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Negócios Disruptivos

Startup 5.0: as jovens empresas dos empreendedores experientes

Publicado em 28 agosto 2019

Por Moacir Drska

Empreendedores com mais de 50 anos investem em suas próprias empresas, com negócios que vão da Loggi dos aposentados ao Tinder das residências compartilhadas

Em 1866, Henri Nestlé criou a mistura da farinha láctea, dando origem à gigante suíça que leva o seu sobrenome. Duas décadas depois, o farmacêutico John Pemberton inventou a fórmula da Coca-Cola. Já em 1955, Ray Kroc começou a transformar uma pequena lanchonete da Califórnia em uma das maiores redes de fast food do mundo, o McDonald’s.

Além das gigantes que criaram, esses três nomes guardam outro traço em comum: todos eles tinham mais de 50 anos quando fundaram suas empresas. Nestlé, 52 anos. Pemberton, 55. E Kroc, 52.

Histórias como a do trio ainda são um ponto fora da curva na trilha do empreendedorismo. Mas, a cada dia, mais e mais pessoas acima de 50 anos estão desafiando essa corrente.

“Empreender não era a minha primeira opção”, diz Pedro Wilson Leitão, 68 anos, fundador da 50Mais Courier Senior. Com 35 anos de experiência no setor de logística e em empresas como Rapidão Cometa e Itapemirim, ele se aposentou em 2014.

Quando decidiu voltar ao mercado de trabalho, pouco tempo depois, encontrou as portas fechadas. “Eu queria compartilhar essa bagagem, mas a minha experiência não contava. Me diziam que era para colocar o pijama e dar lugar aos jovens.”

Criada em 2017 e com clientes como Mercado Livre, Nestlé e Omo, a 50Mais Courier Senior tem como foco a última milha, como é conhecido no segmento de logística o trecho final antes de uma mercadoria chegar às mãos do consumidor.

Disponível em São Paulo e Grande São Paulo, a empresa se assemelha a serviços como Rappi e Loggi. Com uma diferença: os 200 entregadores cadastrados são todos aposentados, que fazem entregas em um raio de três quilômetros no entorno de suas casas. O próximo passo, programado para 2020, é expandir a oferta para outras capitais e Estados.

Alguns dados reforçam que Leitão não está sozinho nesse roteiro. Hoje, o Brasil tem 54 milhões de pessoas com 50 anos ou mais, segundo o IBGE. A projeção é de que sejam 90 milhões em 2045.

Uma pesquisa recente do Sebrae mostra que o número de empreendedores entre 50 e 59 anos cresceu 57% nos últimos treze ano

Uma pesquisa recente do Sebrae mostra que o número de empreendedores entre 50 e 59 anos cresceu 57% nos últimos treze anos, a maior taxa no período, seguida pelo salto de 56%, entre as pessoas acima de 60 anos.

O estudo mostrou ainda que 46,8% dos empresários com mais de 55 anos investiram em um negócio próprio por necessidade, com destaque para a falta de oportunidades no mercado de trabalho.

Nova fase

Outros fatores, como a maior expectativa de vida, ajudam a explicar esse avanço. “Essa é, de fato, a primeira geração que está vivendo mais tempo no Brasil”, diz Layla Vallias, cofundadora da Hype60+, consultoria voltada aos negócios dessa faixa etária. “E, de uma hora para outra, eles percebem que precisam planejar uma fase da vida com a qual até pouco tempo não contavam.”

No ano passado, a Hype60+ realizou uma chamada para identificar negócios voltados ao mercado de longevidade, que abrange um potencial de consumo de R$ 1,6 trilhão, segundo a consultoria.

O projeto atraiu a inscrição de 141 startups, tocadas ou não por empreendedores sêniores. Como prova da tendência recente, 73% das novatas têm menos de cinco anos. Do universo pesquisado, 43% foram criadas por pessoas com 50 anos ou mais.

Uma característica compartilhada por boa parte dos empreendedores maduros é justamente a fundação de empresas voltadas à solução de dores desse segmento. Esse é o caso da Senior Geek, que desenvolve e ministra cursos de tecnologia e empreendedorismo para pessoas acima de 50 anos, com o patrocínio de empresas como a Bradesco Seguros.

A empresa foi fundada em 2018, por Eduardo Balochini, 58 anos. Com uma bagagem de 34 anos em tecnologia, ou “desde os tempos da manivela”, como define, ele percebeu que muitos de seus amigos aposentados esbarravam na falta de conhecimentos tecnológicos quando decidiam voltar à ativa, seja em empregos formais ou em suas próprias empreitadas.

“Essas pessoas não esqueceram suas habilidades. Elas só precisam de uma repaginação, de alguém que as escute e dê voz às suas perguntas”, afirma Balochini, que também planeja a expansão para outras praças além de São Paulo. “Eu comecei como uma causa, mas percebi que poderia transformá-la também em um negócio.”

Já há quem combine propósito e ganho de tração no mesmo pacote. Criada em 2014, inicialmente como uma escola de desenvolvimento de games para crianças, a ISGame direcionou boa parte de seu foco ao público de idosos um ano depois.

“Percebi que criar games, no nosso método, ajudava a prevenir doenças cognitivas, como o Alzheimer”, diz Fabio Ota, CEO e fundador da ISGame. O empresário batia ponto como executivo de tecnologia desde meados da década de 1980, em empresas como Banco Fibra, Votorantim, Odebrecht Realizações Imobiliárias e CPM.

A abordagem foi validada por uma pesquisa apoiada pela Fapesp, que trouxe dois aportes no valor total de R$ 700 mil. E pela contratação de uma equipe que inclui profissionais como neuropsicólogos.

Além da escola-sede em São Paulo, a ISGame acaba de dar início ao seu plano de expansão via franquias. Já são outras duas no Estado, além de microfranquias itinerantes, que prestam serviços a centros de idosos. Até 2020, o plano é chegar a 20 franquias e 100 microfranquias.

A ISGame tem ainda outra fonte de receitas: o desenvolvimento de games para celular voltados a idosos. Com lançamento previsto para esse segundo semestre, a ideia é que o serviço seja cobrado, via assinatura, a partir do ano que vem.

Maduros e conectados

A tecnologia, de fato, parece permear diversos negócios do segmento. “Muitos deles começam no offline e migram para o digital, porque eles, ao contrário do que possa parecer, são digitais”, diz Layla, da Hype60+.

Fundada em 2017, a Morar.com.vc está justamente reforçando essa pegada. Uma espécie de Tinder das residências compartilhadas, a plataforma conecta pessoas para morarem juntas de acordo com as suas afinidades.

Até pouco tempo, a análise das métricas para o match, que inclui desde questões simples até posicionamento político, eram feitas manualmente pelas cofundadoras Veronique Forat, 62 anos, e Marta Monteiro, de 65 anos.

Agora, o site programa para outubro o lançamento de uma plataforma mais robusta, com novos recursos e na qual boa parte do processo será automatizado. A ideia é turbinar o número atual de 2 mil cadastrados, sendo que 70% deles estão entre 35 e 65 anos.

A dupla, com carreiras em marketing e no mercado imobiliário, se conheceu em 2016, durante um workshop sobre reinvenção do trabalho, para pessoas com mais de 60 anos. “O que mais nos impactou foi um palestrante que disse que todos estavam ali para pensar na segunda metade de suas vidas profissionais”, diz Veronique.

O fato é que a nova etapa trouxe alguns desafios e dissabores. “Chegamos a ouvir que nenhum fundo investiria em uma startup com empreendedores dessa idade”, afirma ela, que aponta um certo preconceito e falta de espaço no ecossistema para negócios tocados por essa faixa etária. “Nós podemos não ter o mesmo vigor de um empreendedor de 25 anos. Mas nada substitui a quilometragem que acumulamos.”

De olho nesse cenário, três ex-professores da ESPM fundaram, em abril, o Nextt 49+. Instalado em São Paulo, o projeto é um hub de empreendedorismo voltado a esse público. Além de funcionar como um coworking, a proposta é atuar como uma incubadora e oferecer mentorias, cursos, acesso a serviços e orientação para formatação e validação de modelos de negócio, entre outros recursos.

“Há um grande estereótipo de que o empreendedor é jovem, de garagem e nasceu pronto”, diz Mauricio Turra Ponte, cofundador do Nextt 49+. “Quando muitas das habilidades podem ser adquiridas, se transmitidas da forma correta para cada público.”

A inclusão desses empreendedores no ecossistema é realmente um desafio. “Eu estudei durante dois anos esse mercado, desde a definição de uma startup até os jargões usados”, diz Leitão, da 50Mais Courier Senior.

O fato é que algumas dessas novatas começam a falar a mesma língua desse ecossistema. A própria 50Mais é um exemplo. A empresa foi uma das dez selecionadas para um programa de aceleração do Facebook, com duração de três meses e realizado no primeiro semestre, assim como a ISGame, de Fabio Ota. E negocia agora um novo aporte, depois de receber R$ 480 mil de investidores-anjo.

A Morar.com.vc também segue o mesmo caminho. A empresa está em fase final de negociações para um primeiro aporte, depois de participar de um programa de aceleração do Sebrae.

Quem também quebrou barreiras foi a Senior Geek. A empresa passou por um programa de aceleração do Google, com duração de três meses, junto a outras startups. “O início foi traumático. Precisava de uma legenda para entender o que eles todos falavam”, diz Balochini. “Mas eles me ajudaram a formatar o meu negócio. E a entender que só estou começando.”