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Um Só Planeta

"Somos responsáveis por mudanças drásticas no clima que não têm precedentes", diz físico Paulo Artaxo

Publicado em 25 agosto 2021

Considerado um dos maiores especialistas em mudança climática e aquecimento global no Brasil e no mundo, Paulo Artaxo não poupa palavras para deixar claro que a situação que estamos vivendo é crítica e que medidas urgentes e significativas são extremamente necessárias para evitar os piores cenários.

O professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) coordena o Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais e é membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). No Sexto Relato´rio de Avaliac¸a~o – AR6, divulgado no dia 9 de agosto, o IPCC emitiu um "alerta vermelho para a humanidade", evidenciando que as emissões de gases de efeito estufa da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento estão sufocando nosso Planeta e colocando bilhões de pessoas em risco imediato.

Deixando claro que o aquecimento global está afetando todas as regiões da Terra e muitas das mudanças estão se tornando irreversíveis, Artaxo pontua que cabe aos governos agora implementar medidas adequadas para responder aos alertas e recomendações do Painel da ONU. "O IPCC somente compila a ciência feita por milhares de pesquisadores em todos os países e em todas as áreas. Nossa parte nós fizemos: agora, é com os tomadores de decisão", descreve o professor.

Nesta entrevista, Artaxo, que é autor-líder do capítulo 6 do relatório e também vice-presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp), analisa as perspectivas e as implicações que o novo documento traz para o enfrentamento das mudanc¸as clima´ticas no Brasil e no Planeta. Confira:

Um Só Planeta: O novo relatório do IPCC atinge em cheio o negacionismo e considera "inequívoco" que a humanidade tenha aquecido a atmosfera, o oceano e a terra, o que gerou mudanças generalizadas e rápidas no Planeta. O que mais podemos destacar desse documento tão importante?

Paulo Artaxo: Há algumas frases fortes. Como "mudanças recentes no clima são generalizadas, rápidas e intensificadas e sem precedentes em pelo menos 6,5 mil anos". Não há recorde de temperatura tão alta no Planeta nesse período. É um recado claro do IPCC de que as atividades humanas estão inequivocadamente alterando o clima.

O relatório também aponta que, "a menos que haja reduções imediatas, rápidas e em grande escala nas emissões de gases do efeito estufa, limitar o aquecimento a 1,5ºC pode ser impossível". Essa é a meta do Acordo de Paris, e o IPCC está colocando que o esforço para fazer isso está ficando cada vez mais difícil.

Vemos também que é indiscutível que as atividades humanas estão causando mudanças climáticas, tornando eventos climáticos extremos, incluindo ondas de calor, chuvas fortes e secas, mais frequentes e severas. Estamos vendo isso no mundo todo, inclusive no Brasil central, com essa seca que temos hoje e enchente recorde que estamos tendo na Amazônia em 2021.

Um Só Planeta: Fica claro que já é mais do que necessário agir com todas as forças nesse combate.

Paulo Artaxo: A mudança climática já está afetando todas as regiões da Terra, de muitas maneiras. E as mudanças que experimentamos vão aumentar com qualquer aquecimento adicional. Ou seja: o tempo já está passando, é hora de agir imediatamente para reduzir a emissão de gases do efeito estufa.

Um Só Planeta: Com isso, o Acordo de Paris, que tem o objetivo de limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC e evitar que ultrapasse 2ºC até o final do século, já se encontra defasado?

Paulo Artaxo: O Planeta já se aqueceu, em média, 1,1ºC. Mas isso só conta metade da questão, porque o aquecimento sobre os continentes, onde a nossa estrutura socioeconômica está posta, já atingiu 1,6ºC. Então onde nossa sociedade se desenvolveu, já ultrapassamos o limiar de 1,5ºC.

Mas um ponto importante é que os gases de efeito estufa contribuíram com 1,59ºC de aquecimento, mas – e esse "mas" é muito importante –, as partículas de aerossóis atmosféricos [que alteram o balanço de energia da Terra ao refletir e espalhar a radiação solar de volta para o espaço, reduzindo a quantidade dessa radiação que atinge a superfície terrestre e, portanto, resfriando-a] estão contribuindo com um resfriamento de 0,5ºC. Ou seja: nós estamos mascarando cerca de um terço do aquecimento que já ocorreu.

Um Só Planeta: E que papel têm esses aerossóis no aquecimento global já registrado?

Paulo Artaxo: Se nós eliminarmos a poluição do ar nas nossas cidades, pararmos de queimar carvão e eletrificarmos a frota veicular nas grandes cidades do nosso Planeta, nós vamos reduzir, e muito, a emissão de aerossóis. E, portanto, em um curto espaço de tempo, podemos ter 0,5ºC de aquecimento adicional que, atualmente, está sendo mascarado pelo resfriamento dos aerossóis [que têm um tempo de vida curto na atmosfera, da ordem de dias, se comparados com os gases de efeito estufa, que podem permanecer lá por décadas].

Um Só Planeta: O que temos visto, e com especial incidência nesses últimos meses, é assustador. Massivos incêndios florestais, enchentes muito intensas, secas históricas, recordes de calor, neve onde esse fenômeno não era tão frequente. São efeitos da crise climática?

Paulo Artaxo: Claramente. Em todo o mundo, a chuva nos continentes aumentou desde 1950, mas algumas regiões sofreram significativa redução na chuva. O aquecimento que nós estamos fazendo atualmente não tem precedentes nos últimos 2 mil anos. É uma mensagem muito importante: não se trata de uma variabilidade climática natural, que sempre existe. É uma mudança drástica no clima que não tem precedentes para o funcionamento dos ecossistemas. E o aquecimento observado é provocado por emissões antropogênicas [causadas pela humanidade].

Um Só Planeta: Atualmente, já não se pode mais dizer que as mudanças climáticas estão distantes de nós, atingindo pequenas ilhas remotas pelo mundo. Essa crise já atinge, de fato, a maior parte da população mundial?

Paulo Artaxo: A mudança climática já está afetando todas as regiões habitadas do Planeta. Estamos observando extremos de calor em praticamente todas as regiões do mundo, e a mudança no número de extremos de chuva pesada está acontecendo significativamente na Europa, na Ásia e no sudeste da América do Sul. As mudanças climáticas chegaram e atingiram todo o Planeta. Não há canto no Planeta onde isso não seja sentido hoje.

Um Só Planeta: De que maneira os cenários previstos pelo relatório do IPCC podem afetar o Brasil?

Paulo Artaxo: Espera-se, em um cenário médio, o aumento de temperatura no Brasil de 3ºC a 4ºC em regiões significativas. Obviamente, isso traz impactos muito importantes, inclusive para a economia brasileira. Todos os cenários do IPCC colocam que o país vai se tornar, principalmente no Brasil central e na parte leste da Amazônia, uma região mais seca, com redução de 10% a 20% na precipitação. Então é uma redução importante, com impactos como, por exemplo, na umidade do solo.

Um Só Planeta: E quais os efeitos para a Amazônia, em específico?

Paulo Artaxo: A Amazônia pode começar a perder cerca de 1kg de carbono por m² para cada grau adicional de aquecimento. Portanto, dentro dessas projeções, a Amazônia pode começar a perder carbono para a atmosfera, de acordo com os modelos. E trabalhos recentes também indicam que a Amazônia está começando a perder carbono e realimentando o aquecimento global.

Um Só Planeta: Ainda há tempo de evitar o pior?

Paulo Artaxo: Algumas mudanças climáticas já são irreversíveis. No entanto, algumas mudanças podem ser retardadas e outras podem ser interrompidas se limitarmos as emissões. Então é um chamado aos tomadores de decisão para implementar políticas públicas de redução de emissão de gases do efeito estufa.

Para limitar o aquecimento global, são necessárias reduções fortes, rápidas e sustentadas de CO2, metano e outros gases de efeito estufa. Isso não só reduziria as consequências das mudanças climáticas, mas também melhoraria a poluição do ar nas cidades e traria benefícios enormes para todos os ecossistemas do nosso Planeta.

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