Notícia

DCI

SP dá acesso aos arquivos da repressão política na ditadura

Publicado em 02 abril 2013

SÃO PAULO - Os 21 anos da ditadura militar deixaram um pesado rastro de documentos que agora poderá ser consultado até pela Internet. Ontem, o governo do estado lançou oficialmente o Portal Memória Política e Resistência, com o acervo da Delegacia Estadual de Ordem Política e Social (Deops-SP), do Departamento de Comunicação Social e do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e fichas provenientes da Delegacia de Ordem Política e Social de Santos. O acervo pode ser pesquisado em: www.arquivoestado.sp.gov.br

O material inclui 274.105 fichas digitalizadas, 12.874 prontuários e 39.996 fichas do Deops de Santos. O governador Geraldo Alckmin, que compareceu ao lançamento acompanhado de seu antecessor, José Serra, salientou a importância do arquivo digitalizado para as universidades, pesquisadores e publico em geral. Presente também o atual coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Paulo Sérgio Pinheiro.

"As pessoas podem ter acesso de casa, não tem nenhuma senha, é tudo público. É muito importante no sentido de transparência e de informação, para as famílias das vítimas do período da ditadura", disse Alckmin.

A publicação on-line do material foi possível graças a verbas provenientes de editais da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Ministério da Justiça (projetos Marcas da Memória) e da Casa Civil da Presidência da República (projeto Memórias Reveladas).

A previsão é que até 2014, 154.000 fichas nominais e 2.331 dossiês temáticos da Delegacia Especializada de Ordem Social devem estar prontas para serem publicadas. Referindo-se à época como "triste período de violência, de arbítrio", Alckmin ressaltou: "Isso é muito importante pela transparência, da informação."

Além de Serra, Alckmin levou o assessor Ricardo Salles, fundador do movimento "Endireita Brasil", contrário ao trabalho da Comissão Nacional da Verdade, que investiga crimes cometidos por agentes do Estado na ditadura.

"Respaldar atos ilegais"

O ex-governador José Serra esquivou-se da imprensa, mas falou no palco montado para a cerimônia e lembrou que em 2007, durante a sua gestão no governo de São Paulo, levou os arquivos do Deops para a Casa Civil.

"Demos início à sua ampliação física, que quintuplicou este espaço. Vi minha ficha há alguns anos. Poucas vezes vi informações tão erradas quanto vi nesse levantamento", disse o ex-governador. Segundo ele, muitas das informações produzidas pela repressão buscavam respaldar atos ilegais cometidos pelo regime.

"Constava que eu chorei num jantar com o Iuri Gagarin aqui no Brasil, quando ele falou da União Soviética. Eu nem estive lá. A quantidade de erros é imensa e isso também deve ser objeto de análise", disse Serra.

Ao todo, foram digitalizados cerca de 1 milhão de páginas de documentação pela Associação dos Amigos do Arquivo Público de São Paulo em parceria com o projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. O Deops foi um dos órgãos de repressão política e cultural mais importante do país.

A digitalização dos documentos levou dois anos para ser finalizada e custou cerca de R$ 770 mil.

O Deops foi criado em 1924 e funcionou até 1983. O órgão tinha como objetivo prevenir e reprimir delitos considerados de ordem política e social contra a segurança do estado.

Para isso, monitorava as atividades de pessoas e grupos considerados potencialmente perigosos à ordem vigente. O Deops tinha sido criado na década de 1920 em função de mobilizações políticas no Brasil, como greves trabalhistas, a formação do Partido Comunista do Brasil (PCB) e o movimento tenentista. O órgão, entretanto, ganhou maior visibilidade durante a ditadura militar.

Agências