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São Carlos Agora

Substância isolada do gengibre demonstra potencial para ser usada no tratamento de câncer

Publicado em 12 abril 2016

Uma substância isolada do gengibre que está em fase de testes no Laboratório de Biologia do Envelhecimento (LABEN) do Departamento de Gerontologia (DGero) da UFSCar demonstra potencial para ser usada no tratamento de câncer, isoladamente ou em conjunto com a quimioterapia, podendo reduzir os efeitos colaterais. A molécula já foi testada e obteve resultados positivos contra células de câncer de mama, mas poderá ser testada também em câncer de próstata, de pulmão, de colo de útero, dentre outros tipos da doença.

Segundo a professora Márcia Cominetti, docente do DGero e coordenadora do LABEN, o composto isolado do gengibre, denominado [10]-gingerol, é uma substância com atividade específica, ou seja, mata mais células tumorais em comparação com células normais, por um mecanismo de morte celular programada. Dessa forma, não ocorre a inflamação nos tecidos, efeito que realmente se espera de um medicamento antitumoral.

A docente explica que para o tratamento do câncer, que é um conjunto de mais de 100 doenças diferentes, existem atualmente três principais opções: a cirurgia para remoção do tumor, a quimioterapia e a radioterapia, que muitas vezes são realizadas de forma combinada. Porém, o que acontece com a quimioterapia, que é o tratamento mais usado, é a não seletividade de seus medicamentos, o que faz com que eles atinjam células tumorais mas também células saudáveis do organismo do paciente. "Então, as células que se dividem rapidamente, como células do bulbo capilar, local onde os cabelos nascem, da mucosa bucal, e do intestino, por exemplo, acabam morrendo também, o que acaba levando o paciente a apresentar sérios efeitos colaterais desta medicação, que são náusea, queda de cabelo, efeitos bastante conhecidos da quimioterapia. Portanto, o desenvolvimento de drogas antitumorais é um campo repleto de desafios, já que os agentes quimioterápicos ideais devem agir seletivamente para matar ou inibir o crescimento das células neoplásicas, deixando as células normais intactas", relata a pesquisadora.

O estudo, que começou em 2010, foi realizado em parceria com o Departamento de Química (DQ) da UFSCar, por meio dos professores Paulo Cézar Vieira e João Batista Fernandes, que forneceram diversas amostras de compostos de origem natural extraídos de plantas, como a catuaba e a laranja, além do gengibre, que podem evitar que tumores se proliferem. A partir de então, foram realizados diversos estudos utilizando cultura celular, ou seja, quando as células são retiradas de tumores de pacientes e células saudáveis são cultivadas em laboratório e utilizadas para testar os compostos.

Por enquanto, já se comprovou que a substância, além de conseguir inibir o crescimento do tumor primário de mama, também inibe metástases, que ocorrem quando células do tumor primário se deslocam e passam a afetar outros órgãos. O [10]-gingerol mostrou inibir metástases pulmonares, ósseas e cerebrais. Segundo Marcia Cominetti, a descoberta é de grande importância, já que há poucos medicamentos utilizados para combater tumores cerebrais e, nesses casos, muitas vezes a cirurgia é praticamente inviável.

De acordo com a professora, existem outros estudos no mundo com essa molécula, mas o diferencial é que o LABEN da UFSCar conta com uma capacidade de isolá-la com grande rendimento. "O método de purificação do [10]-gingerol a partir do gengibre foi desenvolvido por James Almada da Silva, ex-aluno do DQ da UFSCar, de uma maneira eficaz, o que forneceu uma grande quantidade de moléculas para os testes no laboratório", comemora.

Outro motivo que engrandece a importância do estudo é a previsão do envelhecimento da população brasileira, o que vem acompanhado de uma série de doenças com maior incidência entre as pessoas desta faixa etária, como câncer por exemplo, que na maioria dos países desenvolvidos é a segunda maior causa de morte, precedida pelas doenças cardiovasculares. O número de mortes por câncer no mundo deverá aumentar 45% até 2030, passando de 7,9 milhões para 11,5 milhões, influenciadas em parte pelo aumento da população e pelo envelhecimento global. E há evidências epidemiológicas que esta tendência é emergente em países em desenvolvimento.

O motivo de atenção é ainda maior, pois a população brasileira está envelhecendo numa velocidade mais rápida que a das sociedades mais desenvolvidas, o que produzirá grande impacto nos sistemas de saúde, com elevação dos custos e do uso de serviços. Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nas próximas duas décadas o número de pessoas com mais de 60 anos de idade vai mais do que triplicar, passando dos atuais 22,9 milhões, o que totaliza 11,34% da população, para 88,6 milhões, que representarão 39,2% da sociedade brasileira. Enquanto a quantidade de idosos, que hoje em dia representa 21,5% da população mundial, vai duplicar no mundo até o ano de 2050, ela quase triplicará no Brasil, tornando o Brasil o sexto país com o maior número de idosos.

A especialista aponta que a incidência do câncer aumenta drasticamente com a idade, provavelmente devido ao acúmulo de riscos para os cânceres específicos, já que os idosos são mais vulneráveis, pois já enfrentaram mais situações adversas e conviveram com um maior número de compostos tóxicos e poluentes. Além disso, o risco de mutações genéticas ocorrerem também é mais alto quanto maior for a idade da pessoa.

"Como o Brasil será um país com grande número de idosos, e como pessoas desta faixa etária têm mais chances de desenvolver câncer, o número de mortos por essa doença deve aumentar nas próximas décadas", explica Márcia. Isso, segundo a professora, causa uma demanda por realização de pesquisas na área que busquem entender as bases biológicas desta doença. A professora conta que espera-se que a partir dos estudos sobre câncer obtenha-se a longo prazo a base para uma nova droga antitumoral, mais eficaz do que as existentes.

Atualmente, os pesquisadores estão modificando estruturalmente a substância, para encontrar sua melhor eficácia e realizar testes em combinação com medicamentos quimioterápicos, com o objetivo de verificar se há uma melhora do tratamento e menores efeitos colaterais. Além do DQ, a pesquisa realizada no DGero também conta com a colaboração do Departamento de Ciências Fisiológicas da UFSCar e laboratórios de outros países, além de outras instituições brasileiras.

Para que no futuro os testes em humanos aconteçam serão necessários investimentos de indústrias farmacêuticas. Até o momento a pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoas de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Mais informações sobre o grupo de pesquisa Biologia do Envelhecimento da UFSCar podem ser encontradas em www.laben.ufscar.br.