Notícia

Jornal da USP online

Sob o signo de Janus

Publicado em 29 junho 2015

Na mitologia greco-romana, Janus é representado com duas faces, uma que olha para o passado, outra para o futuro. É o deus dos portais e das transições, dos inícios e dos fins. A ele também está associada a mudança entre a vida primitiva e a civilização, o obscurantismo e a ciência, o campo e a cidade. O livro Sob o Signo de Janus – A presença da máscara no bumba-meu-boi, no cavalo marinho e outros aportes da contemporaneidade (Annablume Editora /Fapesp, 172 págs.,  ), do professor da ECA/USP Felisberto Sabino da Costa, especialista em Teatro e Dança e mestre e doutor pela ECA/USP, apresenta o trabalho com a máscara, que requer como fundamento o jogo corporal. “Ao subtrair o sistema de expressão do rosto, a máscara desvela o corpo, que se torna a ferramenta da escrita gestual no espaço”, afirma o autor na apresentação da obra. A pesquisa constitui uma experiência que congrega manifestações e práticas artísticas com a máscara em cidades do Brasil e da França, perfazendo um caminho pelo bumba-meu-boi e suas variantes e pelas matrizes oriundas de Jacques Lecoq. O trabalho divide-se em três momentos: o primeiro com foco no bumba-meu-boi do Maranhão, composto de sotaques que são especificados pela música, pela dança e pelos figurinos; o segundo, baseado no cavalo marinho de Pernambuco, em que a figura central é o mestre (um dos mais importantes foi o Mestre Salustiano); e o terceiro corresponde às práticas elaboradas em escolas de teatro, a partir da abordagem desenvolvida por Lecoq, em que não se busca analisar a viagem pedagógica que vai da máscara neutra ao clown, passando pelas larvárias, expressivas e meias-máscaras, mas sim selecionar aspectos significativos dessa viagem concernentes ao trabalho com a máscara. No que diz respeito ao processo de confecção, o autor recorre, como suporte, ao trabalho desenvolvido no Centre Maschere e Strutture Gestuali e no Alice Atelier, ambos na Itália. O primeiro é referência mundial na confecção de máscaras, inicialmente coordenado por Amleto Sartori, atualmente sob responsabilidade de Donato Sartori e Paola Pizzi. Como diz um trecho da orelha do livro: “Persona, personagem, figura ou (su)jeito de cena são algumas configurações que povoam o entrelaçamento dramatúrgico mais ou menos fixo do Bumba-meu-boi e do Cavalo Marinho, que operam no compartilhar do espectador. ‘O sentido dos gestos não é dado, mas compreendido, isto é, recapturado por um ato do espectador’” (Jousse).