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Startups de hardware são a chave para a próxima revolução digital

Publicado em 14 outubro 2016

O conceito de Internet das Coisas tem tomado cada vez mais espaço no dia a dia das startups, principalmente quando o objetivo da empresa é gerar integração e dinamismo. O termo IoT se refere à próxima revolução digital, que pretende conectar o mundo físico e o digital. Mas para que isto ocorra, produzir apenas softwares não basta. Para que haja interação entre o online e o offline, o hardware é a peça-chave.

 

Sabe-se que criar uma startup de hardware não é algo específico, de uma única pessoa comprometida com a solução que desenvolve. Este modelo de negócio depende de um ecossistema que o suporte. Para entender melhor sobre este mercado e como está o cenário das startups de hardware no Brasil, falamos com atores deste ecossistema que empreendem, investem e aceleram estas empresas de base tecnológica que estão fazendo o futuro acontecer.

 

Ecossistema

 

“Quando começamos a Baita lá atrás, sempre tivemos a ideia de que poderíamos acelerar startups de hardware. Nós apostamos nisso desde o começo, porque percebemos um boom que estava começando na área de hardware que não estava sendo considerado nem mesmo no Brasil”, diz Rosana Jamal, sócio-fundadora da Aceleradora Baita.

 

A aceleradora, desde o início, desenvolveu um grande trabalho para entender como funciona o mundo destas startups, porque os sócios da Baita, segundo Rosana, sempre tiveram familiaridade com este universo, direta ou indiretamente e quando a aceleradora passou a integrar o programa Startup Brasil, apostou então em trabalhar com projetos de hardware. “Eu acho que nós fizemos uma coisa certa, porque na mesma época várias aceleradoras no mundo estavam começando a existir focadas especificamente em hardware”, diz Rosana, citando aceleradoras como a Bolt e Microsoft Ventures Accelerator.

 

Dores

 

A fundadora da Baita explica que, ao começar a se aprofundar no ecossistema das startups de hardware, descobriu que uma das maiores dores destas empresas é que existe ainda hoje um gap muito grande na área de profissionais que tenham interesse em desenvolver hardware, não só no Brasil. “O mercado focou extremamente em software por mais de 15 anos. As pessoas que queriam começar a fazer um hardware não sabiam das dificuldades que tinham nisso, então é um problema de educação muito importante”, enfatiza Rosana.

 

“Quando eu tinha que contratar um engenheiro de hardware era muito difícil, porque geralmente eles não vinham com capacitação na área de desenvolvimento, mas sim em áreas como negócios e integração de sistemas”. Este problema, hoje em dia está diminuindo, mas ainda está longe de acabar. “Toda startup de hardware tem que ter pelo menos uma pessoa com os cabelos brancos”, diz, se referindo à experiência que pelo menos algum integrante da equipe deve ter com tecnologia para desenvolver hardwares.

 

Outra dor, bem relacionada ao mercado brasileiro, é a disponibilidade de ferramentas de desenvolvimento e prototipação de forma barata, rápida e de qualidade internacional. No Brasil, uma empresa que for exportar um determinado componente pode demorar meses, por conta da logística e da burocracia no País. Este fator é um entrave que prejudica especificamente as startups de hardware, que dependem muito de volume na produção, e o mercado brasileiro muitas vezes não é o suficiente para suportar isso.

 

Associado a isso, outro fator importante é acesso a fornecedores de prototipação que aceitem pequenos volumes. Os produtos precisam ser produzidos em diversas versões e testados, até o produto final estar pronto para ir a campo. “Mas para fazer a prototipação os produtos podem ser feitos com dez unidades, por exemplo, não precisam ser feitas mil unidades de uma primeira versão. É uma arte você encontrar esse fornecedor que faça isso”, explica Rosana.

 

E não para por aí. Além do desafio de entregar o produto, existe o pós-venda. “Você tem uma série de obrigações para a startup como operação de manutenção, peças de reposição e logística de entrega. No software nada disso existe”, completa.

 

Incentivos

 

De acordo com Rosana, há carência de incentivos específicos para valorizar a produção de hardware nacional, como a Lei de Informática, por exemplo. Esta Lei oferece benefícios fiscais para as empresas que produzem no País, e em troca elas devem investir 4% de seus faturamentos em P&D no Brasil. Acontece que a empresa só recebe este benefício quando o produto já está pronto. “Isso só valoriza o produto quando ele já está pronto, não quando ele está sendo criado, então é mais fácil trazer o produto pronto de fora e produzir no Brasil do que criar aqui”, explica.

 

Não é como nos EUA, que criaram uma política de ‘created in America’, não ‘made in America’. De acordo com Rosana, “quando você cria no país não existe um benefício direto para isso. Existem os programas indiretos, que são Finep, Fapesp etc., que ajudam nesse processo, mas não é o suficiente para dar sustentação a criação de produtos brasileiros sem incentivos fiscais”, finaliza.

 

Investimento

 

“O meu primeiro investimento foi quando eu era consultor regional do Criatec São Paulo, foi em uma startup de hardware”, conta Francisco Jardim, sócio-fundador da SP Ventures. Ele diz que no início, foi chamado de louco por investir em hardware nacional, mas que acredita muito nesta revolução que a Internet das Coisas vai realizar.

 

De acordo com ele, o aporte neste modelo não é muito popular no Brasil entre os investidores, porque escalar estas startups ainda é difícil, principalmente se comparado com grandes mercados que oferecem uma concorrência agressiva, como Taiwan, China, EUA e Alemanha.

 

“Por isso nós (SP Ventures) investimos aqui. Por ter menos competição, mas principalmente porque a gente entende que o Brasil tem vocação tecnológica para ser muito competitivo em algumas verticais tecnológicas, como saúde e agronegócio”, explica Francisco.

 

Alguns dos mais recentes aportes que o fundo realizou foram na Agrosmart – uma empresa que utiliza o conceito de cultivo inteligente, monitorando fazendas em tempo real – e na Nexxto – especialista em soluções para Internet das Coisas, que ajuda empresas a otimizarem processos e reduzirem custos.

 

O ticket médio de investimento da SP Ventures em startups de hardware varia entre dois a seis milhões de reais e leva em consideração o time, mercado, estágio e diferencial do produto.

 

O Fundo de Inovação Paulista (FIP) tem apoio e recursos da Desenvolve SP, Finep, Fapesp, Sebrae-SP, CAF e Jive Investments para investir em startups paulistas. O fundo tem um capital total deR$ 105 Milhões. O FIP tem um portfólio-alvo de 20 empresas de base tecnológica, a serem investidas até 2017.

 

Segundo Francisco, o empreendedor que estiver pensando em começar sua trajetória neste mercado, precisa primeiramente pensar muito sobre captação de capital, porque desenvolver hardware não é barato. “É preciso também estudar muito o modelo de negócio, porque para que ele seja competitivo é necessário ter bastante estoque, fabricar o produto com base na quantidade estocada e levar isso para o cliente, para que seja recorrente ou pague a conta de alguma forma”, completa.

 

Empreender

 

Encontrar o caminho das pedras para o sucesso de uma empresa de hardware não é fácil. Amauri Sousa, CEO da Virtual Avionics, sentiu isso na pele. A startup, que tem três anos de existência, trabalha com soluções de hardware para simulação de voo, que serve para treinamento ou entretenimento. A empresa atende desde clientes B2C, que é um mercado de 20 milhões de pessoas no mundo, até o B2B, que são escolas, centros de treinamento e companhias aéreas.

 

Além de atender a um nicho bem específico, a empresa – que além do hardware produz o próprio software – tem vários tipos de produto. Desde um app até um simulador de voo, que é uma cabine real, completa para oferecer treinamento para pilotos.

 

Amauri conta que a primeira dificuldade que a empresa teve foi conseguir escalar a produção e, além disso, conseguir vender um volume alto. “A gente tem uma dificuldade no Brasil, porque a maioria dos componentes precisam ser importados, o que eleva bastante o custo da produção. Pra uma empresa que está começando, ser taxado com ICMS, ISS, IPI, fica bastante pesado”, explica.

 

Uma das soluções encontradas pelas startups é optar pelo Simples, para poder ter taxas menores, mas ainda assim é caro no início do projeto, pois, diferente de outros formatos de negócio, para ter lucro com hardware é preciso escalar.

 

As vendas em B2C da Virtual Avionics baseiam-se principalmente em exportações. Somente 5% das vendas de hardware da startup ficam no Brasil. Para ter uma margem de lucro mais satisfatória, segundo Amauri, é preciso vender para o exterior.

 

Mas não é tão simples: o empreendedor precisa pensar e medir a parte de retorno de campo, manutenção, garantia e custos alfandegários, por exemplo, o que no Brasil é bastante burocrático. “É preciso muita paixão e ter um negócio bem estruturado pra poder seguir em frente”, explica Amauri.

 

Apesar da exportação dar lucro para a empresa, há também um problema que deve ser levado em conta: “se der defeito em algum equipamento lá fora, trazer de volta para o Brasil para reparo é praticamente impossível, então é menos custoso enviar um novo para o cliente”, diz.

 

Essa é a primeira startup em que Amauri trabalha, mas o empreendedor ficou cerca de 20 anos na área de tecnologia, entre empresas multinacionais e pequenas. Sua startup foi acelerada pelo Startup Brasil, o que fez com que os sócios começassem a se dedicar em tempo integral na empresa. Eles receberam investimento-anjo em 2014, cujo valor não pode ser divulgado, mas ele garante ter sido acima de um milhão de reais.

 

Antes de criar a startup, Amauri fazia curso de piloto privado e sempre foi apaixonado por aviação e tecnologia.  Por isso, queria melhorar a experiência em aviação através de simulação de voo e, para que isso acontecesse, ele precisava de um equipamento que só tinha no exterior. Como custava muito caro, ele achou que seria melhor se comprasse os equipamentos e construísse um do zero.

 

A quantidade mínima que ele conseguiu fabricar, e ainda assim com um preço bem amargo, foi dez unidades. Para recuperar o investimento, Amauri colocou no Mercado Livre as peças para vender. O sucesso foi tanto que ele vendeu as dez e acabou ficando sem nenhuma. Com o dinheiro adquirido na venda, construiu mais 20 e vendeu todas também, e foi assim que a startup surgiu e o MVP foi validado.

 

Atualmente, a equipe da Virtual Avionics está tentando escalar através de vendedores e distribuidores de fora do País. “Eu diria que até hoje a gente está tentando validar o MVP que seja o mais lucrativo possível”, explica.

 

Para ele, o Brasil está repleto de profissionais de excelência e conhecimento de como fazer, mas o País ainda não está preparado para fomentar empresas de pequeno porte de alta tecnologia para fazer hardware. “O Brasil é um grande exportador de tudo o que é relacionado à agricultura, por exemplo, mas para uma startup começar a vender lá fora ainda é muito complicado”, finaliza.

 

Movimento Maker

 

Embora ainda existam todos estes desafios para quem empreende com hardware, o movimento Maker está lutando para ter cada vez mais força e espaço no Brasil. Um exemplo de que a cultura do “Faça Você Mesmo” está em constante crescimento por aqui é o interesse cada vez expressivo das grandes empresas por esse universo. O Distrito Makers, por exemplo, é o primeiro coworking com laboratório de prototipagem no País.

 

“O movimento maker é uma revolução industrial e veio para ficar. É a tendência da indústria futura, é aquela coisa de você prototipar rápido e a baixo custo, o que democratiza a criatividade e o poder de inovar. O Brasil precisa muito inovar e o nosso foco é fomentar esse movimento”, destaca Rafael Coffani, Gerente Geral do Distrito Makers.

 

Com foco em Internet das Coisas e inovações tecnológicas, o espaço, além de ser um coworking para startups e empreendedores que precisam de ferramentas para colocar seus projetos na prática, o local promove matchmaking entre as startups residentes e grandes empresas.O espaço também oferece diversos tipos de cursos, palestras e workshops. O Startupi foi conhecer o espaço, para saber mais clique clique aqui.

 

E não é apenas o setor privado que está procurando fomentar o desenvolvimento destas práticas por aqui. Hoje, a cidade de São Paulo tem a maior rede pública de Fab Labs do mundo. São 12 laboratórios criativos espalhados por toda a cidade, desde o centro até às periferias.

 

As unidades são equipadas com impressoras 3D, fresadoras de precisão, fresadoras de grande porte, máquinas de corte a laser, de corte de vinil, de termoformação a vácuo e scanners 3D, além de todas ferramentas de marcenaria, que permitem que todos os usuários produzam qualquer coisa que se possa imaginar. Os cursos oferecidos nos Fab Labs da prefeitura podem ser diários, semanais ou mensais, de acordo com a carga horária de cada um e a profundidade do tema a ser abordado no curso.

 

“Aqui a gente faz qualquer coisa que se possa imaginar, desde robôs e engrenagens até anéis, basta desenhar e programar a máquina para fazer. É como se o filho estivesse aprendendo na oficina do pai. Se ele usar as máquinas e gostar dos resultados, ele pode fazer um curso mais longo e se aprofundar nas teorias”, afirma Douglas Alexandre, um dos coordenadores dos Fab Labs. Ele diz também que todos os softwares são livres, onde todos os protótipos são disponibilizados para que as pessoas possam baixar de casa gratuitamente e programar de qualquer lugar a mesma coisa que aprenderem nos cursos.