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Sobre meteoritos e economistas

Publicado em 26 fevereiro 2013

Por José Eli da Veiga

Muito além de chamar a atenção para interessantes curiosidades científicas e tecnológicas, o recente noticiário sobre quedas de meteoritos também deve servir como inestimável lembrete de quanto são excepcionais trocas de matéria da terra com o restante do universo, enquanto a biosfera é absolutamente dependente da contínua interceptação de uma ínfima parcela da energia radiante emitida pelo sol.

Ocorre com muito mais frequência do que parece esse "esquecimento" de quão decisiva é a continuidade do fluxo de energia solar, embora se saiba que hipoteticamente a humanidade não sobreviveria mais do que quatro dias se fosse levada a depender apenas dos imensos estoques por ele formados (energias fósseis e biomassa), acrescidos das contribuições geotérmica e nuclear.

Não há melhor exemplo desse tipo de lapso do que o famoso "diagrama do fluxo circular", sempre estampado logo no início de todo e qualquer manual de introdução à economia para ilustrar a relação que existiria entre os agentes da produção e do consumo.

Depois de quase 50 anos a heresia de Georgescu despertou interesse em quem procura uma nova definição da riqueza

É com esse diagrama que os estudantes aprendem como circulam produtos, insumos e dinheiro entre empresas e famílias em mercados de fatores de produção e de bens de serviço. As empresas produzem bens e serviços usando insumos comprados nos mercados dos chamados três fatores de produção: trabalho, terra e capital. As famílias os consomem comprando-os das empresas nos mercados de bens e serviços. Um circuito interno mostra fatores fluindo das famílias para as empresas, enquanto bens e serviços fluem das empresas para as famílias. E um circuito externo apresenta o fluxo monetário, tudo tão redondinho quanto um carrossel de parque de diversões.

Qualquer cabeça feita por tal diagrama acredita piamente que a economia funcionaria como um sistema isolado, no qual nada entra, do qual nada sai, e que nada que esteja fora pode afetá-lo. Um esquema mental que não dá qualquer importância ao já mencionado dote energético permanentemente vindo do Sol, e nem mesmo a recursos da própria Terra que entram na economia como matéria.

Por isso, o mais comum é que os profissionais do ramo simplesmente ignorem que para o subsistema com o qual mais lidam é sim crucial o que nele entra e o que dele sai. Tanto essa constante entrada de energia e matéria, quanto saída de inúmeros resíduos acompanhada de dissipação de imensa quantidade de energia que nunca mais será utilizável.

Continua a ser esse o paradigma transmitido aos que procuram ter formação econômica, a despeito de a epistemologia em que se baseia o "diagrama do fluxo circular" ter sido detonada há cinquenta anos por um dos melhores discípulos de Joseph Schumpeter, infelizmente excomungado da comunidade dos economistas no início dos anos 1970, quando começou a suplicar que eles aprendessem ao menos alguns rudimentos de termodinâmica: Nicholas Georgescu-Roegen.

Essa condição de herege certamente ajuda a entender porque ainda é tão ignorada no Brasil a obra desse genial romeno que participou como professor visitante da criação do programa de pós-graduação em economia da USP (IPE-USP) e depois também deu aulas a muitos dos brasileiros que foram se doutorar em economia na Universidade de Vanderbilt, em Nashville.

Deve-se a um deles, Charles C. Mueller, professor aposentado da UnB, o rompimento do anátema, principalmente com a publicação do livro "Os economistas e as relações entre o sistema econômico e o meio ambiente" (Ed. UnB/Finatec: 2007). Mas em curtíssimo capítulo intitulado "A economia ecológica e as leis da termodinâmica", 15 páginas ao final de três longuíssimas partes de minuciosas críticas às abordagens tradicionais sobre os desafios colocados pelos recursos naturais e pela poluição.

Por isso, foi apenas com o livro de Andrei Cechin "A natureza como limite da economia" (Ed. Senac/Edusp/Fapesp: 2010), resultado de sua dissertação de mestrado no Procam/USP, que se tornou mais amplo o acesso em português à mais circunstanciada introdução à obra de Georgescu-Roegen. Obra que fez o pioneiro alerta sobre a única limitante do processo econômico: a natureza.

No primeiro mundo, depois de quase 50 anos de imenso desprezo, a heresia de Georgescu passou a despertar muito interesse em pesquisas de fronteira dos programas "institucionalista", "evolucionário" e "da complexidade". Correntes que estão à procura de uma nova definição da riqueza, como bem explicou Eric D. Beinhocker no livro "The origin of wealth" (Harvard, 2006).

Por isso, é ótimo poder informar que a Editora Senac está para lançar outro livro sobre o tema, desta vez com tradução de quatro dos melhores textos do próprio Georgescu. E que tal lançamento tenha estimulado uma merecida homenagem póstuma, que lhe será prestada pelo departamento de economia da FEA-USP no próximo dia 20 de março, com depoimentos de dois economistas que tiveram o insigne privilégio de melhor conhecê-lo: o professor emérito Antônio Delfim Netto, e o ex-presidente do Banco Central Ibrahim Eris.

José Eli da Veiga, professor dos programas de pós-graduação do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP) e do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), escreve mensalmente às terças-feiras. Página web: www.zeeli.pro.br

Valor Econômico - 26/02/2013