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Startup cria simuladores de tecido para uso médico

Publicado em 18 fevereiro 2016

São Paulo - Uma startup de Ribeirão Preto (SP) criou um simulador de tecido humano que substitui produtos importados usados por profissionais de saúde para treino de biópsia. Mais barata, a versão torna viável para escolas de medicina a exigência de oferecer tais simuladores em aula.

Instalada no Supera, parque tecnológico da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, a Gphantom foi aprovada no programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e recebeu um aporte de R$ 200 mil para viabilizar a entrada do produto no mercado.

O nome da empresa comandada pelo físico médico Felipe Wilker Grillo é uma referência ao termo "phantom antropomórfico", como são conhecidos os simuladores de tecido no jargão médico.

Os produtos da Gphantom são constituídos de átomos de carbono e hidrogênio (hidrocarbonetos de cadeia longa) e de agentes de contraste como polímeros, elastômeros e gelatinas. Pó de vidro, cera de carnaúba, parafina granulada e cera de silicone também fazem parte da mistura que mimetiza o tecido biológico.

O phantom de mama, por exemplo, tem formato semelhante ao órgão humano e apresenta tecidos normais e anormais, como cistos e nódulos. Com esse material é possível identificar na imagem do ultrassom as lesões e treinar de modo preciso e real o procedimento do exame.

O protótipo foi testado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão e está em fase de registro de patente.

Sem improviso

Há relatos de uso de simuladores caseiros, como gelatina, frutas ou frango, para treinamento, ou de prática da técnica diretamente nos pacientes, devido ao alto preço e à durabilidade curta dos phantoms.

O professor-doutor de física médica da USP Antonio Adilton Oliveira Carneiro diz que um phantom usado só no diagnóstico de imagem em ultrassom pode ter 8 anos de vida útil; se manipulado em treino de biópsia, dura menos, dependendo do dano.

O uso de versões caseiras é um problema, pois não contempla o controle de fungos e bactérias, o que pode contaminar o aparelho de ultrassom e o ambiente hospitalar.

Segundo Grillo, o treino médico também é complicado se utilizar pacientes reais, pois a pouca prática pode gerar desconforto em ambos durante o procedimento. "Com o simulador, o radiologista pode apurar sua técnica, que exige habilidade das duas mãos: uma para operar o transdutor de ultrassom e outra para guiar a agulha até o local da punção", diz.

No site da Gphantom estão disponíveis para venda o phantom de mama e o de anestesia. A empresa agora trabalha em uma prótese de busto para biópsia de tireoide.

O preço médio dos produtos gira em torno de R$ 600, cerca de 50% mais baratos do que produtos importados equivalentes. Há ainda a possibilidade de reciclar o material, enviando o phantom desgastado para a empresa e recomprando-o por um preço mais baixo.

Demanda de mercado

O grupo internacional 3B Scientific, especializado na produção e comercialização de material didático para a formação médica, lançou em janeiro novos modelos de simuladores antropomórficos para treinamento guiado por ultrassom. No Brasil, os preços dos simuladores da 3B variam entre R$ 1.700 e R$ 2.700.

Segundo o diretor da 3B no Brasil, Sven Malunat, a produção desse tipo de material se deu devido a uma demanda significativa de mercado, e a partir do entendimento da necessidade de aperfeiçoar o treinamento de médicos, radiologistas e enfermeiros.

Segundo o Ministério da Educação (MEC), 291 instituições de ensino superior têm cursos de medicina no País.

Alguns simuladores de tecidos são de aquisição obrigatória por faculdades e centros radiológicos, explica a professora Divanízia do Nascimento Souza, do departamento de física da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Dependendo do produto, o preço vai de US$ 2 mil até US$ 30 mil. Por isso, os não obrigatórios - mas que precisariam ser utilizados para aperfeiçoamento da técnica médica e controle de qualidade dos equipamentos - muitas vezes não são comprados, diz.

Para a professora, a produção de phantoms nacionais e de qualidade é um avanço. A própria UFS produz alguns em trabalhos universitários, mas nunca viabilizou a técnica comercialmente. "Sabendo que outras universidades entendem a necessidade de produzir phantoms, devido ao preço dos importados, podemos ter esperança de também contribuir com o mercado futuramente", diz.