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A Tarde (BA)

Substância na sucupira é capaz de combater o câncer

Publicado em 29 março 2009

Por Thiago Romero

Agência Fapesp e Reuters

Pesquisadores do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificaram uma substância na planta popularmente conhecida como sucupira (Pterodon pubescens B enth) capaz de inibir o crescimento de células de câncer de próstata em estudos in vitro.

Os testes in vivo do trabalho, coordenado pela pesquisadora Mary Ann Foglio, do programa de pós-graduação do Departamento de Farmacologia, Anestesiologia e Terapêutica da Faculdade de Odontologia, tiveram início em fevereiro visando ao estudo do comportamento dos compostos isolados em modelos experimentais utilizando o combate às células cancerígenas em grupos de camundongos.

“Outras substâncias com estruturas análogas estudadas também mostraram efeito semelhante, mas uma em especial apresentou maior potência, com seletividade para a linhagem de tumores de próstata”, disse a pesquisadora Mary Ann.

Segundo ela, o nome da molécula de interesse, extraída do óleo da semente de sucupira, é 6alfaacetóxi7betahidroxivouacapano. A sucupira é uma planta do cerrado tradicionalmente conhecida pelos seus efeitos anti-inflamatórios e de combate à dor.

Anti-inflamatório

Os pesquisadores da Unicamp se basearam em dados de literatura que relacionam a atividade antiinflamatória com o controle do crescimento de alguns tipos de tumores. Além disso, dois estudos de mestrado realizados no CPQBA já haviam comprovado efeitos anti-inflamatórios e analgésicos dos extratos da sucupira.

Outros trabalhos na literatura já demonstram, explica Mary Ann, a relação entre atividade anti-inflamatória e o controle de alguns tipos de tumor, especialmente do sistema digestivo.

“Por isso, isolamos e monitoramos as substâncias do óleo da semente da planta em modelos in vitro para, em um primeiro momento, preservar os animais e comprovar a associação entre a atividade anti-inflamatória e anticancerígena”, conta.

Por ser composto de muitas substâncias, o óleo da semente foi fracionado com a utilização de métodos cromatográficos. Este processo identificou cerca de 30 substâncias de interesse. Dessas, sete foram isoladas e realizadas modificações em suas estruturas químicas para comparação de suas ações farmacológicas e toxicológicas.

Por apresentar uma grande quantidade de substâncias, o óleo da semente foi separado, utilizando métodos cromatográficos, em diferentes frações para se chegar a um grupo com cerca de 30 substâncias de interesse.

Dessas, sete foram isoladas e realizadas modificações em suas estruturas químicas para efeito de comparação de suas atividades e toxicidades.

Entre as moléculas identificadas nessas substâncias bioativas, os pesquisadores encontraram a 6alfaacetóxi7betahidroxivouacapano que, segundo Mary Ann, ainda não havia sido descrita na literatura. “Na próxima etapa do estudo iremos implantar as linhagens de câncer de próstata nos animais e tratá-los com essa substância inédita. Já demos início também a estudos de microencapsulação da molécula para ver a possibilidade de aumentarmos seu tempo de vida útil a fim de administrarmos doses menores da substância”, aponta a pesquisadora.

Um artigo com os achados do estudo foi escrito e submetido ao Journal of the Brazilian Chemical Society, publicação da Sociedade Brasileira de Química. “O trabalho já foi aceito e deve ser publicado no início de 2009”, afirma Mary Ann. O estudo contou com a participação do docente João Ernesto de Carvalho, também do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas da Unicamp, além de outros alunos de mestrado e doutorado na entidade.

O projeto de pesquisa, intitulado Avaliação farmacológica de frações e princípios ativos obtidos de Pterodon pubescens, cujo objetivo é identificar compostos de plantas com potencial medicamentoso, contou ainda com apoio da Fapesp por meio de um Auxílio a Pesquisa.

Causa de mortes

O câncer deve superar em 2010 as doenças cardíacas como a principal causa mundial de mortes, com um aumento especialmente intenso nos países pobres, por causa do tabagismo e de outros fatores, disseram especialistas.

Globalmente, estima-se que 12,4 milhões de pessoas receberão o diagnóstico de algum tipo de câncer neste ano, e que 7,6 milhões de pessoas vão morrer, segundo relatório da Agência Internacional de Pesquisas sobre o Câncer, da Organização Mundial da Saúde.

“O ônus global do câncer dobrou nos últimos 30 anos do século 20, e estima-se que dobre novamente entre 2000 e 2020, e quase triplique até 2030”, segundo o relatório.

Até 2030, até 26,4 milhões de pessoas por ano receberão o diagnóstico de câncer, sendo que 17 milhões vão morrer da doença, previu o estudo. Entre homens, o câncer de pulmão é a forma mais comume a mais letal, e entre as mulheres é o câncer de mama. O câncer atinge mais os homens do que as mulheres.