Notícia

Gazeta Mercantil

SP lança programa para inovação tecnológica

Publicado em 09 abril 1997

Por Maria Helena Tachinardi - de Washington
Dentro de quatro anos o Brasil deixará de importar 40 mil toneladas anuais de oxido de titânio, o que representará uma economia de US$ 80 milhões em divisas, além do barateamento de alguns tipos de tintas. O projeto para reduzir a dependência de importação do oxido de titânio e desenvolver um novo pigmento para tintas, obtido a partir do polifosfato ou do fosfato de alumínio, é um dos vinte aprovados pelo Programa de Apoio à Capacitação Tecnológica das Universidades, Institutos de Pesquisa e Desenvolvimento e Empresas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). "Nós olhamos o lado da inovação quando se fala em competitividade. Quem inova compete. Temos programas para induzir a pesquisa, que é sinônimo de inovação. Os industriais brasileiros sabem fazer a inovação incremental, acertos nas máquinas, por exemplo, mas não conseguem fazer a inovação pesada. Nós, como agência de fomento, estamos preocupados com isso", diz Francisco Romeu Landi, diretor presidente da Fapesp. Em Washington, nesta semana, para contatos com a National Science Foundation (NSF) e outros órgãos de apoio à pesquisa dos EUA, ele anunciou que no segundo semestre a Fundação vai lançar o Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Em-' presas em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), nos moldes do Small Business Industrial Research da NSF. Numa primeira etapa o pesquisador receberá US$ 50 mil para mostrar que o seu projeto é exeqüível. Depois ele terá direito a US$ 250 mil para desenvolver o produto. A Finep entrará com financiamento na fase de comercialização, explica Landi. No momento, o projeto de parceria universidade-empresa que ele gosta de citar como bem sucedido é o que envolve o Instituto de Química da Unicamp - que em um ano recebeu US$ 133 mil da Fapesp - e a Serrana de Mineração, que alocou US$ 150 mil para desenvolver um novo pigmento. A outra menina dos olhos de Landi é a tecnologia de produção de fibra de carbono, fruto de uma dobradinha entre o Departamento de Física Aplicada da Unicamp e a Usiminas. A Fapesp entrou com US$ 265 mil e a Usiminas com US$ 400 mil. Trata-se do projeto temático "Síntese de Caracterização de Materiais Carbonosos Avançados". A Usiminas e, possivelmente outras duas siderúrgicas brasileiras - a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST) -, terão condições de fornecer piche mesofásico para as indústrias instaladas no País, com o qual será possível fabricar, a preços mais reduzidos, a fibra de carbono, cujo mercado está em expansão. Esse produto é utilizado em asas de avião, raquetes de tênis, jet-ski, bicicletas, varas de pescar e carrocerias de Fórmula I. Para Landi, o programa da Fapesp de apoio à inovação tecnológica na parceria universidade-empresa tem outro benefício: as patentes serão de propriedade das universidades pelo seu tempo de vigência, proporcionando-lhes o recebimento de royalties pelo licenciamento dos processos ao setor produtivo. As patentes de fosfato e polifosfato de alumínio, por exemplo, serão de propriedade da Unicamp por quinze anos. Isso abre a perspectiva de o grupo liderado pelo professor Fernando Galembeck, que dirige o Instituto de Química da Unicamp e desenvolveu o novo produto entre 1988 e 94, dispor de recursos originários do setor privado para o livre desenvolvimento de novas pesquisas de interesse econômico e social. Galembeck agora está transferindo a tecnologia de fabricação de fosfato e polifosfato de alumínio, cuja comercialização deverá ocorrer dentro de três a quatro anos, numa produção estimada inicialmente em 3, 5 mil toneladas anuais. A nova planta da Serrana, empresa pertencente ao grupo multinacional Bunge, dono da Santista Têxtil e Santista Alimentos, vai custar US$ 10 milhões, investimento que deverá começar a se pagar cerca de três anos depois de iniciada a produção. "O invento abrirá um novo filão de negócio para a empresa (que fabrica fertilizantes, rações animais e produtos alimentícios, como o ácido fosfórico, usado para compor o sabor de refrigerantes). Nesse caso, trata-se de uma nova tecnologia que vai reduzir as importações e aliviar a balança comercial", salienta Landi. O Programa de Apoio à Capacitação Tecnológica, que junta universidades e empresas, começou no final de 1995. Na primeira etapa, de um total de 15 projetos apresentados, foram aprovados sete a oito. Mais tarde, de 25 foram selecionados quinze, segundo o diretor presidente da Fapesp. Em sua avaliação, faltam bons projetos porque no Brasil ainda não existe a cultura empresarial de fazer pesquisa. Isso se deve ao fato de que no passado os industriais importavam pacotes tecnológicos fechados e também porque com a economia fechada não havia necessidade de se preocupar com a inovação tecnológica. Como revela um estudo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), publicado ontem por este jornal, o Brasil não está exportando os produtos cujas vendas mais crescem no mundo, como microcircuitos eletrônicos. Isto é, falta conteúdo tecnológico às exportações. O País terá de pesquisar novos nichos de mercado e não poderá se dar ao luxo de continuar bancando bolsas de estudo e projetos de pesquisa se este capital não se reverter em aumento de competitividade das exportações brasileiras e crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Essa foi uma das conclusões da I Conferência Brasileira de Ciência e Tecnologia realizada no final de março no Massachusetts Institute of Technology (MIT), na região de Boston.