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Startup brasileira de biotecnologia cresce 437% e mira operação com foco no RS

Publicado em 18 maio 2021

Solução de controle biológico da Decoy já combate 100% das infestações de carrapatos em criações de produtores no Rio Grande do Sul

A startup brasileira Decoy Smart Control , desenvolvedora de soluções biológicas para controle de pragas - que viu seu faturamento crescer 437% em 2020, com relação ao valor apurado em 2019 -, agora mira suas operações para o estado do Rio Grande do Sul, região com os maiores produtores de rebanho bovino do Brasil e que sofre anualmente com as infestações de carrapato.

Em um laboratório de 80 metros quadrados no Supera Parque de Inovação e Tecnologia, localizado no campus da USP em Ribeirão Preto, a startup já recebeu R$ 1,8 milhão em investimentos privados desde 2015, ano em que foi fundada. No ano passado, a empresa recebeu R$ 810 mil em recursos públicos oriundos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e registrou uma receita bruta de R$ 1,6 milhões.

A partir de projetos consolidados no setor de agronegócios por meio de soluções para combate do carrapato-do-boi, a Decoy desenvolve dois produtos: um para ser aplicado no rebanho, e outro na pastagem, onde ficam 95% dos carrapatos de uma propriedade. As soluções têm como princípio ativo esporos de fungos, inimigos naturais da praga. Quando distribuídos no gado e no ambiente, entram em contato com o parasita, germinam e se desenvolvem, levando-o à morte em poucos dias.

Por meio de um tratamento estratégico e natural, o produto não deixa resíduos no leite e na carne e pode ser utilizado em todo o rebanho, inclusive em vacas prenhes e bezerros. “Além disso, a solução não é tóxica para humanos, e nem para os animais, e, como se trata de um inimigo natural dos ectoparasitas, não há problemas com resistência ao seu método de controle”, ressalta Lucas von Zuben, CEO da Decoy. O custo médio do tratamento gira em torno de R$ 4,50 por gado e R$ 25 por hectare ao mês.

Enquanto aguarda a aprovação de documentos junto ao MAPA para iniciar a comercialização, a startup atua diretamente no setor e tem um programa de parcerias com pecuaristas. “Disponibilizamos as soluções aos produtores por 12 meses e eles fornecem informações sobre o tratamento, além de uma ajuda de custo para o desenvolvimento das pesquisas. Hoje, temos parceria com mais de 800 produtores, de todos os estados do país, e já usamos nossas soluções em 100 mil animais” conta von Zuben.

Foco no Rio Grande do Sul

O Rio Grande do Sul é um dos maiores produtores de rebanho bovino do Brasil. O estado registrou uma produção de mais de 13 milhões de cabeças, em média, no triênio 2016-2018, de acordo com dados da Pesquisa Agrícola Municipal do IBGE. Os criadores da região, entretanto, enfrentam um problema sanitário comum entre os animais: a infestação por carrapatos.

Principal praga da pecuária gaúcha, os parasitas são transmissores da Tristeza Parasitária Bovina e causam a morte de ao menos 100 mil bovinos por ano, gerando grandes prejuízos à pecuária regional, segundo estimativas da SEAPDR. O ácaro é mais prejudicial aos rebanhos de raças europeias, criados predominantemente no Rio Grande do Sul.

João Queiroz, criador de gado de corte e melhorista de Semental sul-africano na Fazenda Jaguaretê, no Rio Grande do Sul, lidava com o carrapato em seu rebanho todos os anos. O produtor tem seis mil cabeças para abate e, há 12 anos, saiu de São Paulo para criar bovino 100% europeu. “Decidi me mudar para o RS por conta do clima, que é onde o gado europeu se adapta melhor, e também pelo carrapato, que, teoricamente, deveria ter em menor quantidade. Mas não foi isso o que aconteceu”, conta o pecuarista, que perdia cerca de 40 bois por ano pelo parasita, além do custo de cerca de três aplicações de pesticidas por mês nos animais.

O produtor conta que já testou várias formas de controle: pour on, sal para complementar, galinha-d'angola, rotação do pasto, entre outras opções. “Estes manejos ajudavam a diminuir a infestação, mas não resolviam”, conta. “Acabávamos perdendo parte da produção. Perdemos alguns animais por intoxicação, por utilizarmos muito veneno”, ressalta. Foi aí que Queiroz conheceu a Decoy. “Fizemos o teste com o tratamento biológico em um lote, e tivemos resultados excelentes. Foi só olhar para o nosso rebanho e ver a diferença. Agora continuamos a aplicação em outros lotes. A diferença é drástica da saúde do meu gado hoje em dia. Nunca mais perdi nenhum boi”, conta.

Iria Luiza Gomes Farias, criadora de Angus há 30 anos na cidade de Tupanciretã, lidava com o carrapato em seu rebanho todos os anos. A produtora faz o ciclo completo de 130 cabeças, e acompanhou uma alta infestação nos animais - e consequente incidência de Tristeza Parasitária. “Várias cabeças tiveram perda do escore corporal. Utilizei produtos químicos injetáveis e pour on para controle do carrapato, sem sucesso”, pontua.

Depois de inúmeras tentativas com carrapaticidas, Iria conheceu a Decoy. “Comecei a usar a solução, com banho por aspersão a cada 21 dias. O resultado foi muito bom, tive uma redução drástica na incidência da Tristeza Parasitária Bovina”, conta. Segundo a produtora, seus gastos com medicamentos, como terapia antimicrobiana, vitaminas e hepatoprotetores, usados principalmente no tratamento da TPB, foram reduzidos em 80%. “Os animais também pararam de perder peso”, conclui.

Luiz Germano Schroder, produtor de 1800 cabeças também da raça Angus, enfrentava o mesmo problema em sua criação, localizada em São Sepé. “Como tem muitas lavouras de soja aqui na região, tivemos uma redução de área para criação de gado, e isso fez com que houvesse mais animal por hectare, e essa lotação foi um dos fatores que desencadeou as grandes infestações de carrapato”, explica. “Além disso, com o uso recorrente de produtos nas lavouras com os mesmos princípios ativos dos carrapaticidas, nossas terras recebem resíduos dos produtos, fazendo com que os carrapatos se tornem resistentes”, pontua.

O criador chegou a perder diversos animais como consequência de uma infestação violenta do parasita em sua criação. “Usei todos os produtos químicos que poderia imaginar, pour on, e ainda assim aconteceu uma infestação muito forte. Nosso problema maior era a perda de peso e, em decorrência disso, os animais morriam”, conta.

Há um ano, Germano decidiu testar as soluções da Decoy nos animais e no pasto. “Quando apareceram as primeiras larvas, já começamos a fazer os banhos. Em quatro dias, os animais estavam limpos”, relata. “Passamos o verão todo sem qualquer produto químico, e nenhum animal teve perda de peso. Não perdemos nenhuma cabeça”, finaliza.