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Startup unicórnio Movile, que controla o iFood, foi criada em Campinas. Veja entrevista exclusiva com o CEO Fabrício Bloisi

Publicado em 12 julho 2021

Por Adriana Menezes

Criada pelo baiano Fabrício Bloisi, a Movile começou em Campinas como uma startup que depois de várias fusões se transformou em uma das mais importantes holdings de tecnologia do mundo, líder na América Latina, da qual fazem parte as empresas Wavy, PlayKids, iFood, Zoop, Sympla e Movile Pay. É uma das 10 primeiras startups unicórnio brasileiras (nome dado às startups com modelo de negócio escalável que em curto espaço de tempo atingiram um valor de mercado de US$ 1 bilha~o). Ex-estudante da Unicamp, Bloisi é hoje um dos principais nomes da inovação no Brasil.

Em entrevista exclusiva ao Campinas.com.br, o empreendedor e CEO do iFood reconhece a região como polo industrial e tecnológico, a exemplo do “Vale do Silício”, região do estado da Califórnia (EUA) que concentra empresas com domínio tecnológico em todo o mundo. “Campinas é um verdadeiro polo empreendedor de conhecimento e tecnologia, ambiente amplamente voltado para a inovação”, diz Bloisi. “Nossa relação com Campinas é perene e até hoje mantemos parceria com a Unicamp.”

Para que esta vocação se perpetue, ele acredita que é preciso atuar localmente mas com uma mentalidade global. “Tornar-se global deixou de ser uma opção, é uma necessidade. Não precisamos ter síndrome de inferioridade. É preciso acreditar no potencial disruptivo da tecnologia.”

Entre os seus segredos de sucesso, ele diz que é fundamental continuar estudando e colocar as pessoas em primeiro lugar. “O que fazemos no iFood é referência mundial em food delivery, comparável aos grandes players norte-americanos e europeus. Muita coisa deu errado ao longo de nosso caminho, mas errar faz parte, aprender com erros e com os medos também.”

Confira a entrevista:

Campinas.combr – Como ex-aluno da Unicamp e criador da empresa-filha Compera, que logo se transformaria na startup unicórnio Movile após várias fusões, como você avalia a contribuição da cidade (seu ambiente, estrutura e cultura local) para o desenvolvimento de seus projetos?

Fabrício Bloisi – Minha história com Campinas começou lá atrás, como a cidade escolhida para dar início ao meu grande sonho de construir uma empresa gigante de tecnologia. Toda a dinâmica do ambiente acadêmico contribuiu para a criação da Movile e das empresas que vieram antes dela. Campinas é um verdadeiro polo empreendedor de conhecimento e tecnologia, a exemplo da Companhia de Desenvolvimento do Polo de Alta Tecnologia de Campinas (Cietec), onde criamos a Intraweb, que oferecia softwares e soluções em tecnologia da informação. Nossa relação com Campinas é perene e até hoje mantemos parceria com a Unicamp, apoiando por exemplo, a Inova (agência de inovação da Unicamp), além de termos escritórios de algumas empresas do Grupo Movile espalhadas pela cidade.

Campinas.combr – Quais as condições mais favoráveis que encontrou no cenário regional para desenvolver a Movile, uma das dez primeiras startups unicórnios brasileiras? E quais as condições mais desfavoráveis?

Fabrício Bloisi – O ambiente amplamente voltado para a inovação, os incentivos concedidos às empresas para instalar seus parques industriais e de pesquisas, além de oportunidade de estar ao lado de mão de obra qualificada formada nas universidades e nos centros técnicos, são pontos importantes. A tecnologia de ponta desenvolvida no “Vale do Silício brasileiro” é abrangente a vários setores da economia, o que traz uma diversidade de soluções e é outro fator que atrai a atenção das empresas. Ainda, a concepção urbanística e arquitetônica desses centros tecnológicos que abrigam as organizações com um conceito de prédios multiuso, onde funcionam data centers, laboratórios e unidades de pesquisa, entre outros, são motivos de sobra para explicar a relevância da cidade para o cenário de inovação no país.

Campinas.combr – A partir da experiência da Movile, que nasceu da fusão de duas startups principais e outras menores, você se transformou em um importante personagem da história da inovação no Brasil. E tudo aconteceu em um período de crise econômica no País. Como você vê hoje o cenário brasileiro para o desenvolvimento de startups? O que precisa mudar para que mais startups tenham chance de crescimento?

Fabrício Bloisi – É preciso ser local com uma mentalidade global. Aprender com os líderes de mercado é essencial. O que fazemos no iFood é referência mundial em food delivery, comparável aos grandes players norte-americanos e europeus. Acredito que temos um enorme potencial como país e que podemos ter muitas empresas de US$ 10 bilhões. Na Movile, trabalhamos para atingir esse objetivo, capacitando empresas com potencial global para expandir o ecossistema brasileiro. Tornar-se global deixou de ser uma opção – é uma necessidade. Portanto, ao visar apenas o mercado interno e não planejar uma estratégia para impactar vidas de maneira global, várias empresas brasileiras têm sido reféns de suas próprias limitações.

Não precisamos ter síndrome de inferioridade. Temos de fazer nossa parte – é preciso acreditar no potencial disruptivo da tecnologia, e saber que trilhões de dólares irão trocar de mãos para empresas novas e inovadoras nos próximos anos, fomentar a inovação e investir cada vez mais em iniciativas que acelerem a transformação com tecnologia. Podemos perceber um grande movimento de crescimento nessa área nos últimos anos, grandes investidores começaram a olhar para a América Latina e acredito que a tendência será de muito crescimento.

Campinas.combr – Quais as práticas da Movile que considera mais transformadoras e inovadoras?

Fabrício Bloisi – Incentivo bastante as pessoas a continuar estudando o tempo inteiro. Depois de minha pós-graduação na FGV, fiz cursos na Universidade Stanford e Harvard, e estou sempre estudando pela internet. Ter a capacidade de aprender constantemente é o que me capacita a manter uma empresa que está sempre mudando e inovando. Além disso, o modelo de negócios da Movile por si só é único e inovador, somos uma investidora estratégica que não aporta somente capital nas empresas, mas gestão, cultura, finanças, inovação, etc. Trabalhamos em um formato de ecossistema, que nos garante andar mais rápido, trocar experiências e conhecimentos, e muita sinergia. O maior diferencial da Movile e valores, entretanto, é sua cultura, colocando pessoas em primeiro lugar, e fortalecendo Inovação, Resultados, Ética e Foco no Cliente.

Campinas.combr – Com participação majoritária no iFood, na Sympla, na PlayKids – que já está em 180 países e tem ajudado muitas famílias durante a quarentena com os joguinhos para crianças –, a gigante Movile tem novas perspectivas após a pandemia? Ou seja, com a migração (e/ou crescimento) de muitos serviços para as plataformas digitais, o que mudou na Movile hoje e nas suas perspectivas para os próximos anos?

Fabrício Bloisi – O crescimento do digital acelerou ainda mais nossas empresas e contribuiu para agregarmos valor aos segmentos em que elas estão inseridas, como food delivery, fintech e logística. Para atingir nosso sonho grande de impactar a vida de 1 bilhão de pessoas por meio dos aplicativos e serviços de nossas investidas e contribuir com o desenvolvimento dos mercados em que atuamos, planejamos continuar investindo nas empresas que já fazem parte do Grupo, além de ampliar nosso portfólio, com o foco nas verticais de fintech, logística e games.

Campinas.combr – Quando ainda era estudante na Bahia e antes de vir para Campinas para estudar na Unicamp, quais as projeções que fazia para a sua vida profissional? Já tinha planos de empreender quando ainda era estudante? Passou pela sua cabeça que criaria uma empresa com ecossistema próprio e que se tornaria um “case” de startup unicórnio no Brasil?

Fabrício Bloisi – Bom, a minha história com a tecnologia começou aos 8 anos de idade, quando passei a programar computadores. E com o empreendedorismo posso dizer que foi durante a minha graduação na Unicamp. Neste período conquistei uma bolsa de iniciação científica da FAPESP para um projeto temático do professor Secundino Soares Filho sobre sistemas de energia elétrica e logo depois entrei na Empresa Jr de computação, a Conpec. E foi a partir dessa experiência minha conexão com a inovação, a academia e o primeiro passo para começar a pensar em um mestrado. Foi importante para me conectar melhor com a Unicamp, interagir mais com meus colegas e professores, além de me expor a novas experiências e aprendizados na área de tecnologia. No período em que eu estava na empresa júnior, ocorreu o mais interessante: comecei a materializar a possibilidade de abrir uma empresa. Acabei colocando a teoria em prática.

Campinas.combr – Quais eram seus maiores medos quando estava começando a startup em Campinas e o que você faria diferente?

Fabrício Bloisi – Muita coisa deu errado ao longo de nosso caminho. Já tivemos dificuldade de levantar dinheiro, vencemos adversidades, enfrentamos competidores muito mais capitalizados. Tudo isso fez parte de formarmos o que é a Movile hoje. Errar faz parte, aprender com erros e com os medos também.