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Sono regular e diário é fundamental para a saúde e a qualidade de vida

Publicado em 17 março 2017

Por Verônica Soares

Você já parou para pensar como o organismo interpreta o dia e a noite, os períodos de atividade e descanso? Quais os impactos da vida moderna conectada e iluminada para nossa qualidade de vida?

Essas questões permeiam as investigações acadêmicas de Maristela de Oliveira Poletini, professora do departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB/UFMG).

Farmacêutica de formação, Poletini especializou-se em Fisiologia Endócrina para estudar como nossos hormônios variam ao longo do dia, podendo ser regulados por fatores externos, como a luminosidade.

Professora Maristela Poletini no Laboratório de Endocrinologia do ICB/UFMG

Por que dormir é importante?

Pode parecer óbvio, mas o simples fato de dormirmos à noite e estarmos acordados durante o dia é um marcador importante para o funcionamento saudável e natural do nosso organismo. Isso porque, nos mamíferos, há uma região do cérebro que funciona como um grande maestro da geração do ciclo circadiano, que é o período de aproximadamente 24 horas no qual se completam as atividades do ciclo biológico.

O ciclo claro-escuro é um sinal para as várias respostas fisiológicas e comportamentais na maioria dos organismos, funcionando de acordo com o que chamamos de “relógio biológico”.

Pesquisas desenvolvidas por pesquisadores da UFMG e da USP buscam entender os mecanismos dessa sincronização do relógio a partir de pistas ambientais e internas, e propor soluções para quando o organismo perde os seus marcadores naturais de tempo.

Os glicocorticoides, por exemplo, conhecidos popularmente como hormônios do estresse, variam ao longo do dia para nos preparar para a rotina diária e mudanças no ambiente. Ao acordarmos, é comum que esses hormônios estejam em alta para compensar as horas em jejum do período do sono, assim, nosso corpo tem uma energia mínima para levantar e buscar alimento nos primeiros minutos do dia.

A liberação desse hormônio minutos antes do despertar é fisiológica, ou seja, acontece naturalmente. Mas e quando o indivíduo começa suas atividades quando está escurecendo? “A rotina de trabalho em turno invertido, por exemplo, gera um descompasso: sua fisiologia está se preparando para dormir, mas você tem que ir trabalhar”, explica a Maristela. Como lidar com essas mudanças no estilo de vida e ainda manter uma rotina saudável?

Impactos da vida moderna

Não faz muito tempo, as pessoas ainda se guiavam pelo nascer e pôr-do-sol para iniciar e terminar suas jornadas de trabalho. Alterações nesse padrão de vida vêm se intensificando desde a invenção da luz elétrica, mas nosso organismo não evoluiu na mesma velocidade dos avanços tecnológicos.

Atualmente, com o uso excessivo de aparelhos eletrônicos, ficamos sujeitos a ciclos de escuridão e luminosidade muito diferentes daqueles em que a espécie humana surgiu. Além disso, os turnos noturnos são uma realidade presente para trabalhadores de diversas áreas, como médicos, enfermeiros e operários da indústria.

Mesmo quem está em casa à noite acaba ficando horas ligado na TV ou utilizando tablets e smartphones, mas não estamos preparados para viver em um ambiente iluminado 24 horas.

O perigo dessas novas relações com a escuridão e a luminosidade, sejam elas naturais ou artificiais, já está no radar de médicos e pesquisadores de diversas áreas.

Dados epidemiológicos demonstram a relação entre a desregulação do relógio biológico e o desenvolvimento de câncer, diabetes mellitus, hipertensão e obesidade em pessoas que trabalham constantemente no período noturno.

Contudo, pouco se sabe sobre os mecanismos envolvidos nessa relação. Para investigar possíveis respostas, os pesquisadores usam modelos animais, como roedores, para entender como os ciclos de sono e vigília são regulados de forma temporal, de acordo com a presença de determinadas substâncias no organismo, como hormônios e proteínas.

“A modificação genética de certas proteínas destes animais leva à perda dos ciclos de sono e vigília e do ajuste da fisiologia destes animais aos ciclos de claro e escuro ambiental. Ou seja, há um mecanismo interno, de nível molecular, que parece ser programado para controlar essa relação do nosso organismo com o ambiente, com o dia, com a noite, e esse mecanismo está presente tanto em organismos simples, como as drosófilas, quanto em mamíferos, como nos seres humanos”, detalha Maristela.

Além da luminosidade (relação claro-escuro), outros componentes, como sons e variações de temperatura, também podem ser marcadores de tempo para o organismo. “É como se ao longo da nossa jornada diária precisássemos dar pistas para nosso relógio-biológico, para que ele saiba se está de dia, de noite, de manhã ou de tarde. Se o organismo perde um desses marcadores naturais, é preciso dar outras pistas para que ele regule seu relógio. Uma das pistas que estamos investigando são os exercícios físicos”, explica a pesquisadora.

A prática de exercícios físicos como marcador temporal

Um estudo ainda em desenvolvimento com atletas profissionais, liderado pelo professor Cândido Coimbra, também do ICB/UFMG, acompanha o desempenho destas atletas para verificar se o treinamento intenso poderia funcionar como um novo marcador temporal de liberação hormonal.

A partir de análises do perfil hormonal, os pesquisadores estão investigando se os exercícios poderiam tornar um novo agente terapêutico em casos de insônia ou mesmo para os trabalhadores de turno invertido: “Os exercícios físicos poderiam se tornar um novo marcador temporal que substituiria a luminosidade/escuridão como alerta ao corpo de que é hora de repousar e/ou despertar”. As pesquisas também se desdobram em estudos de identificação de novos alvos terapêuticos para o tratamento do câncer de pele até a melhora da performance na prática de atividades físicas.

O projeto teve financiamento da FAPEMIG e da FAPESP e conta com uma equipe composta por diversos alunos de pós-graduação, iniciação científica e pesquisadores pós-doutores. Além de Maristela, lideram a equipe o também professor do laboratório de Endocrinologia e Metabolismo do ICB/UFMG, Cândido Celso Coimbra, e a professora do Laboratório da Pigmentação do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), Ana Maria de Lauro Castrucci.

Dia Mundial do Sono

Trocar o dia pela noite para se divertir, passar uma noite em claro para estudar ou mesmo ter que dormir de dia para trabalhar à noite são atitudes que trazem grandes impactos para o funcionamento e o equilíbrio do nosso corpo.

Noites mal dormidas podem ser ponte para inúmeros problemas de saúde e um sono não reparador traz consequências que vão além da sensação de cansaço e falta de atenção.

O Dia Mundial do Sono, celebrado em 17 de março, foi criado a fim de conscientizar a população acerca da importância do sono regular diário para a qualidade de vida. Não negligencie uma boa rotina de sono!

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