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Sociedade, soberania e difusão da ciência

Publicado em 05 agosto 2008

Por Odenildo Sena

Nenhum país que tenha consolidado a cultura de investimentos em ciência e tecnologia conseguiu esse feito sem ter construído uma efetiva parceria direta com a sociedade. Tenho revisitado a história e ela me demonstra que, naqueles países em que não se conseguiu arquitetar essa articulação, o avanço da ciência é descontínuo, incipiente e sazonal, portanto sem competitividade, além de deixar o país sempre à mercê  de bens e conhecimentos produzidos fora de suas fronteiras, o que gera dependência e risco a sua soberania. Já naqueles países onde existem laços fortes entre ciência e sociedade – e os Estados Unidos representam o melhor exemplo –, qualquer ameaça de comprometimento nessa área causa menos impacto no governo vigente do que na população em geral. Neste caso – e aqui está uma reflexão interessante –, quando se tem notícia de qualquer ameaça que possa comprometer a regularidade do avanço científico, ela parte sempre da insensibilidade de alguns governantes de plantão, que são passageiros, e a defesa vem sempre da sociedade, que representa o princípio coeso e permanente da nação. Fico aqui pensando no caso da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo – a Fapesp, a mais antiga do país, criada há 46 anos num lance de extrema sensibilidade e ousadia do então governador Carvalho Pinto. Ao longo desse tempo, foram incontáveis as ameaças ao seu orçamento e à sua autonomia financeira. Todas infrutíferas, principalmente em vista da clara compreensão que grande parte da sociedade paulista e dos que lá residem têm de sua extrema importância para o Estado. Impensável São Paulo sem a Fapesp! É preciso, portanto, que cientistas e gestores levem adiante o desafio, que não é pouco, de fazer com que a sociedade brasileira se familiarize com a ciência e se convença de que ela faz parte de seu dia-a-dia, ainda que, para isso, essa mesma sociedade não precise entender a complexidade dos processos que envolvem as práticas científicas. Mas isso passa por uma conjuntura maior que deve levar em conta não apenas a inserção permanente da ciência no ensino formal e programas que estimulem vocações, como o Ciência na Escola, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas, mas também a capacitação de cientistas e a formação de profissionais de jornalismo para tal atividade, além, é claro, do necessário envolvimento dos meios de comunicação. Afinal, para o bem de todos e soberania da nação, precisamos reverter o indicador de que o Brasil tem o pior índice de interesse por ciência entre os países ibero-americanos.

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