Notícia

Inovação Unicamp

Sociedade Brasileira de Física faz 40 anos

Publicado em 16 outubro 2006

Por Janaína Simões

O que têm em comum o ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, o presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Silvio Crestana, o secretário estadual de Meio Ambiente de São Paulo, José Goldemberg, o diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique de Brito Cruz, o diretor de Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Carlos Aragão, e o secretário nacional de ensino à distância do Ministério da Educação (MEC), Ronaldo Mota? Todos têm uma formação comum: são físicos. Para a gestão de ciência e tecnologia (C&T) no Brasil, a física é uma tradicional "doadora" de quadros; mas a contribuição da física produzida no País para a inovação tecnológica é pequena. Essa foi a constatação dos presentes na mesa redonda "Física para o Brasil", realizada no dia 3 de outubro, em São Paulo, atividade que finalizou o seminário de comemoração dos 40 anos da Sociedade Brasileira de Física (SBF).

Integraram a mesa Odair Gonçalves, presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Ronaldo Mota, do MEC, Carlos Aragão, da Finep, e Carlos Henrique de Brito Cruz, da Fapesp. A mesa "Física para o Brasil" fechou o seminário dos 40 anos da SBF. O evento durou dois dias — 2 e 3 de outubro — e tratou de aspectos teóricos e aplicações práticas das físicas nuclear, quântica e de altas energias, da ótica e da nanociência e nanotecnologia, além do assunto pesquisa e ensino em física, num total de 23 palestras, além da mesa redonda. Aproximadamente 450 pessoas estiveram presentes nos dois dias do evento.

Segundo Adalberto Fazzio, presidente da SBF, cerca de 250 doutores em física são formados por ano no País. Os físicos brasileiros são responsáveis por 2% das publicações brasileiras em revistas internacionais indexadas. De acordo com José Fernandes de Lima, diretor de programas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), 10% da produção científica nacional é originada da física. Mais de 900 alunos são formados por ano nos cursos de graduação em física, além de o País contar com 43 cursos de mestrado e 28 de doutorado. Segundo um relatório preparado para o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) sobre "alguns aspectos da física brasileira", de agosto de 2002, havia no País mais de 7 mil físicos formados, a grande maioria atuando em ensino ou em pesquisa no setor público.

O debate

Ronaldo Mota, docente da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), graduado no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado em supercondutividade e especialista em materiais nanoestruturados, desde 2004 está no MEC e foi o segundo a falar no evento. Ele avalia que o sucesso da física traz responsabilidades aos físicos, em especial no que se relaciona ao papel da ciência no desenvolvimento do setor produtivo. "O Brasil faz o vínculo entre academia e empresa, mas ainda precisa avançar muito. Historicamente, faltou uma política industrial que oferecesse espaço dentro das empresas para absorver essa ciência de ponta produzida nas nossas universidades", afirmou. Para ele, a física poderia ir muito além do que já faz. Mota também apontou para a necessidade de aumentar a qualidade do ensino na educação básica.

Por fim, ele elaborou um começo de explicação para a presença de tantos físicos na administração pública. "A multidisciplinaridade que caracteriza a física oferece elementos fundamentais que permitem a atuação de um físico em diversas áreas. Mesmo em atividades administrativas, continuamos pensando de acordo com a base da ciência que nos formou e isso é um mérito da física", concluiu.

Carlos Alberto Aragão, da Finep, é graduado em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), tem mestrado pela mesma instituição, fez doutorado na Universidade de Princeton (EUA) e pós-doutorado no Centro Europeu de Pesquisa Nuclear na Suíça, todos em física das partículas elementares e campos. Ele aprofundou a explicação de Mota. "O que nos qualifica é o fato de sermos criados com método científico", apontou. Procurar problemas, detectar variáveis, fazer a crítica, buscar soluções são ações que físicos aprendem a desenvolver em seus estudos e pesquisas. "E levam isso para qualquer trabalho que forem executar." Aragão destacou ainda que um dos primeiros cientistas importantes a pensar no desenvolvimento científico e tecnológico como caminho para o crescimento econômico e social do País foi José Leite Lopes — pernambucano, um dos maiores nomes da física brasileira, morto em 12 de junho deste ano. Segundo Aragão, as idéias de Lopes inspiraram a criação da Finep.

O diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz — graduado em engenharia eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), com mestrado e doutorado pela Unicamp em física atômica e molecular e pós-doutorado pelos Laboratórios Bell em física da matéria condensada — destacou o papel dos físicos no desenvolvimento da ciência no Brasil, em especial nas universidades públicas. Brito ressaltou a contribuição científica, e atribuiu o fato de a física não contribuir mais na parte da aplicação dos conhecimentos que produz a restrições do Brasil. "O obstáculo é o ambiente hostil para desenvolvermos coisas baseadas em conhecimento", disse.

"Quando falamos em física, é importante valorizar a idéia da ciência trazendo benefício para o contribuinte, mas precisamos ter uma noção clara de que há instituições com papéis diferentes", completou. Brito expressou sua preocupação com a "importação de métricas" como número de recursos humanos formados e de empresas criadas para se avaliar as universidades. "A universidade tem importância em si, pela boa educação que oferece, e não por aplicações e descobertas geradas a partir da sua pesquisa. Esse é mais um instrumento para se educar melhor", lembrou. "Me preocupa o surgimento de uma idéia utilitarista da ciência nos meios acadêmico, empresarial, político e entre a opinião pública", complementou. Ele observou que esse utilitarismo pode vir da esquerda — quando prega que a pesquisa deve ser feita para ajudar pessoas pobres —, ou da direita, que é a transformação das universidades em laboratórios de empresas, substituindo a estrutura que as próprias companhias deveriam ter. "A ciência vai ajudar se for boa ciência. Não é correto cobrar resultados imediatos da ciência", comentou.

A preocupação de Brito é semelhante à expressada por Odair Gonçalves, da CNEN, formado pela USP, com mestrado e doutorado em física atômica e molecular pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-doutorado pelo Hahn Meitner Institut em física da matéria condensada. Representando no evento o ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, Gonçalves disse que a questão da avaliação dos pesquisadores para concessão de bolsas precisa ser revista. "A busca por números está sendo mais importante do que os conteúdos; estamos amarrados demais aos indicadores", disse. Ele disse que as bolsas são importantes para os pesquisadores por terem se transformado em complementações salariais. "Esse é um sistema que dificilmente permite ao pesquisador ousar. Nós progredimos a partir do erro e nem sempre o erro resulta em um paper", concluiu. Rezende não foi ao evento porque, segundo sua assessoria, não conseguiu deixar Brasília no dia. O aeroporto da capital estava fechado na hora de seu vôo por causa da chuva. 

No evento foi distribuído o livro Física e Inovação, de 38 páginas, resultado das discussões de um grupo de trabalho, formado por 33 pessoas, que se reuniu em 12 e 13 de dezembro de 2005 em Brasília. O encontro foi organizado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e pela SBF. O grupo fez uma reflexão sobre o papel da física no desenvolvimento científico brasileiro, concluindo que ela não tem um peso equivalente quando são observados os impactos econômicos. O livro relata as discussões em torno de três eixos: o modo como são formados os recursos humanos em física no Brasil; a maneira como está estruturada a pesquisa nessa área no País; e a relação entre academia e empresas. (J.S.)