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Balde Branco

Soja em grãos traz economia à dieta

Publicado em 01 março 2013

Por Luiz H. Pitombo

No último ano, a elevação no preço do concentrado reduziu em muito a lucratividade do produtor de leite, e medidas que resultem em economia neste aspecto passaram a ser muito bem-vindas. Um exemplo: a maior utilização da soja crua integral na ração, em substituição ao milho ou ao próprio farelo de soja.

Por vezes, este chega a custar 40% a mais que o grão ao pecuarista, e tomando por referência a cotação média de janeiro no estado de São Paulo, o insumo atingiu a R$ 1.209,58/t, sem frete, segundo a Scot Consultoria. A depender da situação, seu uso pode trazer uma economia de R$ 0,08 a R$ 0,14 por quilo de concentrado.

A este aspecto se alia a interessante oportunidade de a soja integral poder ser adquirida diretamente de outro produtor, sem intermediários. O Brasil, como um dos maiores fornecedores mundiais desta rica fonte de nutrientes, possui áreas produtoras junto a bacias leiteiras de Minas Gerais, Paraná, Goiás e São Paulo. Estimativas citam uma colheita de 82,68 milhões de t do grão na safra 2012/2013, com crescimento de 24% frente ao período anterior.

O grão da oleaginosa, com oferta garantida, entre outras boas características, também apresenta grande aceitação pelos animais no arraçoamento. E ao identificar tais potencialidades, como também a falta de informações no País e no exterior sobre seu uso cru na alimentação de bovinos, vários estudos começaram a ser realizados por pesquisadores da FMVZ-Faculdade Medicina Veterinária e Zootecnia-USP/campus de Pirassununga. Os resultados promissores começam agora a ganhar maior divulgação.

O medico veterinário Francisco Palma Rennó, chefe do departamento de Nutrição e Produção Animal da FMVZ, conta que nos Estados Unidos, outro importante produtor da oleaginosa, estudos realizados até fins da década de 1980 indicavam que vacas poderiam receber de 1,5 kg a 1,8 kg/dia do grão cru integral sem afetar seu desempenho.

Nas fazendas norte-americanas, avalia que o uso da soja em grão não é expressivo provavelmente em função de o preço do farelo ser mais atraente e competitivo do que no Brasil, por questões que envolvem transporte, tributos, relações comerciais e estrutura de mercado. No entanto, considerando a realidade nacional, sua inclusão se mostra mais interessante, com Rennó salientando que as pesquisas agora realizadas no Brasil ampliaram sua possibilidade de uso para quantidades que podem chegar de 4,5 kg a 5 kg/cabeça/dia.

RÚMEN DE BOVINOS ANULA TOXIDADE • É preciso lembrar que a utilização generalizada da soja crua integral na alimentação animal tem sido evitada pela presença no grão de fatores anti-nutricionais, os quais possuem efeito negativo na digestão de não-ruminantes, especialmente os suínos. “Mas este, evidentemente, não é o caso dos bovinos, pois os microrganismos existentes no rúmen retiram a toxidade destes fatores’, cita Rennó.

Ele acrescenta que, como acontece com qualquer outro ingrediente da ração, “deve-se ajustar seu nível de inclusão na dieta das vacas considerando a fase do ciclo produtivo, nível de produção e as características da dieta”. As pesquisas na FMVZ foram realizadas com fêmeas em lactação, categoria exigente que permite a Rennó afirmar que não vê restrições de uso do grão para o balanceamento da ração de bezerras e novilhas, como diz que vem ocorrendo no próprio rebanho do campus de Pirassununga.

Também comenta que não identificou alterações na reprodução das vacas assim alimentadas. Os estudos, que contaram com sua orientação e geraram teses de mestrado, utilizaram a silagem de milho como volumoso exclusivo. No entanto, o professor considera que as respostas devam ser similares quando a soja crua se associa a outros tipos de volumosos, como a cana e o capim. Mas por precaução, sugere que nesta circunstância a introdução na dieta seja paulatina e avaliada antes de se atingir os volumes máximos indicados.

“O grande benefício ao produtor é ter mais uma excelente opção de alimento, fonte de proteína e energia, que pode substituir total ou parcialmente o farelo de soja e o milho, com custo altamente competitivo e sem influenciar negativamente o desempenho produtivo dos animais”, afirma.

Ele comenta ainda que em algumas situações houve elevação no teor de gordura do leite, fator essencial para os sistemas atuais de pagamento ao produtor, que valorizam este constituinte. A melhoria no nível de gordura se deve, dentre outros aspectos, ao fato de o grão conter fibras mais solúveis e de melhor digestão no rúmen, que também fica com pH mais adequado.

NUTRIENTES E DIFERENTES TESTES • A composição nutricional aproximada do grão de soja cru integral é de 39,2% de proteína bruta (PB), 84,5% a 101% de nutrientes digestivos totais (NDT) e 19,27% de extrato etéreo (EE). Já no farelo de soja, em função da retirada do óleo, o NDT se reduz para 80%-83% e a PB sobe para 46%-47%. Assim, este possui mais proteína que energia, enquanto que o oposto ocorre com o grão.

Vários estudos foram realizados na FMVZ com o grão da oleaginosa, com alguns projetos começando em 2007 motivando aprofundamentos e demembramentos. As pesquisas que se seguiram tiveram por objetivo verificar o nível máximo de inclusão na dieta de vacas no início da lactação com média de 30 kg de leite/dia, o que foi realizado pelo experimento de Rafael Barletla.

Considerando este mesmo nível de produção, Anaí Naves avaliou a melhor maneira de fornecimento do grão, se integral ou moído, como alguns produtores gostam de fazer. Posteriormente, Beatriz Venturelli testou o fornecimento do grão em vacas com média de 23 kg de leite/dia no terço final da lactação.

Foram utilizadas fêmeas da raça Holandesa em grupos de 12 ou 16 animais, a depender do experimento, mantidas em regime de free-stall e submetidas às várias rações, desde as chamadas de “controle” sem a adição alguma do grão integral, até as com 27% na MS. Os dados apresentados na tabela 1 mostram as composições das rações fornecidas para as vacas com média próxima a 30 kg de leite/dia no início da lactação.

Em todos os trabalhos foram avaliados os possíveis efeitos sobre o desempenho produtivo, digestão e metabolismo, de forma a entendermos completamente o que estava ocorrendo no organismo dos animais. Ele faz questão de salientar a importância do financiamento e a concessão de bolsas aos pesquisadores para a viabilização dos vários projetos de estudo (Fapesp, Capes e CNPQ).

Rennó aponta que não é necessário processar o grão da soja antes do fornecimento, uma vez que não se observou nenhuma alteração nos diferentes parâmetros analisados (produção, digestão e metabolismo) quando comparado com o grão fornecido integral.

ENTRE CONSTATAÇÕES E CONCLUSÕES – Os estudos realizados também revelaram que somente nos níveis de inclusão altos, acima de 20% da MS para vacas com 30 kg/dia, foram verificadas alterações relevantes em algumas características da digestão e no desempenho animal com queda na produção de leite. Por exemplo, como mostra a tabela 2, considerando a produção ajustada do grupo que recebia 16% da soja, o rendimento do leite cai quase 8% quando comparado ao que recebia 24%.

“Essas alterações muito provavelmente se referem às altas concentrações de gordura nas dietas, e não necessariamente a algum outro componente do grão”, pondera ele. De qualquer forma, enfatiza que, desde que o ingrediente seja utilizado como é recomendado, não são esperadas mudanças negativas em relação a variáveis como produção de leite, consumo de matéria seca e sua digestibilidade, nutrientes e fermentação ruminal. Vale lembrar que o teor de gordura do leite poderá ser influenciado de maneira positiva.

Quando da aquisição do grão da soja, Rennó aponta que o único aspecto que pode merecer maior atenção é quanto ao seu grau de umidade, que não pode ser superior a 12%. Quanto à composição nutricional do grão, diz que ela varia pouco, mas que sempre é recomendável a realização de análises laboratoriais deste e de outros ingredientes para o correto balanceamento da ração.

Quando o volumoso é a silagem de milho, a soja integral poderá representar de 20% a 25% da dieta em termos de MS para vacas com produções de 15 a 25 kg de leite/dia. Já para aquelas com 30 kg/dia ou mais, a recomendação é utilizar até 16% da MS. Se o volumoso for outro, a indicação é que se inicie com a inclusão da soja entre 8%-10% da MS da dieta para que se avalie as respostas obtidas. Posteriormente, com base na experiência de cada um, os níveis poderão subir até os indicados pelos estudos.

O professor considera que vacas com produções menores, por exemplo, abaixo dos 20 kg de leite/dia, devem aproveitar melhor o grão frente às demais. Isso deve acontecer, como explica, pois essas ingerem uma quantidade menor de alimento, os quais permanecem por mais tempo no rúmen e em processo de digestão, o que possibilita um aproveitamento superior de todos os nutrientes contidos no grão integral.

Uma vez que o grão de soja possui cerca de 20% de óleo, Rennó conta que as pesquisas agora avançam para verificar a possibilidade de utilizá-lo como fonte de ácidos graxos essenciais para as vacas, como o ômega 6. Para isso estão comparando o grão com outros produtos, como a linhaça, e também avaliam seu potencial como alimento funcional, ao suplementar de vacas leiteiras no início de lactação, trazendo possíveis alterações benéficas na reprodução e no sistema imunológico dos animais.