado por Josete Bersano, pesquisadora responsável pelo projeto.

Sua primeira providência foi promover o controle da saúde dos animais por meio de testes de laboratório.

O objetivo é o de evitar gastos desnecessários com tratamentos e remédios antes de identificar corretamente alguma doença. Mas a principal medida imposta pela pesquisadora foi concentrar esforços na limpeza e desinfecção do ambiente das criações.

"É mais fácil e menos custoso do que medicar animais doentes", afirma Josete. Seguindo suas orientações, o esterco passou a ser retirado das baias duas vezes por dia. Além disso, o local é periodicamente lavado com hipoclorito de sódio. No inverno, as instalações ganham cortinas e aquecedores para evitar que os animais contraiam pneumonia. Os partos passaram a ser assistido, e os filhotes têm seu umbigo cortado e limpo ao nascer.

Todos os animais agora recebem as vacinas obrigatórias. Já os recém-nascidos recebem suplementação de ferro, o que fortalece o organismo e ajuda a prevenir doenças comuns na fase inicial da vida, como diarréia.

"Agora tenho 140 matrizes e, ao todo, 600 animais. Hoje o lucro com a venda de exemplares varia de 20% a 25%", diz Becino. "Minha vida melhorou bastante". Segundo ele, não pode haver sucesso em granjas que operam de modo precário, com baixa produtividade e sem preocupação com qualidade.

Com a lavagem substituída por ração, os animais passaram a ganhar peso mais rapidamente. Essa precocidade é boa para o produtor, que assim tem um animal pronto para venda em menor tempo. Antes, os leitões demoravam meses para ganhar peso; hoje, com 52 dias já estão pesando 23 quilos, uma marca mais próxima das obtidas nas grandes granjas comerciais.

"É o olho do dono que engorda o porco", diz Josete, em total consonância com Becino. O criador trocou a ajuda da esposa Cleide, afastada em razão de sua segunda gravidez, pela de um empregado. Mas não desgruda os olhos do plantel nem o lápis do papel para calcular e — principalmente — diminuir gastos.

A melhoria nos negócios permitiu a compra de uma caminhonete usada, o que eliminou a terceirização do transporte dos animais. Os custos da ração são mantidos sob rigoroso controle: se algum componente fica muito caro, é logo substituído por outro mais barato.

"Mas sempre consulto os especialistas, para manter a qualidade nutricional da ração", diz.

Além de fornecer orientações sanitárias, o projeto também incentiva os produtores a melhorar a genética de seu rebanho. Eles são orientados a acompanhar o desenvolvimento dos suínos desde o nascimento, e separar aqueles que se destacam por sua precocidade e resistência. Os selecionados são utilizados como reprodutores e matrizes, gerando, assim, leitões de maior qualidade.

Um dos maiores desejos de Becino é o de vender animais já terminados diretamente ao frigorífico, já que os ganhos são bem maiores do que os obtidos com a comercialização de leitões. Porém, sem a devida destinação de dejetos, sua granja não pode realizar a terminação. Para resolver esse impasse, o suinocultor de Embu Guaçu já tem um plano: construir um biodigestor. Pelos cálculos de Becino, a partir das fezes dos animais, o equipamento será capaz de produzir 150 mil litros de biofertilizante, além de gerar toda energia necessária ao funcionamento da propriedade. "Vou matar dois coelhos com uma cajadada só", diz.

Apesar de ser um produtor familiar, Becino — cujo empreendedorismo definitivamente não condiz com o apelido de Cabeção — sabe que inovação é a chave para o sucesso de seu pequeno negócio. Para tanto, agora quer implantar na Nova Esperança um software de gerenciamento, desenvolvido pela Embrapa — Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Com ele, o produtor poderá controlar, detalhadamente, seus gastos registrar a quantidade e o peso dos animais. A ferramenta também permitirá que o suinocultor descubra quais os setores menos produtivos de sua atividade, podendo ajustá-los para melhorar a lucratividade.

A pesquisadora Josete Bersano destaca que o projeto não auxilia somente os suinocultores inscritos, mas beneficia, indiretamente, toda a comunidade. "Esses produtores acabam servindo como multiplicadores, repassando o conhecimento adquirido aos amigos e vizinhos", afirma. Segundo ela, a população da periferia também sai ganhando com a ação do programa, pois passa a contar com uma carne mais saudável, proveniente de criações que obedecem à legislação sanitária.