Notícia

Jornal da Unicamp

Soul à brasileira

Publicado em 24 outubro 2011

Por Manuel Alves Filho

Banda Black Rio, formada originalmente em 1976 no Rio de Janeiro, conquistou notoriedade tanto no Brasil quanto no exterior ao promover uma fusão nada trivial de gêneros musicais brasileiros, como o samba, o choro e o baião, com elementos do jazz, do soul e do funk. Essa sonoridade híbrida e original expressa, em certa medida, o contexto histórico, social e político do período, no qual o país experimentava um regime político autoritário, presenciava o desenvolvimento da indústria cultural e testemunhava o surgimento de novas identidades geracionais e étnicas. As constatações estão na dissertação de mestrado da musicista Eloá Gonçalves, apresentada recentemente ao Instituto de Artes (IA) da Unicamp, sob a orientação do professor José Roberto Zan.

A pesquisa de Eloá concentrou-se na primeira formação da Banda Black Rio, que durou oito anos. De acordo com cia, o grupo foi constituído originalmente por músicos cariocas que vinham da tradição do samba e da gafieira, mas que também tinham passagens pela música instrumental. "Eles tinham certo refinamento. Com frequência, faziam abordagens jazzísticas na execução de várias obras", afirma. Naquele momento, continua a autora da dissertação, aspectos da black culture norte-americana começavam a influenciar o pensamento c o comportamento da juventude brasileira, notadamente a de origem negra, que, ao tomar conhecimento das conquistas pelos direitos civis dos negros norte-americanos, passou a esboçar uma tentativa de reafirmação de sua identidade étnica.

Nessa época, jovens do Rio de Janeiro, por exemplo, costumavam frequentar bailes animados pelo soul e o funk. Um dos mais famosos foi o Baile da Pesada, que nasceu na Zona Sul, mas logo foi deslocado para a Zona Norte da cidade, onde fez enorme sucesso. "O Baile da Pesada chegava a reunir, em meados da década de 70, até 15 mil pessoas, que apresentavam uma forma própria de falar, vestir e dançar, fortemente baseada na black culture americana", relata a pesquisadora. Toda essa movimentação, conforme Eloá, começou a chamar a atenção da imprensa. Em dada ocasião, a jornalista Lcna Frias publicou no Cademo B do Jornal do Brasil um artigo intitulado Black Rio: o orgulho (importado) de ser negro no Brasil, o que lançou definitivamente luz sobre o que passou a ser considerado por alguns como uma espécie de movimento negro.

Assim que ganhou a mídia, a agitação também passou a despertar o interesse da indústria fonográfica. A novidade fez com que o setor enxergasse um mercado promissor para aquele tipo de sonoridade. Dessa forma, tentou-se criar um "soul à brasileira" a partir de lançamentos de artistas nacionais que tivessem suas produções baseadas em elementos da black music. Como consequência, surgiram artistas como Carlos Dafé, Cassiano e Hyldon, entre outros. "Foi nesse contexto que a Banda Black Rio também foi formada, mas com uma linguagem musical própria. Os integrantes do grupo sofriam forte influência da música negra norte-americana, mas não estavam interessados somente em fazer uma cópia dela", pontua Eloá.

A postura da Banda Black Rio, destaca a musicista, não se encaixava na crítica de determinada corrente, segundo a qual o samba-soul seria somente uma imitação da música norte-americana c um sinal de subserviência ao imperialismo yankee. "Os músicos da Banda Black Rio admitiam a sua admiração por artistas como James Brown, Earth, Wind & Fire e Kool & the Gang, entre outros. Ocorre que, como já dito, eles fundiram, com muita propriedade, elementos da música negra norte-americana com vários gêneros brasileiros. Dessa fusão resultou uma nova musicalidade, que acabou por conquistar artistas de fora. Os próprios integrantes da Earth, Wind & Fire se disseram fãs da Banda Black Rio e ajudaram a divulga-la lá fora. O grupo norte-americano tem inclusive uma composição baseada na sonoridade da Black Rio e nas canções de Milton Nascimento, intitulada "Brazilian Rhyme". Ainda hoje, o grupo brasileiro é muito respeitado no exterior, onde seus discos seguem sendo reeditados e vendidos a preços elevados", informa Eloá.

Ao entrevistar o então presidente da Warner Music do Brasil (WEA), André Midani, Eloá confirmou que o interesse da gravadora pela black music surgiu por causa de eventos como o Baile da Pesada e das Noites do Shafi, realizadas no Clube Renascença, também no Rio de Janeiro. "Como a black music vivia um período de efervescência no país, Midani me contou que a gravadora viu a oportunidade de investir no gênero, mas, no caso específico da Black Rio, de uma forma mais ousada, ou seja, valorizando a música instrumental a partir daquela tendência". Não por acaso, o primeiro álbum da Black Rio, intitulado Maria Fumaça, foi inteiramente instrumental, composto por dez faixas, sendo algumas releituras de composições consagradas do cancioneiro nacional, como alguns choros, e outras composições próprias.

Refinamento

Neste disco, diz a musicista, é perceptível a preocupação dos integrantes do grupo com os arranjos, todos muito refinados. "As músicas têm o lado pesado do funk, o groove da bateria e do baixo, os riffs de guitarra bem suingados e também um traço mais soft do jazz, tudo mesclado com um "tempero" de gafieira. Isso sem contar as rajadas de metais à la Motown", detalha ela, numa referência à Motown Records, gravadora responsável pela produção de alguns dos maiores sucessos da música negra americana a partir dos anos 60. Depois deste disco, o grupo gravou mais três: Gafieira Universal, Saci Pereré, e Bicho Baile Show. Este último foi derivado de uma bem-sucedida temporada de shows com Caetano Veloso, a convite do próprio cantor. A partir do segundo álbum, porém, a sonoridade da banda sofreu modificações, ainda que a qualidade musical tenha sido mantida, de acordo com a autora da dissertação.

No entendimento de Eloá, essa mudança se deu por causa da interferência da indústria fonográfica. "Não acredito que a gravadora tenha forçado uma guinada, mas ela deve ter exercido uma influência indireta. Digo isso porque o segundo álbum deixou de ser totalmente instrumental para incluir algumas canções. O terceiro já foi praticamente todo de canções. Penso que essa mudança foi feita com o intuito de conquistar mais mercado", arrisca. Nessa fase, prossegue a pesquisadora, a banda experimentou a saída de alguns integrantes e a entrada de outros, como os vocalistas e um número maior de percussionistas.

O período de atuação da primeira formação da Black Rio coincidiu com uma etapa violenta da ditadura militar brasileira. A despeito disso, o grupo não usou a sua arte para promover um protesto engajado contra o regime, segundo apurou Eloá. "Eu entrevistei a Livia Stevenson, irmã do Cláudio Stevenson, guitarrista da banda, que me disse que o trabalho da Black Rio não teve conotação política. O único momento em que isso parece ter acontecido foi por ocasião do lançamento da música Mel do Figueiredo, mas de forma sutil. O título fazia referência tanto ao presidente João Batista Figueiredo quanto a uma gíria em vigor, segundo a qual Figueiredo era o mesmo que fígado", conta a musicista. Atualmente, conforme Eloá, a Black Rio tem outra formação, mas segue fazendo música de qualidade. O líder do grupo é William Magalhães, filho de um dos fundadores da banda, Oberdan Magalhães, já falecido. Brevemente, a Black Rio lançará um novo disco, o Super Nova Samba Funk, que tem a produção de Mano Brown, líder do grupo de rap Racionais MCs.

Eloá revela que teve bastante dificuldade para produzir o trabalho por causa da escassez de bibliografia sobre o tema no Brasil. "Por ser um campo recente de pesquisa, a música popular ainda carece de trabalhos a seu respeito. Minha dificuldade, que é a mesma de outros pesquisadores da área, foi falar de um assunto musical dentro de um contexto mais geral, que envolve aspectos culturais, históricos e sociais. Meu desafio foi tentar montar de modo adequado esse quebra-cabeça", pormenoriza a pesquisadora, que contou com bolsa concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Publicação

Dissertação: "Banda Black Rio: uma análise musical"

Autora: Elóa Gonçalves

Orientador: José Roberto Zan

Unidade: Instituto de Artes (IA)