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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Solução que vem do mar

Publicado em 21 julho 2005

Produzida à base de intestinos de bovinos e suínos, a heparina é utilizada há mais de 50 anos em todo o mundo na prevenção de acidentes cardiovasculares, mais especificamente na trombose profunda e também como agente de prevenção de infarto.
A substância também é utilizada como profilaxia para evitar complicações de trombose em pacientes internados. O problema é que, como o medicamento é derivado do boi e da vaca, o mal da vaca louca e o risco de contaminação para o paciente levaram cientistas a pensar em outra alternativa de matéria-prima.
Depois de descobrir a presença de análogos da heparina em vários organismos invertebrados marinhos como a ascídia, a batata-do-mar e o pepino-do-mar, a equipe do pesquisador Mauro Pavão, do Laboratório de Tecido Conjuntivo do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), comprovou, em testes in vivo com animais de laboratório, que esses compostos, além de terem as mesmas ações antitrombótica e antiinflamatória do produto hoje comercializado, podem oferecer vantagens ainda maiores.
"A principal diferença dos análogos dos invertebrados é que eles não causam os efeitos de sangramento que são associados à heparina bovina", diz o bioquímico. Os resultados também indicam que esses compostos conseguem ficar em circulação durante um tempo maior. "Isso é vantajoso, porque diminui a quantidade de injeções que têm de ser dadas no paciente."
Outra vantagem é a menor possibilidade de contaminação com agentes patogênicos, como, por exemplo, os causadores do mal da vaca louca, vírus ou outro tipo de microrganismo. A maior vantagem, porém, é o menor efeito de sangramento.
A pesquisa também abre boas possibilidades de se conseguir no futuro uma aplicação do composto como agente terapêutico antimetastático, antitumoral e antiinflamatório. O cientista observou um efeito inibitório do análogo, obtido do pepino-do-mar, cerca de dez vezes mais potente no processo de ligação entre as mucinas de células tumorais e de leucócitos e as selectinas de plaquetas e endotélio.
"O complexo plaquetas-células tumorais acaba formando um disfarce para que o sistema imunológico não reaja contra as células tumorais. Com o análogo obtido da ascídia, o efeito é cinco vezes maior do que o observado com a heparina comercial", explica Pavão.
Economia para o SUS
A descoberta foi feita quando, durante um mergulho, um estudante verificou que um animal marinho tinha estrutura externa com textura muito semelhante à cartilagem, com uma concentração de análogos da heparina.
"A partir daí, notamos que a estrutura é muito semelhante. Então, fizemos os testes in vitro, para testar a atividade anticoagulante do composto, principal ação comercial da heparina. Feito isso, passamos a utilizar em animais, nos quais estudamos os efeitos de inflamação intestinal e renal", conta Pavão. A próxima fase é fazer os testes toxicológicos requeridos, para ver se esses compostos não causam outros efeitos, e só depois testar em humanos.
Embora não esteja entre as propostas do pesquisador, a nova abordagem pode significar também uma economia para o Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo estimativa, o SUS gasta anualmente R$ 3,6 milhões com a compra de ampolas de heparina dos laboratórios produtores.
A pesquisa, iniciada em 1996, está sendo realizada em colaboração com os grupos dos professores Jeff Esko, da Universidade da Califórnia, e Lubor Borsig, da Universidade de Zurique, e será apresentada durante o Congresso Internacional de Sinalização Molecular em Diferentes Patologias, que ocorrerá entre os dias 7 e 11 de setembro, em Estocolmo, na Suécia. (Agência Fapesp)