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Ciência Hoje online

Sol na medida certa

Publicado em 22 fevereiro 2007

Por Marina Verjovsky

Cientista brasileiro desenvolve adesivo que identifica excesso de exposição aos raios ultravioleta

Chegou o verão e com ele começam as campanhas de proteção contra o câncer de pele. Para prevenir os danos causados pelos raios ultravioleta (UVA e UVB), é imprescindível o uso correto do protetor solar. Mas se você tem dúvidas quanto ao tempo que pode se expor ao sol e à quantidade de filtro solar que deve passar, vai adorar um produto 100% nacional que avisa quando reaplicar o protetor: trata-se de um adesivo que muda de cor ao detectar o excesso de exposição aos raios ultravioleta.

O cientista Fábio Engelmann mostra as tintas que alertam contra excesso de raios UVA e UVB (nos tubos, nas cores azul e vermelha) e quatro protótipos dos adesivos, em diversas cores e formas, aplicados nas mãos.

 A criação é do químico Fábio Monaro Engelmann, que começou a pesquisar o assunto depois de concluir seu doutorado na Universidade de São Paulo. Para fabricar o produto, ele abriu sua própria empresa (chamada NanoBras) com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). "Visualizei essa necessidade no mercado e comecei a procurar substâncias que mudassem de cor apenas quando expostas aos raios UVA e UVB", conta. "Testei até a beterraba, que tem uma coloração tão bonita, mas não funcionou muito bem e acabei achando um composto mais simples, barato e fácil de produzir."

Qual é a substância? Isso Engelmann não revela, por receio de ter sua idéia roubada — mesmo já tendo depositado a patente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Mas ele garante que o produto funciona. Por enquanto, os únicos testes em humanos foram realizados no pesquisador, que foi sua própria cobaia. "O produto tem os mesmos efeitos colaterais que qualquer esparadrapo, pois apenas a tinta é especial, e ela não descola, não entra em contato com a pele e é à prova d'água", explica.

Para promover a mudança de coloração da tinta de acordo com a intensidade e o tempo de exposição da pele aos raios ultravioleta, a empresa usou um simulador solar — cedido pela Fapesp —, que permite "calibrar" a velocidade desse processo. Assim, foi possível imitar a sensibilidade da pele humana quando exposta aos raios UV provenientes do sol, de câmaras de bronzeamento artificial ou de qualquer outra fonte.

Na tentativa de atender às necessidades da nossa população mestiça, foram desenvolvidos adesivos que mudam de cor com doses de radiação distintas, de acordo com seis tipos de pele diferentes. "A mais branca pode ficar apenas 10 minutos sem proteção ao sol do meio-dia, já a mais escura, apesar de nunca se queimar, não deve permanecer mais que duas horas", afirma Engelmann.

A mudança de coloração dos adesivos avisa ao usuário quando reaplicar o protetor solar ou procurar uma barraca.

Como utilizar

A forma ideal de usar o produto é sobre a pele, em associação a um filtro solar. Como o protetor é gradativamente removido da pele pelo suor, atrito com a roupa etc., o adesivo começará a mudar de cor mais rapidamente, avisando ao usuário que deve aplicar mais uma camada da loção protetora, o que desacelerará o processo. Esse procedimento deverá se repetir até o momento em que a coloração atingir o seu limite, quando a exposição ao sol deverá ser então evitada.

O químico ressalta que o produto pode ser particularmente importante para ajudar no tratamento de recém-nascidos com icterícia. Nesse caso, são recomendados banhos de luz UV, e o adesivo pode auxiliar a identificar o momento em que já foi absorvida a dose de radiação necessária.

Porém, antes de lançar o produto no mercado, ainda é preciso resolver uma série de trâmites junto aos órgãos reguladores. Engelmann, ganhador do Prêmio Santander Banespa de Ciência e Inovação de 2006 na categoria indústria, pretende começar a comercializar o adesivo na metade deste ano e espera que as empresas de protetores solares interessadas em uma venda casada de seus produtos o procurem.

"Acredito que esse produto revolucionará o mercado do ramo e em poucos anos se tornará muito comum", comenta o pesquisador. "Inclusive, podem ser feitos adesivos de diversas formas, tamanhos e cores, que poderão ser incluídos na moda de praia ou mesmo do dia-a-dia." E, para os usuários discretos, basta um bem pequeno, que, se alternado de posição, não deixará marca alguma. Essa promete ser uma ótima fórmula para prevenir o câncer de pele e evitar o envelhecimento precoce sem comprometer as férias.