Notícia

Jornal do Brasil

Sobre os desafios da pós-graduação

Publicado em 03 novembro 1996

Por JOSÉ ISRAEL VARGAS*
Li no JB as reflexões do professor Perez sobre a pós-graduação no Brasil. Com o intuito de estimular esse debate, tão oportuno quando estamos discutindo a autonomia das universidades e dos institutos de pesquisa, bem como as verbas para a pesquisa e a formação de pesquisadores e docentes, quero aduzir alguns dados adicionais e a visão do Ministério da Ciência e Tecnologia sobre esse tema relevante. O desenvolvimento da ciência e da tecnologia brasileiras, nos últimos 30 a 40 anos, foi certamente ainda maior do que aquele apontado pelo professor Perez, com base nos artigos publicados em revistas indexadas, uma vez que essa medida da produção científica não consegue captar a produção dos engenheiros e tecnologistas - que praticamente não publicam, quando muito, registram patentes. E é de fato a engenharia que apresentou um dos mais espetaculares saltos qualitativos - e quantitativos - nas décadas de 60 e 70. Depois, por falta de demanda qualificada, fruto de nosso modelo de industrialização, as engenharias envelheceram, tanto que estamos investindo na "reengenharia" do ensino e da pesquisa em engenharia. Esse é um investimento fundamental. Somente agora, que as empresas brasileiras de fato estão enfrentando a competição, elas se dão conta da importância da pesquisa e do desenvolvimento para ocupar posições nos mercados. Até há poucos anos, donas de mercado cativo, embora limitado, a preocupação com a tecnologia não passava de uma decisão sobre qual equipamento comprar. Não havia necessidade de aperfeiçoarem-se processos e produtos - daí o nosso mero 0,7% do PIB investido em recursos para manter a comunidade científica ocupada. Mas isso está mudando a olhos vistos. As empresas estão cada, vez mais ávidas por incorporarem ganhos tecnológicos - elas realizam ou financiam pesquisa, treinam e absorvem pesquisadores, montam seus próprios institutos tecnológicos e conversam com a universidade. Somente por via das leis de incentivos para ciência e tecnologia (Leis 8248/91 e 8661/93), contabilizamos cerca de 300 empresas mobilizando uma centena de unidades de pesquisa nas universidades, com investimentos da ordem de 2,3 bilhões de reais. Por outro lado, a comunidade científica também está se dando conta de que o fluxo de recursos livres e descompromissados não tem como crescer em um ambiente onde o Estado demonstra capacidade de investimento decrescente. Só para ilustrar esse ponto, vale lembrar que a poupança interna para, realizar os investimentos necessários ao desenvolvimento do país, em 1995, foi de apenas 16% do PIB - 5% abaixo do que os economistas geralmente consideram necessário a um crescimento sustentável da economia brasileira. Há que se buscar, portanto, outros meios para financiar a ciência e a tecnologia. É evidente que essa conjuntura terá forte impacto sobre a pós-graduação. Não só a comunidade de pesquisadores e tecnologistas tenderá a crescer a curto prazo, como também é de se prever um redirecionamento das áreas procuradas, pois afinal as universidades, a par de formar professores e pesquisadores, precisam, principalmente, atender as demandas especificas do mercado por profissionais qualificados. Se pudermos reduzir o tempo da pós-graduação, melhor - embora não creio que possamos fazê-lo linearmente, para todas as áreas do conhecimento. Por um lado, há o conhecido fenômeno - não restrito aos nossos estudantes - de um certo retardo na pós-graduação nas áreas das ciências humanas e sociais em comparação com a das ciências exatas e da natureza. Por outro lado, o mestrado no Brasil, infelizmente, com grande freqüência ainda serve para suprir deficiências da graduação. Creio que naquelas áreas de conhecimento e universidades onde exista a conjunção de cursos de graduação de boa qualidade e doutorados -consolidados, também de boa qualidade, a passagem direta da graduação - saltando-se o mestrado - para o doutorado deva ser tentada. Eventualmente, o exame de avaliação dos cursos de graduação, introduzido para algumas áreas este ano pelo MEC, possa iluminar essa questão. Há que se recorrer também, necessariamente, ao direcionamento de parte das bolsas, de formação para as áreas que devam ser fortalecidas. O sistema conservador adotado pelas nossas agências (CNPq e Capes) tende a agravar disparidades setoriais e regionais na medida em que é concentrador, tanto por área de conhecimento quanto por região. O CNPq está avaliando e revendo seus procedimentos de concessão de bolsas nesse sentido. Por fim, as bolsas no exterior. Praticamente já acabamos com bolsas de mestrado no exterior. Estamos induzindo, sempre que possível, as bolsas "sanduíche" para doutorado, até porque o bolsista tende a se concentrar em questões de interesse mais direto de nossa realidade. Estamos também sendo mais seletivos e rigorosos nos critérios de concessão da bolsa. É preciso reconhecer, no entanto, que o progresso da ciência se dá, freqüentemente, pelo intercâmbio, pela ventilação e debate de idéias em outros ambientes. Assim, o doutorado e o pós-doutorado no exterior - a par de suprir eventuais lacunas na capacidade nacional - são também meio de apropriar-se do avanço de conhecimento produzido lá fora. E, como tal, um meio que deve ser preservado. * Ministro da Ciência e Tecnologia