Neste domingo (03/12), é comemorado o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência. A data, criada pela Organização das Nações Unidas em 1992, busca mobilizar a defesa dos direitos e do bem-estar dessa parcela da população — que soma 18,6 milhões de pessoas no Brasil, o equivalente a 8,9% da população com mais de dois anos, segundo o IBGE.
Apesar do tamanho desse público e da possibilidade de criar negócios com diferentes enfoques — como mobilidade, saúde e educação —, o ecossistema de inovação do país ainda dá pouco destaque a essas soluções. Não há, por exemplo, um mapeamento do número de startups que exploram esse setor, diferentemente do que ocorre com segmentos como healthtech, femtechs e fintechs.
Amure Pinho, fundador do Investidores.vc, acredita que o mercado é promissor, mas, ao mesmo tempo, diz que é um desafio para as empresas crescerem com essas soluções, por serem vistas como áreas com pouco dinheiro. “Em geral não é um setor sexy, com muito exit. É um setor às vezes governamental, com mais impacto do que negócio. Então, os empreendedores precisam encontrar investidores que já investem no tema e que sejam mais flexíveis”, opina.
Outra percepção de Pinho é de que não há aceleradoras e incubadoras que abracem essas soluções, o que já ocorre com negócios sustentáveis e soluções para mulheres, por exemplo. No Reino Unido, por exemplo, esse modelo é explorado pela Remarkable, que acelera e investe em startups que desenvolvem tecnologias para pessoas com deficiência. Por lá, já passaram 50 empresas que apostam na acessibilidade.
Mesmo em meio a desafios, empreendedores apostam nesse segmento no Brasil. Conheça três startups que inovam com soluções para pessoas com deficiência:
A história da Acesse-me começa com a saga de Luiza Caetano, mãe de Camila Caetano, fundadora da startup. A empreendedora tem uma doença rara chamada Fêmur Curto Congênito, que consiste em uma má formação óssea caracterizada pela diminuição do tamanho ou ausência do fêmur. A mãe dela procurou 20 médicos até receber a opção de submeter a filha a uma cirurgia.
Mesmo depois de adulta, Caetano era chamada por médicos para contar a sua história para mães e pacientes com deficiência. “Tantos anos depois, a gente com Instagram, Facebook, e ainda precisamos do meu discurso?”, reflete.
A partir desse questionamento, ela decidiu fundar a Acesse-me, em 2019. A solução é uma plataforma que proporciona a conexão de pessoas com deficiência entre si e com empresas e médicos especializados. Neste dia 03/12, a startup lança a Contrate-me, uma plataforma usa inteligência artificial para fazer currículos e conectar perfis a vagas.
A empreendedora já participou de um programa de aceleração no Vale do Silício e recebeu um aporte de US$ 340 mil da canadense Venture Development Institute. Embora o investimento seja positivo, a fundadora lamenta que existam poucas iniciativas semelhantes no Brasil.
A startup ainda não dá retorno financeiro, mas Caetano vê potencial na ideia, que conta com 1 mil pessoas cadastradas e já teve 30 clientes. “Estamos falando de pessoas que durante décadas estiveram à margem da sociedade. Temos sempre de mostrar que funciona, e as pessoas perguntam: ‘por que não faz uma ONG?’. Mas é um negócio que já foi validado e pode funcionar de forma autônoma e gerando dinheiro”, diz.
Guiaderodas
Bruno Mahfuz sofreu um acidente de carro em 2001 e, desde então, utiliza cadeira de rodas. A partir da sua própria experiência, criou um aplicativo, em 2016, que possibilitasse a avaliação da acessibilidade de diferentes locais, como restaurantes, supermercados e hotéis. Surgiu, assim, a startup Guiaderodas.
“Sua utilização promove a conscientização e proporciona maior previsibilidade para pessoas com restrição de mobilidade, facilitando o planejamento de suas atividades e deslocamentos”, explica Mahfuz.
A outra atuação da Guiaderodas é a certificação de empresas, que reconhece e aprimora as melhores práticas de acessibilidade e inclusão. É desse braço da startup que vem a monetização do negócio. O aplicativo tem cerca de 50 mil downloads e tem mais de 50 empreendimentos certificados.
Mahfuz conta que, em 2020, a startup recebeu um investimento de R$ 1,7 milhão da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para o desenvolvimento de novas ferramentas no aplicativo. Para o empreendedor, o principal desafio de atuar no setor é engajar pessoas que não têm deficiência.
Vínculo.app
Fundada por Rafael Anselmo, em 2019, a Vínculo.app surge da experiência do empreendedor com o filho, que tem Síndrome de Down. Como já era da área da tecnologia, o empreendedor decidiu criar um aplicativo para uso próprio que facilitasse a comunicação entre os profissionais que acompanhavam a criança. Percebendo que a ideia era promissora, participou de programas de aceleração e lançou a startup no final daquele mesmo ano.
Hoje, a Vínculo.app funciona como uma govtech que atende escolas de mais de 10 municípios dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso e Recife. Pela plataforma é possível fazer uma avaliação diagnóstica do aluno, que é então usada por uma inteligência artificial própria na geração de uma estratégia de ensino fundamentada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
O processo é usado como base para o trabalho dos professores, que podem fazer registros do dia a dia na plataforma. Em casa, a família também pode ter acesso ao app, que disponibiliza conteúdos como lições de casa, games e vídeos.
O foco da solução são as pessoas com deficiência, com autismo e superdotação, mas ela também pode ser usada por alunos que possuam outros tipos de dificuldade na escola, como déficit de atenção.
Anselmo conta que nunca recebeu aporte financeiro e que está exatamente nessa busca para conseguir escalar a startup. Além de chegar a novos estados, ele pretende explorar o mercado de colégios particulares e quadruplicar o faturamento no próximo ano. “As escolas privadas ainda têm muita resistência com pessoas com deficiência. Elas entendem que a criança vai dar mais custo para eles, então fazem um preconceito velado. Meu filho mesmo já foi negado, com a escola dizendo que não tinha vaga”, conta.