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Aduaneiras

Sob o signo da intransigência

Publicado em 30 julho 2008

Foram sete anos de negociações, inúmeros encontros, protestos no mundo todo e centenas de ligações entre presidentes. Mas a Organização Mundial do Comércio (OMC) fracassou em chegar a um acordo na Rodada Doha. O processo, que tinha como objetivo corrigir as regras do comércio mundial e dar novo impulso à economia internacional, desabou ante os conflitos entre Índia e Estados Unidos, que não aceitaram um pacote de liberalização.

O Brasil tentou até o último minuto mediar uma solução, mas não conseguiu convencer os parceiros a aderir ao pacote. Para os demais ministros, faltou vontade política, sobretudo de Washington, Nova Délhi e, de certa forma, de Pequim. "Vai levar anos para as pessoas voltarem a negociar", afirmou o chanceler Celso Amorim. "É um fracasso coletivo", alertou o comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson, depois de 13 dias em Genebra e mais de cem horas de negociação. Para ministros e para a própria OMC, a conclusão do processo abriria novos mercados e reduziria as distorções. "Esse desfecho é doloroso e terá um impacto negativo para a economia global", afirmou Mandelson.

A rigor, a Rodada Doha não acabou. As negociações poderão ser retomadas pelos governos e mesmo os conteúdos negociados poderão ser preservados. Mas poucos acreditam nisso no curto ou médio prazos. "Não vamos nos iludir. Crises ocorrerão no mundo, como a de alimentos, e os interesses protecionistas vão aumentar", alertou Amorim.

Em jogo, não estava apenas a tarifa de frango, algodão ou têxteis, mas a administração de uma nova fase da globalização, baseada não apenas em duas grandes potências, mas em uma nova constelação. Não por acaso, o grupo final formado para tentar um acordo incluía potências, como Estados Unidos, Europa e Japão, além de Brasil, China e Índia. "Perdemos a oportunidade de fechar o primeiro pacto de uma ordem global redesenhada", lamentou Mandelson.

O governo norte-americano tentou evitar ser responsabilizado pelo fracasso e passou a culpar China e Índia. "É irônico que, em meio a uma crise alimentar mundial, a OMC tenha fracassado exatamente na capacidade de encontrar um acordo sobre barreiras aos alimentos", afirmou a representante de Comércio, Susan Schwab. Segundo ela "o governo americano continuará comprometido com o processo". Mas, presa pelo lobby agrícola e de olho nas eleições, a Casa Branca não conseguiu fazer novas concessões.

O último encontro foi emblemático. Os europeus se transformaram nos mediadores e uma nova fórmula seria criada para tentar satisfazer indianos, chineses e americanos. Ao iniciar a reunião, esses sequer apareceram. Chineses e indianos abandonaram a sala. Governos, como Chile e México, sugeriram manter as negociações. Pascal Lamy, diretor-geral da OMC respondeu: "temos de admitir o fracasso". Mas garantiu: esse não será o fim da Rodada Doha. O que ninguém sabe dizer é quando o processo será retomado.

Para o ex-embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa, o Brasil precisa rever sua estratégia comercial, que "fracassou junto com Doha". Para ele, o País cometeu um equívoco ao apostar todas as fichas na rodada multilateral, abandonando negociações de acordos regionais e bilaterais. Com ele concorda o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. "Agora, teríamos de recorrer a acordos bilaterais. Não tínhamos um plano B". O ex-chanceler Celso Lafer, prefere apostar em uma última tentativa de resgate da Rodada em setembro, como resultado de consultas informais entre os ministros de Comércio. ( AE )

Fonte: Diário do Comércio