Notícia

Mente e Cérebro

Sob o signo de Narciso

Publicado em 01 abril 2011

Por Patrícia Porchat

Narciso olha no espelho d"água e se apaixona pela própria imagem. Aprisionado pelo fascínio por si mesmo, definha. Não há vida possível para além da vaidade, do entorpecimento e do desejo por si próprio. O enredo de Cisne negro retrata a captura da jovem e promissora bailarina Nina (Natalie Portman) pelo olhar de sua mãe (Barbara Hershey). O projeto narcísico da ex-bailarina que largou a carreira para ter uma filha é fazer da filha uma grande estrela, desde que a imagem não supere o eu original: "Seja o que eu não fui, mas não realize o meu desejo!". Nina não tem saída: atingir a perfeição determinada pelo ideal materno é um paradoxo - só pode efetivamente alcançá-la se anular sua existência como sujeito desejante. E se realmente a atingir, perderá o olhar de sua mãe, que fundamenta sua frágil existência.

A perfeição tem um grande e único defeito: para além dela nada mais existe. Se for atingida, o projeto de vida será zerado e terá de ser refeito.

Cisne negro desperta fortes emoções, seja por retratar uma difícil e angustiante relação entre mãe e filha, seja por mostrar a crueldade que o balé impõe às relações entre as bailarinas e seu corpo ou, ainda, deixar o espectador sem saber o que é verdade e o que é fantasia da protagonista. Inúmeras interpretações são possíveis e sempre se corre o risco de exagerar na decodificação dos símbolos. Mas enfim...

Na história original, O lago dos cisnes, Odette é uma jovem enfeitiçada pelo mago Rothbart: durante o dia ela é ave e à noite recupera sua forma humana. O feitiço será quebrado por um homem que a ame com exclusividade. Mas a feiticeira Odile encanta numa dança sensual o jovem prometido e Odette vê sua chance escapar. O rapaz desfaz o mal-entendido em relação à amada e tudo se ajeita novamente até que o mago Rothbart se vinga e o amor tem sua morte declarada. Cisne negro recebe uma nova versão. A sedutora que representa o cisne negro leva a fama na história de amor que, dessa vez, envolve duas irmãs gêmeas - o cisne branco e o cisne negro, O balé se dá em três atos: um para o cisne branco mostrar sua pureza e formosura declarando-se apaixonado.

Em seguida, a irmã surge com sua sedução, malícia e erotismo - e encanta o príncipe. No terceiro ato, vemos a decepção, a perda e a dor do cisne branco que, por fim, decide morrer.

A jovem Nina, preparada por sua mãe para ser uma eterna criança, recebe a proposta do coreógrafo Thomas (Vincent Cassei) para dançar os dois papéis. Mas, dentro do precário equilíbrio emocional em que vive, a injunção dessas duas representações se torna insuportável. Nina se desestrutura e só consegue representar o cisne negro sob a condição de imaginariamente matar sua irmã gêmea-amiga-mãe. Aliás, o que é o gêmeo, senão a própria imagem no espelho? (Vemos na clínica quanto trabalho é necessário para diferenciar-se de um irmão gêmeo.) Entre suas colegas bailarinas, a recém-chegada Lilly (Mila Kunis) torna-se sua única amiga, mas ao mesmo tempo é sua concorrente imediata para a dança dos cisnes e, além de tudo, se manifesta comofemmefatale. É por meio de Lilly que Nina tem acesso a alguma forma de erotização de si própria e do outro. Mas, em suas alucinações, Nina vê Lilly como sua mãe enquanto ela mesma vai se transformando em cisne. É ainda por meio de Lilly e também de Beth (Wynona Rider), ex-primeira bailarina, que Nina parece vivenciar alguma forma de triangulação amorosa na relação com o coreógrafo Thomas. Se existissem realmente três na relação, Nina teria saído de uma situação narcísica para uma condição edípica, ponto de partida para a circulação do desejo. Mas não há ciúmes de Thomas. O que Nina sente é o terror ao ver Lilly-Beth-sua mãe, (como se as três personagens se fundissem em uma) mais uma vez olhar para ela, em vez de entregar o corpo e a alma ao homem que a possui. Uma situação que faz lembrar a frase do poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867): "Eu sou o sinistro espelho onde a megera se contempla".

Nina não tem condições de se separar emocionalmente da mãe e levar a cabo um assassinato simbólico que a instale como um ser independente. Sua condição psíquica já é a de um aprisionamento no desejo materno. Resta-lhe matar essa mãe fora da ordem simbólica e de forma mais efetiva que na fantasia. Nina mata a mãe em si mesma. É a perfeição absoluta da loucura. Sem tempo, sem espaço, sem distinção de corpos. Não há sujeito para refazer um projeto de vida. Nina foi apenas o espelho de sua mãe. me*

PATRÍCIA PORCHAT é psicanalista, doutora em psicologia clinica pela Universidade de São Paulo (USP), autora de Frende o teste de realidade (Casa do Psicólogo/Fapesp, 2005).