Notícia

Jornal da Tarde

SP ganha 1° Instituto de HPV

Publicado em 13 dezembro 2008

Objetivo é criar política, democratizar acesso à vacina, inclusive a versão masculina da dose

 

São Paulo acaba de ganhar um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia que ficará responsável por criar tratamentos exclusivos para o HPV, doença sexualmente transmissível que mais acomete a população (20% dos casos). Com investimento de R$ 7,2 milhões, a principal missão será facilitar o acesso à vacina feminina contra a DST - que hoje custa no mínimo R$ 400 -, além de incentivar a implantação da primeira versão masculina da imunização do vírus.

"Mais do que estudos para reduzir o custo da vacina, nós vamos criar mecanismos que definam as melhores formas de levar as doses para a população", afirma Luisa Lina Villa, professora da Faculdade da Santa Casa e coordenadora do novo Instituto (criado com recursos do Ministério de Ciência e Tecnologia e da Fapesp). "Precisamos definir o público-alvo e estratégias de vacinação. Uma das idéias é aplicar as doses em escolas, para meninas entre 9 e 16 anos." O HPV pode provocar câncer de colo de útero nas mulheres, um dos mais letais.

Já a vacina anti-HPV masculina ainda não existe no mercado, mas um estudo realizado pelo laboratório Merck Sharp, divulgado no mês passado, mostrou que a mesma composição feminina preveniu 86% das lesões em homens. Enquanto a versão para homens é desenvolvida, o novo instituto paulista realiza estudos para contribuir com o novo medicamento.

Em parceria com o Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids, estão sendo recrutados 250 homens saudáveis para avaliar as principais formas de contágio do HPV e assim criar estratégias de prevenção e tratamento, inclusive para a vacina.

Na capital paulista, um levantamento municipal mapeou 9.328 os homens infectados por todas as DSTs, inclusive HPV, e uma amostra do perfil do infectado foi descrita: quase metade (46,9%) só teve uma parceira no ano de infecção, derrubando o mito de que só as mulheres podem ser infectadas pelos maridos (71,7% eram heterossexuais e 40% tinham ensino médio completo). "A parceria única não é garantia de proteção", diz Denise Assis, coordenadora do Programa Municipal de Combate a Aids (mais dados acima).

Juvêncio Furtado, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, avalia que a negociação do uso de camisinha nos relacionamentos fixos é ainda mais tabu quando a conversa precisa ser uma iniciativa do homem. "Muitos homens rejeitam a idéia de que é preciso falar de preservativo com suas parceiras fixas. A cultura que predomina é machista."

Apesar do sucesso da vacina masculina anti-HPV em desenvolvimento, especialistas alertam que a camisinha é a única que previne todas as DSTs.::

Vírus pode causar até câncer de boca

Pesquisa da Unifesp constatou que 74% dos pacientes com diagnóstico de tumores malignos na língua apresentavam o HPV, vírus antes relacionado só ao câncer de colo de útero. No total, foram 60 amostras de mucosa da boca avaliadas, todas de homens, maiores de 18 anos.

"Ficou comprovado que existe uma relação importante entre o HPV e o câncer da boca", afirma o dentista Carlos Eduardo Ribeiro da Silva, autor do estudo. "Esta era uma desconfiança já que a mucosa da boca é multo parecida com a mucosa genital feminina."

Para o oncologísta Gilberto de Castro Júnior, do Instituto do Câncer de São Paulo, os resultados só endossam que o Jargão "chupar bala com papel”,utilizado para rejeitar o uso da camisinha nas relações sexuais orais, oferece riscos graves. "Uma das formas de prevenção é o uso do preservativo", diz ao explicar que, em geral, o câncer na região da cabeça e pescoço provocado pelo HPV é mais ameno do que o causado pelo tabagismo ou o álcool na região.

Para Marcelo Durazzo, diretor da Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, não há relação clara entre HPV e câncer de boca. "Algumas pesquisas não mostram que esta relação não existe. Mas na incerteza, o melhor caminho é o da prevenção, a camisinha."