Notícia

Correio do Povo (Porto Alegre, RS)

Software facilita identificação de animais

Publicado em 30 janeiro 2005

Foi  pensando em facilitar o trabalho de biólogos, zoólogos e outros especialistas em biodiversidade que o engenheiro de computação Ricardo da Silva Torres, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), desenvolveu uma ferramenta eletrônica capaz de identificar espécies animais com rapidez, eficiência e maior precisão.
O trabalho, que começou em março de 2001, na Universidade Virgínia Tech, nos Estados Unidos, receberá este ano o apoio da Microsoft. O software será aprimorado com a ajuda de três biólogos da Unicamp E estará em breve na internet, em código aberto, para ser usado por estudantes ou curiosos, interessados em conhecer melhor algumas espécies animais. "A ferramenta tem uma abordagem genérica, que pode ser usada em vários domínios, várias espécies", diz Torres.
Para validar o sistema de gerenciamento de dados, Torres usou 11 mil imagens de peixes da região da Virgínia (EUA).
Agora, trabalhará com espécies de moscas e borboletas do Brasil. "Usei os peixes de lá para validar o trabalho. Havia um grupo de especialistas em peixes na universidade onde eu estava e aproveitei para usar os dados que eles tinham sobre as espécies", conta.
Mas o programa serve para organizar dados e facilitar buscas não somente de espécies. "Devagar entraremos em outros domínios. Agora, com o apoio Microsoft, vamos  trabalhar com moscas e borboletas. Mas o algoritimo poder ser usado para descrever ou gerenciar ate mesmo artefatos geológicos.

Avanço
Há muito poucas ferramentas para auxiliar o trabalho de identificação de espécies animais. O método convencional de identificação se vale do uso de livros. Nessas publicações existem chaves, isto é, grupos de regras, às quais o animal a ser identificado se encaixa ou não.
Para classificar um peixe, por exemplo, o biólogo, estudante ou especialista utiliza um livro com as tais chaves. A chave A é para peixes com olhos grandes. A chave B, para peixes com olhos pequenos. Dentro do grupo com olhos grandes, há outras chaves, como as de tipos de escama. E depois de percorrer o caminho de dezenas de chaves é possível chegar a alguma conclusão.
"As chaves são como ramificações. Você vai comparando a espécie a ser identificada com as possibilidades apresentadas. Dessa forma, você vai afunilando as informações até chegar ao último nível, onde conseguirá a identificação taxonômica da família, gênero e espécie a que o animal em questão pertence", explica Torres.
Duas vantagens sobre o método convencional dão credibilidade ao sistema desenvolvido pelo pesquisador da Unicamp. Primeiro, a quantidade de imagens disponíveis no software e a possibilidade de o especialista compará-las ao animal estudado. Segundo, a  capacidade de combinar informações em texto com essas imagens. O próximo passo é incluir mapas no programa a fim de que o usuário possa registrar o local em que a espécie foi encontrada. "Aí combinando características, 1 imagens e mapas ficará ainda mais fácil para identificar o animal", diz Torres.

Feedback
O engenheiro de computação da Unicamp trabalha desde 2001 em parcena com biólogos. Primeiro, os da Virgínia. "Lá usei alguns descritores de formas e tive a idéia de combiná-los às imagens dos peixes. Usei o método de chaves de identificação de alguns livros e também trabalhei com dados de coleções dos biólogos especialistas", conta Torres
Enquanto aprimorava o software, alunos e professores da universidade norte-americana davam o feedback
necessário para melhorar o sistema. "Eles recebiam um peixe e tinham que identificá-lo pelos dois métodos: o convencional e o novo, usando a ferramenta computacional. Os livros tinham umas 800 páginas. Pelo sistema no computador, em alguns diques era possível combinar texto, imagem e chegar a algumas possibilidades", conta Torres.
O resultado foi animador: o tempo gasto para identificar os animais é bem menor quando se usa a ferramenta desenvolvida por Torres. Mais que isso, o número de acertos é bem maior quando o estudante utiliza o sistema.
"Agora, com os mapas, os usuários terão um terceiro parâmetro de consulta — além da imagem e das características mostradas em texto."
O objetivo é com a ajuda de biólogos,estudantes, especialistas e professores, tornar a ferramenta cada vez mais refinada e flexível. "Vamos incluir descritores e identificadores de cores", avisa Torres.
A pesquisa, que tem o apoio financeiro da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), ainda terá o retorno do usuário americano. Mas este ano o trabalho será voltado, sobretudo, às espécies brasileiras.