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Revista Química e Derivados

Startups jovens empreendimentos químicos geram inovação e resultados econômicos

Publicado em 01 agosto 2017

Por Antonio Carlos Santomauro

Startups, assim são denominadas as empresas nascentes, fundamentadas em inovação. Elas são frequentemente vinculadas às tecnologias da informação e comunicação, os campos mais propícios a esses empreendimentos, pois neles não há a necessidade de investimentos em plantas produtivas e, além disso, pequenas operações rapidamente podem atingir escala global, como ocorreu com Facebook e Uber, entre vários outros exemplos.

A despeito das dificuldades, cresce a presença de startups nas atividades industriais, até no setor químico (histórias de startups do setor nas próximas páginas). Difícil imaginar espaço para elas em um mercado dominado por enormes transnacionais, mas fatores como necessidade de produtos mais afeitos à sustentabilidade ambiental, mudanças nos processos produtivos e a evolução dos modelos de relacionamento com outros integrantes da cadeia fazem com que até os grandes players se tornem agentes de promoção de startups.

A Basf, por exemplo, gerencia em sua matriz alemã o fundo de investimentos BasfVenture Capital, focado na compra de participações em novos empreendimentos. No ano passado, lançou o AgroStart, programa no âmbito latino-americano e gerido a partir do Brasil , que seleciona startups dedicadas ao agronegócio para um programa de aprimoramento e desenvolvimento.

Desenvolvido em parceria com a aceleradora Ace (ver quadro com informações sobre aceleradoras e outros mecanismos de fomento a startups), o AgroStart privilegia cinco focos de inovação no agronegócio. Entre eles, gestão - inclusive gestão de agroquímicos - e a chamada 'agricultura de precisão', que já recebeu mais de duzentas inscrições. "Alguns dos projetos inscritos estão sendo acelerados, mas não posso dizer quantos ou quais", relata Almir Araújo, gerente de marketing digital para a América Latina da Basf. Ele crê que as parcerias com startups serão importantes para as empresas químicas, até para melhor associá-las ao conceito Indústria 4.0 que inclui a automação e a internet das coisas entre outros aspectos.

Mas os empreendimentos inovadores também podem gerar novas moléculas e novos ingredientes químicos: "Recebemos alguns projetos desse gênero e os estamos analisando", comenta Araújo. Por sua vez, a Braskem encerrou em maio a terceira etapa de inscrições no projeto Braskem Labs, que nas duas edições anteriores recebeu mais de 350 inscritos, dos quais selecionou 3 I. Também desenvolvido em parceria com a Ace, esse programa visa acelerar o crescimento de negócios que, a partir de soluções baseadas na química e no plástico, podem produzir algum impacto social relevante.

O rol de projetos selecionados no Braskem Labs inclui um módulo portátil que permite a pacientes acamados ou com dificuldade de locomoção tomar banho ou se higienizar sem sair do leito, além de uma solução biodegradável que elimina a necessidade da descarga após alguém urinar (assim , reduz em 75% a água consumida em vasos sanitários). Eduardo Peres, head de negócios em petroquímicos básicos da Braskem, considera "essencial" a consolidação das startups no setor químico, pois, com as grandes empresas mais focadas em commodities e produtos básicos, elas podem ser mais ágeis na busca de novos produtos e na percepção de novos nichos. E os dois lados ganham com as parcerias. "Os empreendedores podem ter acesso ao know how e aos relacionamentos das grandes empresas. Essas, por sua vez, até estimularão seus colaboradores que, trabalhando com startups, vêm a química e o plástico sendo usados em projetos interessantes e descolados", destaca Perez.

OPORTUNIDADES E VIABILIZAÇÃO

Embora os projetos fundamentados em tecnologia da informação e da comunicação ainda sejam amplamente majoritários, startups vinculadas à manufatura começam a se tornar mais comuns. Nesse segmento, a indústria química constitui universo particularmente promissor: "Há nesse setor oportunidades em segmentos como a química verde a impressão 3D - que exige novos materiais -, e a nanotecnologia", especifica Hudson Mendonça, diretor do comitê de CleanTech da Associação Brasileira de Startups - ABStartups (propondo bens e serviços ambientalmente mais amigáveis, o conceito cleantech, aliás, sustenta muitos projetos de inovação na indústria). Na realidade, pode-se inovar em qualquer atividade, pondera Cassio Spina, fundador e presidente da Anjos do Brasil (entidade que congrega investidores que destinam recursos a startups ). "Inovação não se refere apenas a produtos, mas também a processos e modelos de negócios", argumenta. Sergio Risola, CEO do Cietec (incubadora da Universidade de São Paulo-USP), avalia haver atualmente no Brasil o amadurecimento de um ambiente favorável ao desenvolvimento de startups. "Recebo continuamente grandes empresas em busca de parcerias para inovação", relata. "O fluxo de investimento ainda é inferior ao que eu desejaria, mas bons projetos podem até escolher entre investidores", acrescenta Risola.

Além disso, ressalta Mendonça, da ABStartups, empreendedores hoje dispõem de ferramentas bastante acessíveis para auxiliá-los em seus projetos empresariais: contadores que trabalham em pool para reduzir os preços de seus serviços, ferramentas de gestão via internet mediante pequenas mensalidades ambientes de coworking que reduzem os custos com as estruturas físicas de administração, entre outras. Algum interessado em criar uma startup, recomenda Mendonça, deve inicialmente buscar o apoio de alguma operação de aceleração, que pode lhe fornecer alguns recursos financeiros, mas é importante sobretudo por sua rede de contatos e por ações de capacitação.

Caso não tenha ainda nenhum conhecimento do universo de negócios, ele pode até começar por uma incubadora, para depois chegar a uma aceleradora. "Depois, é preciso contatar investidores, existem fundos privados, organismos e instituições, interessados na área química", enfatiza. Exemplo de instituição com recursos alocados em startups do setor químico é a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que já destinou R$ 2 milhões para a IQX, startup abrigada em uma incubadora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) cujo portfólio inclui aditivos para recuperação de borracha e para confecção de materiais com proteção contra descargas eletrostáticas. Oriundos de um programa denominado Pipe (Pesquisa Tnovativa em Pequenas Empresas), tais recursos visam também inserir a IQX no mercado internacional. Por enquanto, as duas sócias da IQX preferem não contar com investimento privado, esperando que seu empreendimento se valorize mais. Mas em duas ocasiões elas já apresentaram a empresa a potenciais investidores e notaram ser ainda bastante reduzidos, no universo das startups, os negócios não relacionados à tecnologia da informação e comunicação. "Mesmo nesse cenário pouco favorável,já fomos procuradas por investidores", diz Silmara Neves, uma das cri adoras e sócias da IQX.