Notícia

Gazeta Mercantil

Soluções engenhosas fechadas nas universidades

Publicado em 10 agosto 1997

Os cientistas brasileiros estão encontrando soluções cada vez mais criativas para a crescente escassez e contaminação dos recursos hídricos. São plantas que retêm poluentes, fazendo às vezes de mini-estações de tratamento. Ou descargas sanitárias projetadas para gastar menos água, ou ainda mecanismos capazes de orientar o agricultor sobre a melhor forma de usar os sistema de irrigação. Entretanto, apesar de serem engenhosas e econômicas, elas costumam levar anos até serem adotadas em escala. A constatação é do presidente do Conselho Nacional; de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o ecólogo José Galizia Tundisi, ele mesmo envolvido em projetos de busca de alternativas que racionalizem o consumo da água, no campus de São Carlos da Universidade de São Paulo. "Há uma grande distância entre a pesquisa acadêmica e os resultados práticos, quando se trata de gerenciar os recursos hídricos", avalia Tundisi. Na sua opinião, o Brasil só vai usar sua água com inteligência quando houver uma mobilização de toda a população, e isso depende da consciência do valor econômico de um rio limpo, tipo de quantificação já dominado pelos cientistas brasileiros. Para ilustrar, ele conta a história de uma represa artificial em São Carlos que sua equipe acompanha há 26 anos e que tem se mantido limpa. A sua volta surgiram casas de luxo, equipamentos de lazer e três clubes, num investimento que os pesquisadores quantificaram em US$ 200 milhões. Em outra cidade do interior; paulista. Americana, uma represai similar não teve a mesma sorte. Em dez anos, o valor dos imóveis instalados às suas margens despencou à metade, dada a crescente contaminação das águas. Para o presidente do CNPq, a solução para a crise da água está em estações de tratamento de pequeno porte, para atender um bairro, por exemplo, ou em técnicas alternativas de descontaminação. Uma dessas técnicas, de comprovada eficiência, é o uso de aguapés na recuperação de águas poluídas. Trata-se de uma planta que cresce na superfície de brejos e represas, e que pode absorver nitrogênio, fósforo e até metais pesados. No Brasil, esta fórmula está sendo testada, na Escola Superior de Agricultura Luís de Queiroz (ESALQ), em Piracicaba (SP). Em São Paulo, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) vem trabalhando em mecanismos simples para controlar um dos maiores sorvedouros de água do Estado: a irrigação. O Laboratório de Física do Solo descobriu uma forma de racionalizar os sistemas de irrigação por pivô central - um eixo capaz de esguichar água em todas as direções e que pode cobrir áreas de até 70 hectares. Sozinho, ele costuma consumir tanta água quanto uma cidade de 20 mil habitantes. Mal utilizado, pode resultar numa plantação encharcada ou excessivamente seca, comprometendo a colheita. Segundo o pesquisador Samuel Agena, um dos pais do projeto, o IPT desenvolveu um equipamento simples, capaz de identificar a umidade do solo e indicar ao agricultor quanta água é necessária e quando. Ele é regulado após uma análise do tipo de solo e da cultura escolhida. Uma das vantagens desse sistema é que ele é de fácil leitura: o equipamento indica uma escala de cores que vai do vermelho forte (muito seco) ao azul.