Notícia

Pellegrino

Sua loja S/A

Publicado em 01 junho 2008

Por Sandra Godoy

O momento econômico brasileiro atual –cheio de boas notícias, como a conquista do grau de investimento e os sucessivos recordes da indústria automobilística– é o ideal para pensar em crescimento. Você está preparado?

Os últimos meses têm sido pródigos em boas notícias para a economia brasileira. Apesar da turbulência mundial causada pela crise imobiliária norte-americana, o Brasil está, aparentemente, em uma rota de crescimento seguro e sustentável. Prova disso são os sucessivos recordes de produção e vendas da indústria automobilística, a descoberta de novos –e gigantescos– campos de petróleo e, mais recentemente, a recomendação de grau de investimento dada ao país por duas das três principais agências de classificação de risco de crédito –a Standard & Poors e a Fitch. Essa avaliação significa, em poucas palavras, que o Brasil entrou para o seleto clube dos países confiáveis para investimentos.

Antes mesmo da nova classificação do Brasil no cenário financeiro internacional, outro sinal de que as coisas andam bem por aqui foi o expressivo número dos chamados IPOs, processos de abertura de capital, que em 2007 foram oito vezes superiores ao número de 2004. Com a presença cada vez maior de empresas com ações no mercado, a Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) está prestes a se tornar a segunda maior bolsa do mundo. Ao mesmo tempo, as empresas deixam de depender apenas dos empréstimos bancários para custear seus projetos de expansão, para, em vez disso, captar dinheiro novo, vindo de seus acionistas.

Está tudo muito bom, mas aí você pergunta: o que eu tenho a ver com isso aqui no varejo de autopeças? Tem muito a ver, sim. Com a economia indo bem, praticamente todos os setores se expandem, e o automotivo é um dos que mais sentem essas mudanças. E mais: nos últimos dois anos, nada menos que 20 milhões de brasileiros emergiram das classes D e E e entraram para a classe C, a chamada classe média, que é o motor das economias desenvolvidas. Ou seja, é mais gente consumindo, inclusive automóveis e utilitários, novos e usados, para uso pessoal ou de seus pequenos negócios.

Embora para a grande maioria das empresas brasileiras a realidade passe bem longe dos IPOs e das bolsas de valores, é possível, sim, pegar carona no crescimento do país, na opinião de Luis Alberto Fernandes Lobrigatti, consultor em gestão de negócios do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) em São Paulo. “O universo empresarial brasileiro é muito vasto. A maior parte das empresas luta para sobreviver, mas algumas têm uma visão diferente, a da ampliação do empreendimento”, explica.

Crescer para onde?

E, para crescer, há várias alternativas: aquisição de outras empresas, abertura de novas filiais, oferta de novos produtos ou serviços ou mesmo a ampliação física do negócio. Mas, em todos os casos, o problema é o mesmo: como levantar recursos. Há várias opções, também, como ampliação da sociedade com a entrada de novos parceiros, sejam eles ativos ou não no negócio; empréstimo bancário; linhas de financiamento do BNDES, Finep, Fapesp; venda de ativos ou até mesmo do patrimônio pessoal. E ainda algumas novidades como private equity e angel investor, que estão chegando para injetar dinheiro nas pequenas empresas brasileiras.

Para Lobrigatti, a decisão de ampliar a sociedade com a chegada de um novo sócio que irá participar diretamente do negócio pode ser interessante, desde que sejam tomados alguns cuidados, principalmente antes de sua entrada. “É necessário estabelecer por escrito quais as atribuições de cada um, tendo como propósito sempre o sucesso do negócio”, afirma. Parece fácil, mas muitas vezes a chegada de um novo sócio –seja parente, seja amigo ou investidor capitalista– pode acabar com a empresa.

“Quem tem sócio tem patrão”, declara o professor Ricardo Humberto Rocha, da FIA (Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo). Por isso, para não se tornar empregado de seu parceiro –e para que a sociedade não termine de forma trágica para a empresa–, ele também sugere que tudo seja bem discriminado no contrato social, e que este seja feito por um advogado. “Os sócios nem sempre precisam concordar, mas devem estar afinados com a estratégia do negócio.” Para o consultor do Sebrae, a sociedade não é uma relação afetiva, mas deve haver sinergia entre as partes. “Nesta relação, deve haver a complementaridade, que é a soma das habilidades de cada um para o sucesso da empresa”, avalia.

Investidor

Existe também o chamado “sócio capitalista”, que é o investidor que entra com o dinheiro, mas não participa diretamente da gestão. Ricardo Rocha recomenda cautela também para este tipo de sociedade, porque a pressão do investidor é grande, às vezes maior do que a da instituição bancária que empresta dinheiro a juros. “Outro caso problemático é ter como sócio uma pessoa jurídica”, alerta. “É preciso investigar a fundo a situação dessa empresa antes de se associar.”

José Carlos Assis Dornelas, também professor da FIA (Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo), é especialista em empreendedorismo e planos de negócios e está para lançar um livro que tem tudo a ver com este assunto, conforme adiantou para a Revista Pellegrino, chamado “Como Conseguir Investimentos para seu Negócio – da idéia à abertura de capital”, pela Editora Campus. O lançamento está previsto para julho.

No livro, Dornelas disseca as diversas formas de levantar recursos para o crescimento, das mais tradicionais, como linhas de crédito em bancos privados, estatais ou de desenvolvimento, até novidades que ainda soam um pouco estranhas por aqui, como private equity e angel investor. Criado nos Estados Unidos nos anos 40, private equity consiste no investimento em empresas com expressivo potencial de crescimento. Essa forma de  investimento é até comum em negócios de grande porte, mas só aos poucos vai chegando às empresas menores. Para Dornelas, este é um negócio de futuro e que pode libertar o empreendedor dos empréstimos bancários, assim como a figura do angel investor, ou investidor anjo, que é muito comum nos Estados Unidos, principalmente em empresas de tecnologia. “Essas duas modalidades se caracterizam pela entrada de capital de fundos de investimento por um tempo determinado na empresa, e depois de um certo tempo eles se retiram, com o empreendedor tendo a opção de recomprar sua parte na sociedade”, explica.

Luís Alberto Lobrigatti, do Sebrae, acredita, contudo, que a realidade da pequena empresa brasileira –com exceção do setor de tecnologia– ainda está distante desse tipo de investimento. “Ainda vai levar um bom tempo para isso pegar no Brasil”, opina. Ele acha que, por enquanto, as opções mais factíveis são a entrada de novos sócios e o empréstimo bancário. “Aí, fica para ele decidir entre os prós e os contras de cada opção. E é bom saber que tudo tem risco, sempre.”

Ninguém gosta de pedir dinheiro emprestado a banco, principalmente por conta dos juros que ainda são muito altos no Brasil (na edição 85 da Revista Pellegrino, de fevereiro de 2007, fizemos uma lista das principais opções de financiamento bancário existentes no país). Mas há linhas de crédito mais em conta, como o Cartão BNDES, por exemplo, ou as oferecidas pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal, às quais já recorreu o empresário Luiz Agnaldo Espada, da Redave Peças e Serviços –box na pág. 29. Tanto José Dornelas quanto Ricardo Rocha, da USP, recomendam o Cartão BNDES como uma boa alternativa de crédito no mercado financeiro.

Lição de casa

Qualquer que seja a alternativa escolhida, porém, é necessário um planejamento cuidadoso, para avaliar o tamanho do passo a ser dado. “Todo empresário deveria ter tempo para o planejamento estratégico, o que nem sempre é possível, porque precisa ficar no balcão, fechar o caixa, lidar com fornecedores e toda a rotina operacional que consome o dia todo. No entanto, é preciso planejar, porque o mundo dos negócios é feito de riscos, mas eles podem ser previstos”, alerta o consultor Lobrigatti, do Sebrae.

Ricardo Rocha, da USP, acredita também que o crescimento começa com o empresário fazendo a lição de casa, ao cortar os custos que oneram seu negócio. “Mas não é demitindo funcionários ou cortando o cafezinho. É preciso conhecer muito bem todos os custos da empresa, como o quanto se gasta com linhas telefônicas ou com cartão de crédito, por exemplo”, explica. Ele chama a atenção também para a contabilidade da empresa, que deve estar nos trinques. “Não adianta deixar tudo nas mãos do contador, porque, quando precisar de um financiamento, se não estiver tudo em dia, o banco simplesmente nega”, adverte. Como ele diz, para crescer, é preciso começar olhando para dentro.

Em família

Quando se trata da expansão de sua empresa, a Radar Autopeças, de Jaraguá do Sul (SC), Rogério Luís da Cunha lança mão de todos os recursos disponíveis. Ao abrir a loja em sociedade com o sogro Abílio Olíndio Daniel, em 1998, usaram o FGTS de seus empregos anteriores para montar o estoque e fazer o capital de giro. Quando ampliaram a loja dos 100 m2 para os atuais 300 m2 construídos em um terreno de 900 m2, pediram empréstimos à Caixa Econômica Federal e ao Banco do Brasil, depois de muita pesquisa. Ele credita o sucesso de sua empresa ao bom relacionamento da sociedade, hoje composta também pela esposa Rosane e a sogra Maria de Lourdes, além dos filhos Rafael e Rodrigo, que também trabalham na loja. “Aqui, a gente não usa aquele ditado ‘parente, quanto mais longe, melhor’. Pelo contrário, é a confiança que temos um no outro que nos faz crescer.”

Sócio, só o filho

Antonio Leonardo Muniz, proprietário da LL Peças Diesel, de Contagem (MG), é conservador quando o assunto é sociedade. “Se você tiver um sócio capitalista, acaba virando empregado dele; amigo, então, nem se fala: chega um ponto em que a gente discorda e pode até brigar”, afirma. Para não correr esses riscos, ele tem como sócio o filho Thiago, de 22 anos, que também cuida da área administrativa da loja de 165 m2 e seis funcionários. “Eu fico mais tranqüilo”, diz. Ele também vê com desconfiança a onda de crescimento no país. “Em nosso caso, a gente luta é para sobreviver”, opina Leonardo, que considera o melhor negócio investir em peças e, com isso, fazer um bom estoque e conseguir vender a preços mais competitivos.

Crescimento sustentável

A Redave Peças e Serviços nasceu em 1989, na cidade de Assis Chateaubriand (PR), e em menos de 20 anos já está na sexta loja, cinco das quais em Curitiba (PR), com total de 70 funcionários. Seu proprietário, Luiz Agnaldo Espada, conta que, ainda no interior, recorreu a empréstimos combinados “no fio do bigode”, para expandir sua empresa. Ele também não hesita em recorrer a empréstimos bancários para alavancar seus negócios, mas, como ressalva, com muito planejamento. “Mesmo que o juro seja de 1%, se não houver um controle de estoque, vou ter de achatar a margem de lucro para não ficar no prejuízo”, justifica. Agnaldo considera a política de custos enxutos, o reinvestimento constante dos lucros na empresa e a diversificação dos serviços oferecidos como o segredo do crescimento da Redave. “Isso tudo mais o atendimento diferenciado”, completa.

Saiba mais:

Luis a. F. Lobrigatti (Sebrae)

0800 728 0202

www.sebrae.com.br

Ricardo Humberto Rocha (Fia)

www.fia.com.br

José c. A. Dornelas (fia)

(11) 3488-1814

dornelas@empreende.com.br

www.empreende.com.br

www.josedornelas.com.br