Notícia

Folha de Londrina

Startups do agro

Publicado em 24 novembro 2018

Um estudo da Associação Brasileira de Startups aponta que o Paraná é um dos cinco estados brasileiros que concentra o maior número de agtechs do País. O Estado concentra 10% desse movimento recente - mas intenso - que por meio de tecnologias ligadas ao agro dentro de um ecossistema que respira inovação, está transformando a agropecuária mundial, independentemente se estamos tratando da produção de olerícolas numa pequena propriedade ou confinamento de gado em áreas altamente valorizadas, por exemplo. Uma ideia multidisciplinar de jovens engajados em diferentes áreas da tecnologia, associada a uma aceleradora ou incubadora, com a mentoria correta de instituições de pesquisa, cooperativas ou outros players do setor é fundamental para que esse ecossistema funcione de forma efetiva.

Londrina, sem dúvida, tem sido um case de sucesso e três anos após realizar o primeiro hackathon voltado ao agro do País, começa a colher frutos importantes. Esta semana, durante o evento Agro Bit Brasil, a Folha Rural encontrou tecnologias promissoras de aproximadamente 70 startups que, sem sombra de dúvida, têm todo o potencial para galgar espaço no agronegócio e fazer parte do dia a dia de produtores. Foram dois dias intensos no Parque Ney Braga, em um espaço criado para debater, apresentar e aproximar os produtores rurais e players do agronegócio à tecnologia e informações disponíveis nesta área. Foram realizadas cerca de 50 palestras, com especialistas vindos de vários estados do País, além da Austrália, Estados Unidos, Israel, França e Paraguai. A reportagem conversou com jovens de diferentes perfis e formações profissionais, que juntos estão engajados em emplacar tecnologias e serviços no agro, que no ano passado cresceu 13%. Para um dos precursores desse movimento na cidade e atualmente secretário da agricultura do Estado, George Hiraiwa, toda essa movimentação do ecossistema londrinense, que segundo ele, “começou quase de forma intuitiva”, está no caminho certo. “Um fato que destaca a SRP Valley e que faz com que a cidade tenha muita sorte é que estamos em fase de construção de outros ecossistemas também.

Entram as engenharias, tecnologia da informação, e isso ajuda a consolidar o ecossistema do agro”, explica. Ele ressalta que o trabalho precisa ser intenso e - a partir do momento que se tem uma estabilidade - as startups começam a se estabelecer, de fato, como negócio. “É a partir desse momento que entram os grandes validadores das tecnologias, que são os agricultores e as cooperativas. O Agrobit, por exemplo, foi concebido numa visão em que no primeiro semestre realizados os hackathons e no segundo semestre uma grande feira mostruária, apontando as tecnologia ao usuário final, os produtores. Ele percebe então que uma startup pode trazer eficiência ao seu negócio.” Após retornar da EuroTier, maior evento de inovação e maquinário para produção animal do mundo que acontece na Alemanha e terá uma versão no Paraná em 2019 (leia mais na página 7), Hiraiwa não tem dúvidas que o Estado está no caminho certo. “Vejo com otimismo e me impressiono com a rapidez nas adesões (das tecnologias). Tudo remete ao dia a dia, como hoje andamos de Uber, utilizamos a Amazon ou o AirBnB. Todo esse movimento quebra paradigmas de disrupção. A próxima revolução do agro vai acontecer em cima das plataformas de inovação”, finaliza.

Soluções personalizadas para o agricultor familiar

Em um primeiro momento, fica aquela dúvida se o uso de todo um aparato tecnológico pensado pelas agtechs podem, de fato, chegar a produtores rurais de pequeno porte. A utilização de sensores, ferramentes de Inteligência Artificial (IA), plataformas para consulta de dados e celulares parece ainda distante da realidade da agricultura familiar. Entretanto, as equipes multidisciplinares que atuam dentro de diversas startups do agronegócio trabalham muito forte para que as soluções cheguem de forma personalizada para cada caso e, assim, os custos das consultorias e equipamentos estejam acessíveis aos pequenos. E dessa forma que a StressCan, de Presidente Prudente, pretende trabalhar nos próximos anos.

O CEO da startup, Gustavo Saraiva, é biólogo com doutorado em agronomia. Há um ano e meio, durante um evento de startups, ele saiu com a ideia vencedora: um sensor com câmara térmica para monitorar o stress hídrico da planta, inclusive quando há irrigação em excesso. “A maioria dos produtores que irrigam não têm controle (da utilização de água). Nossa ferramenta faz com que a ação aconteça na medidacerta,nempara mais nem para menos, não deixando a planta estressada fisiologicamente.” Os trabalhos estão sendo focados em hortaliças, com a atenção nos pequenos. Por isso, nem a torre de monitoramento nem os sensores são vendidos, mas sim locados, como se fossem os aparelhos de uma TV a cabo. Assim, o produtor faz o monitoramento de acordo com o bolso. “Temos o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo ) e por isso estamos iniciando a implementação dos serviços em hortas municipais do interior do Estado.” Já do interior do Rio Grande do Sul, uma turma do pé da serra, região de Taquara, em meados de 2016 começou a trabalhar comtomates.

Profissionais de diversas áreas, com origem no campo, queperceberamas dificuldades para saber com exatidão como irrigar de forma mais eficiente, com os nutrientes corretos, e demais etapas para melhor rendimento. Assim nasceu a startup Elysios. “Criamos o sistema para cuidar da nossa estufa de 700 pés de tomate em Taquara. Minha dissertação de mestrado foi então em arquitetura de comunicação entre sensores, uma plataforma de processamento e aplicativo no celular. Assim temos sensores espalhados pelo ambiente: luminosidade, temperatura e umidade relativa do solo... com tudo isso junto criamos umbanco de dados, processamos numa plataforma de IA, que traz esses dados para o produtor”, explica Matheus Crespi, formado em ciência da computação. Em bate papo com a reportagem, os jovens mostraramque a ideia inicial é trabalhar com tomate, folhosas e, claro, olhando para a agricultura familiar, origem de muitos que fazem parte do projeto. “Por isso, criamos um sistema modular, entregando uma solução que seja adequada a cada produtor, se adaptando a necessidade dele. Esse é o nosso lado menos startup, emque olhamos para o produtor rural (de forma mais humana)”, relata o economista Frederico Brito. (V.L.)