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SP terá que fazer uma gestão de leitos de UTI para evitar colapso, diz David Uip

Publicado em 19 março 2020

Por Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O infectologista David Uip, 67, que comanda o comitê paulista de enfrentamento ao coronavírus, diz que os hospitais públicos de São Paulo terão que fazer uma gestão de leitos de UTI para que o sistema não entre em colapso com o eventual aumento de casos graves.

Segundo ele, entre os desafios a serem enfrentados, como os pacientes que moram nas unidades de terapia intensiva por força de decisões judiciais e aqueles que ocupam leitos enquanto esperam um procedimento, como um marcapasso cardíaco.

Para Uip, o problema não é falta de leitos de UTI, mas, sim, de tudo o que é preciso para compor uma unidade desse tipo, especialmente respiradores. "Hoje, para comprar esses aparelho vamos ter que competir com a Europa."

Pergunta - Houve falha do estado em não ter contabilizado o primeiro paciente que morreu de coronavírus anteriormente como caso suspeito ou confirmado da doença?

Uip - Como o estado pode saber? Não tem como saber. A prefeitura não estava notificada e nós também não.

No caso da Prevent Senior, há uma relação entre um grupo privado com um laboratório privado. O grupo privado tem um hospital para internar os casos que eles acham que é de coronavírus. Eles pediram os exames a um laboratório privado, que está com demora de entrega por conta da alta de demanda de exames de assintomáticos. O exame não ficou pronto [antes da notificação da morte].

Impressiona o número de pacientes e funcionários infectados no hospital da Prevent Senior. Isso está acontecendo nas mesmas proporções em outros hospitais do estado?

Uip - Veja bem, eles têm doentes. Agora qual é o diagnóstico desses doentes? Eles me mandaram o relatório de doentes graves que ele têm no hospital, mas não veio o diagnóstico. Se são todos doentes com coronavírus, eles não podem afirmar, nem eu.

Veja essa outra situação. Houve duas mortes nos hospitais do Tatuapé e em Taipas e falaram que era por coronavírus. Saíram os resultados e os dois foram por [gripe] influenza.

Neste momento em que circulam os dois vírus, pode haver muita confusão no diagnóstico?

Uip - Claro. Você vê o quadro clínico de influenza, o infiltrado pulmonar [lesões no pulmão] e parece com o coronavírus. Parece que no caso do coronavírus é mais bilateral, mas é muito sutil para fazer um diagnóstico. Tem que ter o exame etiológico.

Por enquanto, os casos confirmados de coronavírus estão mais concentrados na rede privada. Quando a epidemia chegará ao SUS?

Uip - Já chegou. Ontem, o HC [Hospital das Clínicas da USP] tinha um doente internado. Vai começar por esses dois hospitais, o HC e o Emilio Ribas.

Como os hospitais do estado estão se preparando?

Uip - Aprovamos ontem à noite [terça-feira, 17] com o nosso grupo de enfrentamento do coronavírus o protocolo de atendimentos graves em hospitais. Hoje [quarta-feira, 18] vamos ter uma reunião com todos os hospitais do estado. Todo mundo vai ter um fluxo padronizado. Por exemplo, quando internar o paciente, quando deve ir para a UTI, o que é para fazer na UTI do ponto de vista de respiração assistida, quando dar alta, quanto continuar vendo o paciente depois da alta.

O outro lado desse grupo é fazer pesquisa. Estamos em contato com a Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo], para financiar, e com a Conep [Comissão Nacional de Ética em Pesquisa], para dar agilidade nas aprovações das comissões de ética. É óbvio que temos que aprender mais e evoluir, fazer trabalho científico em busca de medicamentos e vacinas. Tudo o que estamos fazendo aqui vamos alinhar com o Ministério da Saúde.

O principal gargalo nos hospitais são as UTIs?

Uip - UTI, sem dúvida. Mas o que me preocupa não são leitos, mas, sim, respiradores. Leitos já estão resolvidos. Temos um hospital em Caraguatatuba espetacular pronto para ser inaugurado. São Bernardo tem hospital pronto que o prefeito já falou que transforma em 200 leitos de UTI rapidamente. Bauru tem hospital pronto. Já elencamos muitos lugares em que a ação é rápida.

Temos 7.200 leitos de UTI e pedimos mais 1.400. O que mais me preocupa são aparelhos respiradores e tudo o que precisa compor uma UTI. Estamos discutindo se dá para fazer algum acordo com a China. Hoje, para comprar aparelho, vamos ter que competir com a toda Europa.

E os fabricantes nacionais? Não podem ser acionados?

Uip - Essa foi uma das missões que o ministro Mandetta me deu ontem, ver o que temos aqui em São Paulo e se os fabricantes podem ajudar.

O sr. fala que leito de UTI não é problema, mas imagino que a maioria deles esteja ocupado. O que fazer? Seguir o caminho da Itália e barrar os doentes mais velhos, terminais?

Uip - Veja bem, vamos ter que fazer a gestão dos leitos ocupados. Há muitos desafios além dos doentes terminais. Você tem o residente de UTI, o indivíduo que mora na UTI por força de uma ação judicial.

Vamos levantar isso tudo. Muitas vezes o paciente está na UTI porque falta o próximo procedimento, como implantar o marcapasso. Não ter o marcapasso aumenta a permanência na UTI.

Tem um monte de coisa que a gente precisa fazer para a vida andar. A gente tem que se preparar para todos os cenários. Não dá para ficar acomodado e achar que é simples e não vai acontecer aqui. Temos que fazer o que for possível e o impossível para evitar o que está acontecendo em outros países.

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