Notícia

Gazeta Mercantil

Sono conquista espaço crescente na medicina

Publicado em 17 novembro 2000

Por Adriana Fernandes Farias - de São Paulo
Queda na produtividade e na concentração, mau humor, problemas de memória e mais riscos de acidentes no trabalho e no trânsito. Tudo isso costuma resultar de noites mal dormidas, o que explica o espaço crescente que o estudo do sono ganha na medicina. O interesse foi comprovado ontem durante o VIII Congresso Latino Americano de Sono, no Hotel Meliá. Reunindo diversos especialistas o evento irá até sábado trazendo temas como distúrbios respiratórios no sono, insônia, tratamentos farmacológicos e não farmacológicos. Uma pesquisa encomendada pelo laboratório Wyeth ao Data Folha indica que 54% da população brasileira está insatisfeita com o modo como dorme. Esse número é um pouco maior do que o esperado por especialistas, porque leva em conta também reclamações que podem não ser de insônia crônica. De acordo com o estudo, a incidência das noites mal dormidas é maior em mulheres e pessoas com mais de 40 anos de idade. Isso coincide com os dados médicos, 32% das pessoas que recorrem ao Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) são mulheres com insônia e 40% homens que roncam (ou têm dificuldade respiratória durante o sono). "As mulheres têm uma variação hormonal muito grande e há momentos em que ficam mais sensíveis e estressadas com coisas que normalmente não ficariam", opina Sérgio Tufik. diretor do Instituto. Mas o problema que mais leva pacientes a procurar ajuda é a apnéia (parada respiratória durante o sono). Estudos constataram que homens acima de 70 roncavam menos. "O motivo é que boa parte dos homens morriam por doenças respiratórias à noite", explica Tufik, lembrando que esse mal têm cura. FALTA DE DINHEIRO E DESEMPREGO PERTUBAM SONO DOS PAULISTANOS O Brasil está bastante competitivo nos estudos voltados a distúrbio do sono, com 130 laboratórios aptos a diagnosticá-lo. "Só os Estados Unidos nos bate", afirma Sérgio Tufik, diretor do Instituto do Sono da Unifesp. Com parceria recém firmada com a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de SP), de quem receberá R$ 1,2 milhões anuais, o instituto vai dar atenção especial para a inovação tecnológica e difusão à comunidade. Passa por uma ampliação que irá torná-lo o maior da América Latina, com 16 mil m2. Em 2001 deve estar pronto, com 80 dormitórios (hoje tem 26). Dobrará o número de profissionais (são 40). O projeto tem um custo entre R$20 a 30 milhões. Segundo Tufik, 50 mil brasileiros morrem anualmente por dormirem no volante. "Ou estão alcoolizados ou sofrem de distúrbios do sono". O tratamento desse problema é comportamental, não adianta ter pressa ou recorrer a hipnóticos. Pode durar apenas quatro meses e incluir terapia familiar. "As pessoas têm que aprender a relaxar e aceitar seus problemas sem estresse". Ter uma vida saudável ajuda. "É preciso aliar fármacos a não fármacos", ensina Luciano Ribeiro Pinto Jr, neurologista da Unifesp. Ele alerta que auto medicar-se só piora o problema, criando um círculo vicioso. Dados da Unifesp indicam que 20.9% dos paulistanos já tomaram remédio para dormir e 4% deles fazem isso rotineiramente. De acordo com a pesquisa do laboratório Wyeth, os residentes em Porto Alegre dormem pior que a média nacional (65% queixa-se) e a população de Fortaleza é a que melhor descansa (39% queixa-se), 56% dos paulistanos reclamam, ficando um pouco acima da média (54%). Foram entrevistadas 1,46 mil adultos em oito capitais. Os motivos mais apontados para não ter um sono reparador são problemas financeiros, desemprego, preocupação com trabalho, doenças na família e preocupações com os filhos, 17% dos habilitados com problemas de sono já dormiram no volante e 75% deles sentem suas atividades prejudicadas no dia seguinte.