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Sociedade Brasileira de Física comemora seus 40 anos

Publicado em 06 outubro 2006

Seminário na segunda e terça-feira reuniu especialistas para debater sobre as atividades de ponta que estão sendo desenvolvidas em laboratórios de diversos pontos do país

Nesta segunda e terça-feira, dias 2 e 3 de outubro, ocorreu no Centro de Convenções do Anhembi, em SP, um seminário comemorativo dos 40 anos da Sociedade Brasileira de Física (SBF).
Um dos objetivos do evento, segundo o presidente da SBF, o acadêmico Adalberto Fazzio, foi apresentar um resumo do imenso leque das atividades de ponta que estão sendo desenvolvidas em laboratórios de diversos pontos do país.
"Quando a SBF foi criada, em 1966, éramos 78 cientistas reunidos numa sala. Hoje, somos 6.000. O desenvolvimento do conhecimento científico em Física nesses 40 anos foi notável, graças sem dúvida à dedicação e empenho destes pioneiros que aqui estão presentes e difundiram seu entusiasmo na criação de escolas em todo o Brasil."
Além do empenho na física teórica, de cujo desenvolvimento inquestionavelmente depende a ampliação do conhecimento humano, e da qual muitas vezes surgem sub-produtos aplicáveis na indústria, o evento abordou também as aplicações da Física e suas possíveis contribuições para o desenvolvimento econômico e social do país.
Foram abordados temas como física de altas energias, mecânica estatística, óptica, informação quântica, matéria condensada, física de plasmas, física biológica, aplicações biológicas e biomédicas de sistemas magnéticos, cosmologia, física computacional, nanociência e nanotecnologia.
"Com a nanotecnologia, por exemplo, você está podendo manipular a matéria de uma forma miniaturizada, essa escala atômica já começa a aparecer no dia a dia das pessoas, como esse gravador digital que você está usando para me entrevistar", ilustrou o acadêmico Amir Caldeira, da Unicamp.
"Quando se começou a falar em computadores há 50 anos atrás não se imaginava o desenvolvimento que seria atingido nas telecomunicações. Daí a importância da ciência básica, você está catalogando conhecimento que pode gerar inúmeros subprodutos que não se pode prever ainda. Aqui no Brasil, no entanto, as empresas não têm o costume de financiar pesquisa básica, como acontece lá fora. Aqui, no momento, temos a HP financiando o projeto do LNLS, com pesquisadores brasileiros envolvidos. Não há nenhuma garantia que esta pesquisa específica vá gerar resultados imediatos para a empresa, mas o desenvolvimento científico só acontece assim."
Em sua apresentação, o Acadêmico Alejandro Szanto de Toledo mostrou um diagrama das diversas áreas de aplicações da pesquisa básica Física Nuclear atualmente, como energia nuclear, transmutação de lixo radioativo, nanoestruturas, estudo dos danos de radiação, novos materiais, calibração de detetores em tecnologia espacial, estudos de clima, poluição, movimento de águas e buraco de ozônio, radiofármacos, terapia de câncer, modelagem biofísica, esterilização de alimentos, datação em ciência, arte e arqueologia, entre outras.
O acadêmico e presidente do CNPq, Erney Camargo, participou da mesa de abertura do evento, e diversos outros Acadêmicos proferiram palestras sobre suas áreas de atuação: Luiz Davidovich , Maria Carolina Nemes, Maurício Domingues, Mucio Continentino, Takeshi Kodama e Vanderlei Bagnato, prestigiadas por dezenas de estudantes de Física oriundos de todo o país.
A nanotecnologia, a microeletrônica, a biotecnologia, a ciência de novos materiais, as telecomunicações e as indústrias aeronáutica, robótica e de computadores estão em pauta nas discussões que a SBF vem promovendo junto às empresas.
No final do ano passado a SBF e o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), órgão assessor do Governo Federal, promoveram o seminário Física e Inovação.
Nos próximos meses a SBF se reunirá com a direção da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), órgão responsável pela coordenação e promoção da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior do país.
O objetivo destes encontros é agilizar o estabelecimento de pontes que permitam estabelecer conexões entre a pesquisa desenvolvida no meio acadêmico e o trabalho de pesquisa, desenvolvimento e inovação que deve ser feito no meio empresarial. A idéia é que essa ponte torne nossas empresas mais competitivas no cenário global.
Na reunião com o CGEE, foram discutidos os desafios de trazer a ciência para o mundo dos negócios, e foram identificados três eixos principais que devem ser priorizados: a formação de recursos humanos em Física, que deve ser mais diversificada, visando à atuação em empresas; a avaliação das pesquisas, que deve valorizar as que tenham componentes de inovação; e o estímulo à criação de Núcleos de Inovação Tecnológica que promovam a interação empresa-academia.
"Até o fim desta década estaremos formando 300 doutores em Física por ano, estes profissionais precisam ter seu mercado de trabalho ampliado o mais rápido possível. Estamos fechando um projeto que fará o pesquisador trabalhar dentro da empresa sem custo para ela, pois eles terão bolsas de pós-doutorado das fontes de financiamento governamental. Depois de dois ou três anos, esperamos que o cientista conquiste seu espaço e que a empresa passe a valorizar o seu trabalho e o contrate finalmente", declarou Adalberto Fazzio.
Uma grande preocupação dos presentes referiu-se ao ensino de ciências nos níveis fundamental e médio, e também o ensino especificamente de Física no nível universitário.
A palestra do professor da UFMG, Oto Néri Borges, provocou um debate acalorado sobre o assunto, já que as iniciativas nesta área ainda são escassas e insuficientes.
"A formação de recursos humanos na área exige a reformulação das licenciaturas, pois a qualificação dos professores de todos os níveis envolvem questões históricas, filosóficas, sociológicas, epistemológicas, éticas e morais de interesse para o ensino", afirmou.
Os acadêmicos presentes mais diretamente envolvidos com educação e popularização da ciência, Ernst Hamburger, da Estação Ciência, e Sérgio Mascarenhas, do IEA da USP-São Carlos, destacaram a necessidade de visão de longo prazo nesta área, pois há que haver investimento hoje para que existam jovens capazes de fazer ciência de qualidade amanhã.
"A educação científica da população é condição necessária para o exercício da cidadania", afirmou o presidente da SBF, Adalberto Fazzio.
Segundo o acadêmico Francisco Alcaraz, uma outra grande contribuição da Física ao país diz respeito exatamente à formação de recursos humanos. "Além do nível de excelência da qualificação em Física propriamente dita, os formandos atuam em diversas áreas nas empresas com destacada competência, talvez pelo tipo de raciocínio que desenvolvem durante os estudos.
Constantino Tsallis, físico e também Acadêmico, completou: "Os físicos são profissionais versáteis, que têm facilidade para conceber e compreender metáforas, o que, segundo Aristóteles, é uma das maiores qualidades do pensamento humano".
A mesa redonda de conclusão do evento confirmou essas afirmativas, pois era formada por quatro físicos atuantes em suas áreas, mas também comprometidos com a gestão de ciência em nível de estado: os acadêmicos Carlos Henrique Brito Cruz, diretor-científico da FAPESP e Carlos Alberto Aragão de Carvalho, diretor de desenvolvimento científico e tecnológico da Finep, Odair Gonçalves, presidente da CNEN representando o ministro de C&T — o também físico e Acadêmico Sergio Rezende, que não pode comparecer -, e o diretor de Educação a Distância do MEC, representando o ministro Fernando Haddad, Ronaldo Mota.
Foi uma unanimidade entre os quatro o fato de estarem exercendo funções administrativas por características que incluem capacidade administrativa e de planejamento desenvolvidas a partir de sua formação profissional como físicos, pois "fomos treinados no método científico que é um caldo de cultura muito marcante - para nós físicos não interessa o título do problema, o que importa é buscar e conseguir uma solução", afirmou Aragão de Carvalho.

Homenagem aos ex-presidentes da SBF emociona
O primeiro presidente eleito da Sociedade Brasileira de Física, o acadêmico Oscar Sala, foi especialmente homenageado no evento. Com impedimentos físicos para subir até o palco, Sala foi acomodado ao fundo do auditório.
No momento da entrega da placa em sua homenagem, que foi levada até ele pela secretária geral da SBF Marina Nielsen, o auditório lotado pôs-se de pé para aplaudi-lo longamente, num momento de grande emoção.
A seguir, foram homenageados Ernst Hamburger, que substituiu Leite Lopes, cassado durante os anos de chumbo; e José Goldemberg, que relembrou o período negro da época da fundação da SBF, em 1966, quando ir a uma reunião era sinônimo de risco de não retornar.
Gil da Costa Marques destacou o aumento exponencial do número de físicos no país, que de 212 em 1972 passou a 6.000 atualmente. Em seguida, Francisco César Sá Barreto mostrou-se impressionado com os trabalhos apresentados, que demonstrou o crescimento da SBF não só em quantidade como principalmente em qualidade.
Fernando de Souza Barros agradeceu a oportunidade de ter participado da administração da SBF e de ter podido contribuir de alguma forma para a melhoria deste nosso país tão conturbado.
Fernando Zawislak demonstrou preocupação com o ensino de ciências no ensino fundamental e médio, considerada por ele a grande questão na qual a Academia de Ciências e a SBF devem buscar interferir para que possamos ter um desenvolvimento similar ao da Coréia, que conseguiu dar o grande salto em C&T com investimento em educação básica.
O acadêmico Humberto Siqueira Brandi ressaltou que sua formação como físico o ajudou a tomar decisões em sua vida pessoal, pelos princípios éticos embutidos no pensamento científico, e valorizou este aspecto da formação do profissional como um exemplo para outras áreas.
Finalmente, a acadêmica Elisa Saitovitch ressaltou a questão de gênero, conclamando a SBF a estimular a participação e a qualificação das mulheres na ciência em geral e em especial na Física.
Foram lembrados com carinho os presidentes ausentes, todos acadêmicos, como Ramayana Gazzinelli, Moysés Nussenzveig, Alceu Pinho, José Roberto Leite, José Leite Lopes e Mário Schenberg.

(Boletim do Acadêmico, nº 211)