Notícia

Matriz Energética e o Impacto Ambiental

Sonho no deserto

Publicado em 10 fevereiro 2018

Por Angela - Meio Ambiente

Abastecer 15% da Europa com energia renovável, solar e eólica, vinda do deserto do Saara e do Oriente Médio em 2050.

Em 2050, esta poderia ser a rede de usinas integradas da Europa, Oriente Médio e norte da África.

Fontes: Desertec Foundation, NASA e Agência Aeroespacial da Alemanha (DLR).

Visto de perto, um dos coletores solares que serão usados nas usinas da Desertec.

Em 1986, logo após o acidente nuclear de Chernobyl, o físico alemão Gerhard Knies decidiu calcular quanta energia solar seria necessária para atender à demanda mundial por eletricidade. O resultado o surpreendeu: em seis horas, os desertos da Terra recebem mais energia do Sol do que toda a humanidade consome em um ano. Somente no Saara, o maior deserto do planeta, com nove milhões de quilômetros quadrados, o Sol brilha cinco mil horas por ano. Bastaria usar uma área menor que Sergipe para abastecer a Europa.

O desafio de gerar energia solar no Saara pode significar, segundo o físico, o fim da dependência de fontes energéticas sujas e perigosas, como os combustíveis fósseis e a energia nuclear. “Na verdade, somos muito estúpidos, como espécie, por não fazer um uso melhor desses recursos”, afirma Knies. Entretanto, essa não é uma tarefa de simples execução.

A visão do cientista foi assumida pelo arrojado consórcio Desertec Industrial Initiative (DII), criado em 2009 por empresas europeias. A meta da DII é construir centrais solares e eólicas no norte da África e no Oriente Médio para estruturar uma rede de usinas solares, eólicas, geotérmicas, de biomassa e hidrelétricas visando a abastecer de energia toda a Eumena (sigla em inglês para Europa, Oriente Médio e Norte da África) em 2050.

Pelos cálculos do consórcio, a DII seria responsável pela geração de 15% da energia consumida na Europa, usando para tanto uma super-rede de cabos especiais de transmissão de alta voltagem que perdem só 3% da eletricidade transportada a cada mil quilômetros, estendidos sob o Mar Mediterrâneo e, por terra, pela Turquia “Todas as tecnologias essenciais para a Desertec” já existem”, assinala Bernd Utz, porta-voz do consórcio para a Siemens, uma das empresas que integram o programa. “Temos projetos na China e na Índia que demonstraram a viabilidade da transmissão de eletricidade em longas distâncias, com baixas perdas.”

A primeira fase começa no Marrocos (cuja proximidade com a Espanha facilita a entrada da energia na rede europeia), seguida pela Tunísia e Argélia. A etapa seguinte, a partir de 2020, incluiria a construção de usinas em países politicamente instáveis, como Líbia, Egito, países da Península Arábica, a costa asiática do Mediterrâneo e o Iraque.

Se tudo der certo, a DII contará com 100 giga watts de capacidade instalada, suficientes para abastecer um país como o Brasil durante seis meses. Com esse passo, o consórcio ambiciona disseminar o know-how obtido em outros cantos do mundo. Mapas no site da DII (www.desertec.org/global-mission) já indicam outras áreas do planeta com alto grau de insolação que poderiam receber usinas, como o Nordeste e o Centro-Oeste do Brasil.

A primeira meta do projeto está orçada em 400 bilhões (cerca de R$ 920 bilhões). É uma dinheirama, mas a Desertec tem poder de fogo para tanto. A visão do projeto foi desenvolvida pela fundação alemã Trans-Mediterranean Renewable Energy Cooperation (TREC), criada em 2003 pela Agência Aeroespacial da Alemanha (DLR), pelo Centro de Pesquisa de Energia da Jordânia e pelo Clube de Roma (associação de pesquisadores europeus ecologistas, fundada em 1968). Além do conglomerado Siemens, entre os acionistas da DII figuram gigantes como a resseguradora Munich Re, Deutsche Bank, ABB, Abengoa, RWE e a fornecedora de gás e energia E.On.

O interesse da Alemanha no plano é compreensível: o país lidera o desenvolvimento de energias renováveis na Europa há décadas. Em 2011, Berlim decidiu abandonar a energia nuclear, após o incidente na usina de Fukushima. Conseguir fontes energéticas renováveis passou a ter relevância ainda maior para o país.

Ousadia

O projeto da DII é ousado, mas exequível, diz o físico da USP José Goldemberg. “O problema de transportar a energia do Saara para a Europa com longas linhas de transmissão tem precedentes como o da Usina de Itaipu, cuja energia é transmitida para São Paulo em linhas de alta tensão com corrente contínua”, afirma.

Para vários analistas, porém, o projeto inicial é um devaneio, tantas são as complicações. “Cada país tem suas próprias leis e regulamentações, com diferentes formas de subsídios e regulações para a exportação e a importação de energia elétrica”, nota Gerhard Hofmann, consultor-sênior da DII. Estabelecer um marco regulatório comum é praticamente uma utopia. O plano prevê que as usinas dos países africanos supram 66% de sua demanda energética e exportem o restante para a Europa. Isso já valeu acusações de neocolonialismo: por que tais países exportariam energia sem cuidar antes de suas populações?

“Quando a ideia da Desertec foi anunciada pela primeira vez, houve raiva e irritação na Liga Árabe”, reconheceu Paul van Son, presidente da DII, no Cairo, em dezembro. “Explicamos que a ideia beneficiaria também os países-membros, e eles ficaram mais relaxados. Hoje, a relação é totalmente positiva.”

A instabilidade política do norte da África e do Oriente Médio e a crise econômica europeia são grandes preocupações. Problemas não previstos, como a necessidade de limpar com água, diariamente, no deserto, os espelhos coletores da tecnologia CSP (sigla em inglês para Energia Solar Concentrada), aumentam o imbróglio.

Mas o sonho da DII vai em frente: este ano será inaugurada uma primeira usina solar de 500 megawatts, na pioneira cidade marroquina de Ouarzazate. A unidade servirá como referência para as usinas a ser erguidas nos outros países nas próximas décadas.

Andasol, na Espanha, é a maior usina solar do mundo: 600 mil espelhos espalhados por 200 hectares.

FREADA ECONÔMICA

Em dezembro de 2011, os 600 mil espelhos parabólicos instalados no planalto de Guadix, a 50 km de Granada, foram conectados, tornando operacional a usina solar espanhola de Andasol, a maior do mundo. Resultado de um investimento de ? 350 milhões (R$ 800 milhões), bancado por quatro empresas alemãs, a Andasol ocupa uma área equivalente à de 210 campos de futebol somados. A 1.100 metros de altitude, Guadix possui atmosfera limpa e menos turbulenta do que a de localidades mais baixas, constituindo-se numa área privilegiada para energia solar.

Com geração de 150 megawatts (capaz de abastecer uma cidade de 500 mil habitantes), a usina evitará a emissão de 500 mil toneladas de gás carbônico na atmosfera. Seu alto rendimento advém do uso dos espelhos coletores da tecnologia CSP, que acompanham a trajetória solar pelo céu, absorvem o calor e o transferem para a armazenagem térmica num dispositivo que agrega 30 mil toneladas de sal, mineral condutor de calor. O resultado são turbinas a vapor que produzem eletricidade até oito horas depois de o sol se pôr.

Andasol é uma vitrine da energia solar europeia, mas seus proprietários estão preocupados. Os investimentos em energias renováveis se baseiam em subsídios governamentais, e a atual situação econômica da região espalhou nuvens sobre os negócios. Em janeiro, o Reino Unido cortou ao meio os recursos que destinava ao setor. Em fevereiro, a Espanha decretou a “suspensão temporária” dos subsídios para novas usinas eólicas, solares, de cogeração e de incineração de lixo, para economizar 160 milhões por ano (cerca de R$ 365 milhões). Em março, a Alemanha anunciou que a expansão de novas usinas solares será “limitada”, sem entrar em mais detalhes.

“A experiência mostra que, quando há competitividade no mercado de energias renováveis, o custo cai”, diz o físico José Goldemberg. “O que está acontecendo no setor da energia solar na Europa, em países como Alemanha e Espanha, é que eles foram generosos demais nos subsídios.”

No caso espanhol, as usinas já prontas não são afetadas, mas a incerteza derruba investimentos futuros. Especialistas preveem que o freio governamental causará a perda de 20 mil empregos no setor e agravará a dependência da Espanha em relação aos combustíveis fósseis. Há sombras sobre o futuro solar. (revistaplaneta)