Notícia

Jornal do Brasil

Sucesso contra os adenomas

Publicado em 18 março 1996

Por ALICIA IVANISSEVICH
UFRJ extirpa tumor da hipófise sem abrir o crânio No décimo andar do Hospital Clementino Fraga Filho, da UFRJ, onde funciona um dos melhores serviços de neurocirurgia do país, uma equipe multidisciplinar opera tumores benignos da hipófise (glândula localizada na base do cérebro) sem abrir a caixa craniana. Os benefícios da cirurgia transesfenoidal (feita através da boca) comparada com a tradicional são imagináveis: menor risco de complicações, já que o cirurgião não mais manipula estruturas nobres do cérebro para atingir a glândula. À alta qualidade do serviço acrescenta-se a vantagem de ser totalmente gratuito. Os tumores do sistema nervoso central - que atingem cérebro e medula - afetam de 10 a 17 pessoas por 100 mil. De todos os tumores intracranianos, 18% afetam a hipófise. Embora benignos e curáveis em fase precoce, os tumores da hipófise (adenomas hipofisários) podem invadir estruturas nobres do cérebro. Sintomas - "Os principais sintomas são dor de cabeça e perda progressiva da visão - sobretudo a lateral - que pode levar à cegueira", ensina Flavio Freinkel Rodrigues, chefe do serviço de neurocirurgia da UFRJ. "Mas pode haver também manifestações hormonais, porque a compressão da hipófise pelo tumor faz com que ela secrete mais hormônios do que o normal." Freinkel explica que, na mulher, há produção excessiva de prolactina, que inibe a ovulação (e, em conseqüência, a menstruação) e estimula a lactação. No homem, também pode haver secreção de leite, alteração da libido, queda de pêlos e impotência. "Dependendo das alterações hormonais provocadas pelo tumor e de seu tamanho (abaixo de um centímetro), ele pode ser tratado só com medicação", avisa o neurocirurgião. Ele diz que, muitas vezes, homens e mulheres que são considerados inférteis apresentam, na realidade, um adenoma hipofisário, que tem cura. Deformidades - O tumor pode causar ainda acromegalia - deformidade na face e nas extremidades, como nariz, mãos e pés. Esses adenomas não escolhem sexo ou faixa etária, embora sejam mais comuns no adulto jovem (de 20 a 40 anos). "Hipertensão (pressão arterial alta) e diabetes podem ter como origem um tumor hipofisário, que leva à produção excessiva de cortisol e hormônio de crescimento", lembra Freinkel, que adverte: "O adenoma pode ser descoberto por oftalmologistas, cardiologistas, radiologistas e ginecologistas". Mas a característica comum entre os pacientes com esses tumores é o longo via-crúcis por que costumam passar até serem corretamente diagnosticados. "As pessoas chegam ao hospital da UFRJ com o problema já em fase avançada, muitas delas quase cegas", lamenta Freinkel. Exames - "Qualquer perda rápida de visão deve ser melhor investigada. Uma simples dosagem hormonal e o exame cuidadoso do endocrinologista pode ser suficiente para detectar o tumor. Imagens de tomografia e ressonância magnética ajudam a confirmar o diagnóstico", esclarece o médico. "Os tumores são analisados através do método mais moderno - imuno-histoquímica - que garante 100% de acerto no diagnóstico." A operação clássica desses adenomas era feita abrindo o crânio e afastando o cérebro para atingir a hipófise. O risco de comprometer estruturas cerebrais nobres, deixando seqüelas neurológicas, era enorme. Cirurgia - Pela cirurgia transesfenoidal, o tumor é alcançado através da boca, com muito menor risco. A operação é feita com o auxílio do microscópio, que aumenta a imagem de 30 a 40 vezes, e de material apropriado (cânulas longas e muito finas). "A operação não deixa cicatriz aparente e a recuperação ê mais rápida", destaca Freinkel. "Leva três dias em média. A regressão ou não dos sintomas depende do tamanho do tumor e da evolução da doença." Só no ano passado, o serviço da UFRJ fez 15 cirurgias do tipo, mas o médico diz que o hospital tem condições de operar um número bem maior e de atender pacientes de todas as regiões do país. Lá são operados todos os tipos de tumores do sistema nervoso central, além de serem feitas cirurgias vasculares e de nervos.