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Substância produzida por larvas de mosca pode curar feridas crônicas

Publicado em 05 julho 2018

Por José Tadeu Arantes, da Agência FAPESP

Uma ferida comum cicatriza em tempo relativamente curto. O processo de cicatrização envolve, grosso modo, três etapas: inflamação, proliferação e regeneração. Feridas crônicas são aquelas que permanecem no estado inflamatório e, passados mais de seis meses, ainda não cicatrizaram. É o caso das úlceras provocadas por leishmaniose. Ou de feridas de pé diabético que, muitas vezes, resultam em amputação.

Uma forma antiga de tratamento, que havia sido descartada com o advento dos antibióticos, está sendo reabilitada agora em alguns hospitais dos Estados Unidos, Europa e América Latina. No Brasil, é aplicada no Hospital Universitário Onofre Lopes, em Natal, Rio Grande do Norte.

Trata-se da larvoterapia: a utilização de larvas de mosca para remover o tecido necrosado, romper o biofilme bacteriano e eliminar as bactérias, e promover o crescimento de tecido sadio. A despeito de seu caráter aparentemente repulsivo, o tratamento tem-se mostrado bastante eficiente na cura dessas feridas recalcitrantes.

O tema é objeto de estudo de Andrea Diaz Roa, doutoranda no Laboratório Especial de Toxinologia Aplicada do Centro de Toxinas, Resposta-Imune e Sinalização Celular (CeTICS), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP. Nascida na Colômbia e pós-graduanda em Ciências Biomédicas na Universidad del Rosário, de Bogotá, Roa é orientada no CeTICS por Pedro Ismael da Silva Jr., pesquisador científico do Instituto Butantan.

“Ela fez um trabalho pioneiro, realmente inovador, sobre o peptídeo antibacteriano sarconesina, produzido pela larva da mosca Sarconesiopsis magellanica”, disse Silva Jr. à Agência FAPESP. O trabalho foi apresentado na 47ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular, realizado em maio em Joinville (SC).

Diaz Roa foi a primeira a identificar, sequenciar e descrever a estrutura do peptídeo, atribuindo o nome sarconesina, em referência à mosca Sarconesiopsis. A ideia é utilizar a substância como princípio ativo de um medicamento. Por ser uma molécula relativamente pequena, a sarconesina pode ser sintetizada em laboratório, de forma totalmente artificial. Ou ser produzida por engenharia genética, introduzindo-se as bases de DNA que a codificam em uma bactéria hospedeira.

“Conhecemos sua sequência de aminoácidos, avaliamos sua atividade antimicrobiana em relação a vários tipos de bactérias e estamos cogitando apresentar um pedido de patente”, disse Silva Jr.

Normalmente, os peptídeos antimicrobianos atuam rompendo as membranas dos microrganismos adversários. A ação é puramente eletrostática. As membranas são eletricamente negativas e os peptídeos são eletricamente positivos. Ao serem atraídos, os peptídeos grudam nas membranas e arrancam-lhe pedaços. Os conteúdos dos microrganismos escoam pelos buracos e as bactérias acabam morrendo.

“Não é isso que ocorre com a sarconesina. Já sabemos que ela é eletricamente neutra. Nossa hipótese é que ela seja, de alguma maneira, internalizada pelos microrganismos e atue neles a partir do interior, desestruturando o DNA ou o RNA. Ainda estamos investigando esse mecanismo”, explicou Silva Jr.

Diaz Roa conta que está abordando o assunto de duas maneiras. Por um lado, transformando a sarconesina em remédio, sem terapia larval. Por outro, implementando a prática da larvoterapia no Brasil.

Recentemente, ela visitou, nos Estados Unidos, o laboratório de Ronald Sherman, considerado o “pai” da larvoterapia moderna. O projeto de Diaz Roa agora é fixar-se no Brasil e passar a aplicar esse procedimento médico no país.

“As moscas são criadas em laboratório e colocam seus ovos sobre material orgânico. As larvas estéreis são colocadas no interior das feridas, onde permanecem por 24 a 48 horas. Utilizam-se em média 20 larvas por centímetro quadrado. A ferida é coberta durante o procedimento e lavada depois da retirada das larvas. Dependendo do caso, uma única aplicação é suficiente. Elas se alimentam apenas da parte necrosada da ferida”, disse Diaz Roa.

Abstraindo-se a repugnância que a larvoterapia possa provocar, o procedimento em si não é mais incômodo do que a própria ferida. Essas geralmente coçam, doem ou exsudam.

No caso da úlcera de pé diabético, a dessensibilização provocada pela própria doença impede que o paciente sinta qualquer desconforto. E a terapia larval sozinha pode promover a reversão total do quadro.

Em relação à leishmaniose cutânea, sua ação é apenas coadjuvante, pois a recalcitrância da ferida resulta da presença ativa do protozoário do gênero Leishmania, que inflama o local. O tratamento principal neste caso consiste em matar o parasita por meio de medicamentos bastante tóxicos, controlados pelas agências de saúde. E o papel da larvoterapia será promover a cicatrização da ferida – o que, muitas vezes, leva bastante tempo para ocorrer.