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O Diário (Mogi das Cruzes)

"Sombra" conta história inspirada na amizade sincera

Publicado em 29 fevereiro 2012

"Sombra", do inglês Michael Morpurgo, também autor de "Cavalo de Guerra", filmado por Steven Spielberg, começa quase como um conto de fadas inglês e vai nos surpreendendo a cada página, a cada capítulo, levando ao aprofundamento dos dramas humanos. Em meio à guerra no Afeganistão, uma cachorra perdida, ferida e esfomeada, da raça springer spaniel, aparece diante de uma caverna, onde uma família tenta se proteger das ameaças dos soldados do Talibã. Um garoto afegão procura protegê-la e ela não o larga mais, apesar de enxotada e apedrejada por outras pessoas. Ele, .então, a apelida de "Sombra". Uma sombra que vai protegê-lo, guiá-lo e ajudá-lo a fugir do inferno.

O enredo está acontecendo agora, neste exato momento, permeado pela fome, frio, dor e morte. E o drama atualíssimo dos refugiados, uma tragédia que vem afligindo grande parte da humanidade, sobretudo nas últimas décadas. Milhões de pessoas estão sendo obrigadas a abandonar as suas raízes em busca de um pouco de paz. E a diáspora moderna dos que fogem da guerra, da fome, da perseguição.

Um jornalista inglês aposentado, seu neto e um garoto afegão estruturam esta história sensível e comovente, que começa em Cambridge e faz um tour forçado pelo Afeganistão, passando por vários países, até retornar à Inglaterra, exatamente ao Yarl"s Wood, um centro de remoção de imigrantes em Bedfordshire. E lá que os refugiados ficam e de onde muitos são mandados de volta.

Apesar do tema dramático, o autor consegue banhá-lo com um humanismo sem fronteira. O livro pode ser lido por uma criança, um adolescente, um adulto, um idoso. E todos vão se identificar, entender exatamente o que está se passando. E tomar partido, inclusive aqueles que acham que cada um deve ficar em seu país de origem, como se o planeta não fosse a morada de todos os homens, indistintamente.

Embora seja uma obra de ficção, "Sombra" mostra um ângulo feio da humanidade, que muitos pretendem esconder. E um enfoque sobre um caso isolado, mas que chama a atenção para milhões de outros. Para amenizar esta tragédia universal, o poeta e escritor Morpurgo banha cada página com muito humanismo, deixando a crueldade como pano de fundo. Outro ponto forte desta obra são as ilustrações de Christian Birmingham, que se fundem à história, tornando-a ainda mais pungente.

Se perguntarem se dói, esta história dói. Mas não é o drama pelo drama, um comércio de emoções baratas. Ao contrário, leva-nos a entender que a vida é uma só em qualquer lugar, frágil e bonita, encantadora e misteriosa. Sombra é uma obra de luz, um farol que pode nos guiar a um mundo melhor. E os cachorros têm um bom faro para isso.

Em seu terceiro titulo publicado, Rafael Ruiz analisa a história de nosso continente através de uma de - suas paixões, a literatura. Ao tomar emprestadas as lentes de Maquiavel, Thomas More, Miguel de Cervantes, entre outros, o autor de "O espelho da América de Thomas More a Jorge Luis Borges" tem a visão do artista: consegue perceber nuances e sutilezas de um universo feito de eventos e sentimentos que estão além de teorias e modelos e, com isso, compreender os períodos históricos que quer analisar.

No trabalho de Ruiz, a visão inovadora sobre o tema acaba por apimentar uma acalorada discussão em que o impasse, sob o ponto de vista do historiador, é definir se a obra trata de Literatura ou de História, afinal, entre outras premissas, está estabelecido que História são as certezas sobre o passado, são fatos concretos, certo? Nem tanto.

Para o autor, que acredita na necessidade de novos rumos para as humanidades, este livro é o resultado da vontade de conjugar os avanços teóricos na História das Américas com a literatura clássica e esclarece: "A partir da análise dessas -ai obras clássicas, é possível desentranhar, ao longo da Primeira Modernidade da América, os conceitos e as categorias que nos permitem entender melhor os processos históricos e a dinâmica da construção das sociedades americanas." Foram dez os autores escolhidos e onze obras.

Rafael Ruiz é professor adjunto do departamento de História da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador do núcleo de estudos ibéricos da mesma instituição. Atualmente, desenvolve a linha de pesquisa "direitos e justiça nas Américas", financiada pela Fapesp, destacando o estudo das tensões e adaptações entre norma e experiência nas Américas portuguesa e espanhola.