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FAPESP Na Mídia

SP tem no mínimo 980 mil alcoólatras

Publicado em 11 maio 2000

Por MÁRIO MAGALHÃES - DA SUCURSAL DO RIO
As 24 maiores cidades de São Paulo têm 981 mil dependentes de álcool. Eles representam 6,6% dos moradores de 12 a 65 anos. Os dependentes de tabaco são 9,3%. A projeção de dependentes foi feita pelo Primeiro Levantamento Domiciliar Nacional sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas. A pesquisa, que atingirá outras 72 cidades brasileiras com mais de 200 mil habitantes, é promovida pelo Cebrid (Centro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), órgão da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). De 2.411 pessoas consultadas, 5,6% disseram ter usado maconha e 1,7%, cocaína pelo menos uma vez na vida -53,2% já experimentaram álcool e 39,0%, tabaco (principalmente cigarro). É a primeira vez que se faz no Brasil um estudo dessa dimensão com aplicação de questionários na casa das pessoas. O Cebrid é a principal instituição de pesquisa sobre drogas no país. O perfil dos entrevistados foi determinado com base em levantamentos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para representar proporcionalmente características gerais da população brasileira, como sexo, idade, renda etc. O relatório, com cerca de 140 páginas, sobre as 24 cidades paulistas com população superior a 200 mil, será divulgado hoje em São Paulo. Alguns dados já estão no site do Cebrid na Internet. A Folha obteve outros com seus pesquisadores. O conjunto das conclusões, inclusive com a identificação dos grupos sociais mais atingidos pelas drogas, só será apresentado hoje. Drogas psicotrópicas são aquelas que agem sobre o sistema nervoso central, como tranqüilizantes e estimulantes. Excetuando álcool e tabaco, já foram consumidas no mínimo uma vez por 11,6% dos entrevistados nas 24 cidades paulistas. Nesse caso, se enquadram drogas ilegais, como maconha e cocaína, e também, por exemplo, anfetaminas (estimulantes) de venda permitida mas cujo emprego ocorre de forma ilícita. É o que acontece com anoréxicos (remédios para emagrecer) cuja venda é autorizada apenas com receituário especial, mas muitas pessoas compram irregularmente (sem receita) e utilizam como estimulante. O álcool e o tabaco são considerados psicotrópicos pelo Cebrid por também agirem no cérebro. O álcool é depressor do sistema nervoso central. O tabaco contém substâncias estimulantes. Resultado equivale ao de países da AL Segundo o relatório do Cebrid, o índice de experiência com psicotrópicos (fora álcool e tabaco) no universo pesquisado é semelhante ao de países sul-americanos, como o Chile. Equivale, no entanto, só a terça parte do resultado (34,8%) aferido em pesquisa com método equivalente realizada nos Estados Unidos, país de maior consumo de drogas no mundo, de acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas) e o próprio governo norte-americano. A pesquisa do Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) não pode ser comparada diretamente a nenhuma anterior, por ser a primeira realizada no Brasil. Devido às características das cidades, médias e grandes, também não permite projeção para todo o Estado e o país, segundo seu coordenador, o psiquiatra José Carlos Galduróz. Políticas para a saúde Na opinião de Galduróz, a maior utilidade do levantamento feito pelo Cebrid é contribuir, com base no diagnóstico, para a elaboração de políticas para a área de saúde. "Há uma questão fundamental: conhecer a realidade antes de qualquer coisa", afirma o coordenador da pesquisa. "Quando se fala em drogas muita gente só pensa em maconha e cocaína, mas o álcool e o tabaco são um problema maior de saúde pública, diz Galduróz. "Agora temos dados científicos", afirma o psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Há critérios diversos empregados para definir dependência. O Cebrid, de acordo com José Carlos Galduróz, considerou uma relação de itens que foi adotada pela Organização Mundial de Saúde. Compromissos O entrevistado é indagado não apenas em relação à freqüência com que bebe, mas sobre compulsão, tolerância, síndrome de abstinência. Também responde a questões mais simples, como deixar de cumprir certos compromissos para, em vez disso, beber. A partir daí, é classificado como "provável dependente" ou usuário comum. (MM) Pesquisadora teme que pessoas omitam dados O levantamento domiciliar sobre drogas feito em São Paulo pode conter índice elevado de subnotificação. É o que teme a psiquiatra Maria Thereza de Aquino, diretora do Nepad (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas), instituto pertencente à Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). De acordo com a pesquisadora, a Organização Mundial de Saúde estima que 10% da população mundial é dependente de álcool. Nas 24 cidades paulistas onde foi feita a primeira parte da pesquisa do Cebrid (Centro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), o resultado foi de 6,6%. Na opinião de Maria Thereza de Aquino, pesquisas sobre drogas costumam obter dados aquém da realidade porque muitos entrevistados se sentem inibidos diante de perguntas íntimas. "Os resultados foram baixíssimos, inclusive sobre cocaína, comparados a outros países. Ou comemoramos ou esperamos uma próxima pesquisa, com critérios diferentes", afirmou. Apesar do risco de subnotificação, ela apontou grande importância no primeiro levantamento domiciliar para se ter um panorama amplo sobre consumo de drogas. O levantamento nas cidades paulistas revelou que há uma percepção em relação à droga maior do que a realidade: 64% dos entrevistados acham fácil conseguir cocaína; só 20%, porém, dizem ter visto alguém vendendo ou procurando comprar drogas e 3,6% afirmam já ter sido procurados por traficante. O projeto do Cebrid prevê pesquisas em 96 cidades do país com mais de 200 mil habitantes. O estudo em São Paulo custou aproximadamente R$ 80 mil, financiados pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Para o resto do país são necessários mais R$ 850 mil. (MM)