Notícia

O Imparcial (Presidente Prudente, SP)

Sobre os ciclos econômicos

Publicado em 16 abril 2011

Como acontece a toda expressão submetida ao uso corriqueiro, o termo "crise" se vê hoje emaranhado numa série de noções que de modo algum correspondem à mesma realidade. No que tange à economia, a palavra pode se referir a pelo menos dois fenômenos que, embora relacionados, não são propriamente iguais.

Crises são, primeiramente, momentos relativamente curtos em que os fluxos econômicos praticamente cessam e a atividade econômica é drasticamente reduzida. Pode-se dizer, então, que praticamente toda a economia mundial esteve em crise entre o segundo semestre de 2008 e parte de 2009. Por ser marcado por uma sucessão vertiginosa de bancarrotas e uma enorme carga de tensão, é natural que um fenômeno dessa natureza seja fonte de desmesurado interesse da maior parte da sociedade.

Para o pensamento econômico, porém, é provável que seja de ainda maior interesse um outro fenômeno que, embora também chamado de crise, seria melhor designado pelo termo "depressão": um período relativamente longo em que a atividade econômica funciona a um nível abaixo de suas possibilidades materiais, como o que agora atravessam as economias dos EUA, da Europa e do Japão.

Em texto publicado neste espaço há um mês, vimos que, do ponto de vista da economia ortodoxa, situações em que o sistema funciona abaixo do pleno emprego são anômalas, já que não podem ser causadas pelo funcionamento do próprio sistema, mas apenas por choques exteriores a ele. O mesmo não é válido da perspectiva dos keynesianos: para eles, depressões ocorrem sempre que o nível de investimento fica abaixo da poupança da sociedade - o que, abstraindo o gasto estatal, acontece sempre que os empresários não consideram atrativas as oportunidades. Mas, uma vez que eles não explicam como o próprio funcionamento da economia capitalista leva a situações em que o investimento não se encontra no patamar "adequado", pode-se dizer que consideram a depressão um fenômeno provável, mas não necessário.

Cabe notar, entretanto, que dados referentes à variação do nível de atividade econômica parecem permitir a identificação de sucessões relativamente regulares de períodos de prosperidade e de depressão. Tal alternância, segundo alguns economistas, revelaria a existência de ciclos econômicos imanentes à economia capitalista - economia na qual a depressão não seria então casual, nem apenas provável, mas sim necessária. Essa hipótese, apesar de pouco ventilada na mídia - e mesmo na academia -, parece-me bastante útil para a análise de uma economia de mercado. Voltarei a ela, no próximo artigo, para comentar a situação atual.

Bruno Höfig é graduado em Economia e mestrando em História Econômica pela Universidade de São Paulo, bolsista da FAPESP e Consultor Econômico da TOR Investimentos. Contato: bhofig@torinvestimentos.com.br.