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DarkSide Books

Sonho Americano?

Publicado em 24 agosto 2020

Por Paulo Raviere

Nunca entendi muito bem por que tantas obras produzidas nos Estados Unidos, tais quais American Hustle, American Beauty ou American Gangster, têm “American” no título. Sempre me pareceu um indício incômodo de nacionalismo ególatra, de patriotismo ufanista, ainda que o “americano”[1] em questão se referisse a algo negativo, como em “American Idiot” ou “American Crime”. De acordo com uma explicação que li enquanto traduzia o romance Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis, esse gentílico refere-se a modos de agir ou existir particulares dos Estados Unidos; mesmo assim, não consigo perceber como um “assassinato americano” ou um “virgem americano” poderiam, em essência, diferir de assassinatos ou de virgens de qualquer outro país. Por outro lado, embora não seja impossível surgir em outros países um serial killer como Patrick Bateman, o protagonista de Psicopata Americano de fato é produto típico dos Estados Unidos da América.

Rico, jovem, elegante, Bateman é moldado pela sociedade de consumo, cujo centro está exatamente em Wall Street, Manhattan. No topo da pirâmide econômico-social do país, ele tem total consciência de que sua vida luxuosa é almejada pelos que estão nas bases dessa pirâmide – ele vive o que lá se chamaria de sonho americano. O romance é narrado pelo próprio Bateman, em prosa extravagante, difusa, ruidosa, no tempo presente, o que nos permite acompanhar in loco seus movimentos e pensamentos. No começo sentimos certa inveja, devido ao modo como ele descreve esse estilo de vida, mas logo ela deixa de parecer desejável. Essas descrições chegam a ser desesperadoras, de tão longas e minuciosas, desfiadas com a frieza de um catálogo de compras: aparelhos eletrônicos de última geração, grifes de roupas, pratos exóticos, exercícios físicos, encontros, sexo, estupros, torturas, assassinatos. Quanto mais fundo Bateman mergulha em suas indulgências, mas ele se afoga em sua crise existencial.

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Mas ele não permite que nada marque seu rosto impecável. Em meio a uma multidão de homens brancos engravatados, Bateman se confunde com seus pares. Assim como ele, os outros membros de seu círculo social vivem uma vida de aparências; embora não sejam serial killers, são igualmente vazios por dentro. Velada por tantas máscaras, essas vidas são repletas de contradições. Eles pagam para ver Les Misérables na Broadway, mas humilham os mendigos famintos que estão espalhados pelas calçadas da cidade. Pregam contra tudo o que lhes parece dissonante, mas são torpes quando estão sós. Bateman anuncia suas atrocidades a qualquer um, mas ninguém o leva a sério pois, como o policial de Elio Petri, ele é um cidadão acima de qualquer suspeita.

Lido trinta anos depois, percebemos como certos luxos – joias, grifes, restaurantes caros – permanecem os mesmos, enquanto outros – televisores e câmeras de última geração – declinam a ponto de hoje levarmos nos bolsos apetrechos infinitamente mais avançados que os de magnatas de Wall Street daquela época. Trata-se de mais uma faceta dessa crítica ao consumismo, à cultura da ostentação. As propagandas têm o apelo de necessidade, mas os produtos servem apenas para serem comprados e descartados – gastar dinheiro seria um fim em si, o maior vício das últimas gerações. E as próprias pessoas, a esses personagens, são descartáveis como objetos.

Psicopata Americano é a crítica mais corrosiva jamais escrita sobre os rumos que os Estados Unidos tomavam nos longínquos anos 80. Seu próprio humor macabro, levado às últimas consequências, é uma crítica à ironia com que nós, insensibilizados pelo bombardeio midiático cotidiano, abordamos as notícias, não importa quais. Para completar, Bateman é um predador que recuaria apenas diante de seu ídolo, um bilionário jovem e cafona que ocupava os tabloides daquela década e, ironia das ironias, se elegeria presidente em 2016 – prova definitiva de que a sátira de Bret Easton Ellis continua contundente, após tantos anos.

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O “gótico americano”, por sua vez, também faz jus ao gentílico, por ser bastante particular aos Estados Unidos. A expressão pode referir-se a produtos culturais variados, de discos de rock à icônica pintura de Grant Wood, intitulada exatamente American Gothic (1930). De modo geral, “gótico americano” designa obras narrativas díspares entre si: os filmes O Mensageiro do Diabo, Amargo Pesadelo, Killer Joe; as séries Rectify, True Blood e a primeira temporada de True Detective; alguns arcos do quadrinho Preacher; livros como O Cabo do Medo, Coração Satânico, e quase toda a obra de William Faulkner, Harper Lee e Flannery O’Connor.

Em comum, poderíamos dizer que são todas obras marcadas pela bizarria, o grotesco, o fanatismo religioso, os preconceitos, a malignidade humana em geral. Geralmente essas histórias se passam em cenários soturnos e decadentes, e são protagonizadas por seres desajustados, ostracizados, que lutam em vão para controlar os próprios demônios ou para enfrentar a maldade alheia. No fundo, são críticas severas à hipocrisia e à perversidade cotidiana dos Estados Unidos.

Grandíssima parte dessas obras se passa no Sul do país, razão pela qual a expressão “gótico sulista” hoje em dia é tão ou mais conhecida que “gótico americano” para designar essas histórias, mesmo quando elas não se passam no Sul. Esse é o caso de O Mal Nosso de Cada Dia, romance de Donald Ray Pollock passado principalmente em Knockemstiff, cidadezinha no interior de Ohio, ou seja, no meio-oeste americano. Pollock se inspirou na própria experiência em Knockemstiff para escrever um retrato brutal e melancólico desse modo de vida, cujos detalhes sórdidos lhe são familiares.

Grandíssima parte dessas obras se passa no Sul do país, razão pela qual a expressão “gótico sulista” hoje em dia é tão ou mais conhecida que “gótico americano” para designar essas histórias, mesmo quando elas não se passam no Sul. Esse é o caso de O Mal Nosso de Cada Dia, romance de Donald Ray Pollock passado principalmente em Knockemstiff, cidadezinha no interior de Ohio, ou seja, no meio-oeste americano. Pollock se inspirou na própria experiência em Knockemstiff para escrever um retrato brutal e melancólico desse modo de vida, cujos detalhes sórdidos lhe são familiares.

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Se em Ellis a crítica à sociedade americana é feita do topo da pirâmide socioeconômica, em Pollock acompanhamos o que há de mais mesquinho em suas bases. Enquanto Bateman comete atrocidades para saciar delírios de consumo, a ultraviolência em O Mal Nosso de Cada Dia tem facetas diversas: cegueira religiosa, tradição, loucura, obsessões, vingança, doença, sobrevivência, e também desejos malignos. Essas diferenças essenciais transbordam para a narrativa. Pollock é contundente à sua maneira: embora também tenha uma prosa exuberante, é seco, áspero, contido, com uma narrativa um tanto linear, em terceira pessoa. É ao nos mostrar as feridas abertas daquelas pessoas esquecidas que ele faz sua crítica aos Estados Unidos. Seus personagens sabem desde sempre que a vida será dura, que não podem almejar nada muito elevado. O sonho americano, para eles, não passa de uma bela mentira, propagada por aqueles que estão no topo.

[1] Embora o gentílico “americano” também possa se referir ao Continente Americano, o que englobaria dezenas de outros países, aqui utilizamos estritamente em referência aos Estados Unidos, pois a crítica é exatamente a como eles se retratam.

PAULO RAVIERE nasceu em Irecê, Bahia, em 1986. Tem mestrado em tradução pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e atualmente cursa o doutorado na FFLCH/USP. Colaborou com o Blog do IMS e as revistas Pesquisa FAPESP, Barril, Serrote e Piauí. Traduziu O Médico e o Monstro e Outros Experimentos (Robert Louis Stevenson), Antologia Macabra (Hans-Åke Lilja), Psicopata Americano (Bret Easton Ellis) e O Mal Nosso de Cada Dia (Donald Ray Pollock), todos publicados pela DarkSide Books. Saiba mais em raviere.wordpress.com.