Notícia

Diarioweb (São José do Rio Preto)

Só 9% da mata nativa da região resistem à devastação

Publicado em 08 junho 2012

Região mais devastada do Estado, segundo estudo da Unesp, o Noroeste paulista preserva apenas 9% de mata nativa. São 50 áreas no total, das quais só 18 mantêm todas as características da vegetação original. Por cinco anos, cerca de cem pesquisadores esquadrinharam esses locais e descobriram 1.860 espécies de animais e plantas, 20 delas novas para a ciência e 256 sob risco de extinção. Um patrimônio natural extraordinário e ameaçado: das 18 áreas, 17 são particulares, e 15 estão cercadas de pastos e canaviais.

“Esses locais são os últimos repositórios de espécies naturais da região”, define o pesquisador da Unesp de Rio Preto Orlando Necchi Júnior, coordenador da pesquisa. O estudo nasceu a partir de diagnóstico do programa Biota, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que estuda a biodiversidade no Estado. A fundação elegeu a região como prioritária para a conservação da biodiversidade por dois motivos: pouca mata preservada e carência de estudos regionais da fauna e flora.

O estudo durou cinco anos, entre 2005 e 2010, e custou R$ 1,7 milhão. Na primeira etapa, pesquisadores da Unesp, do Butantan e do Instituto Florestal selecionaram as 50 áreas de maciço florestal na região. Em seguida, visitaram essas áreas, e constataram que somente 18 estavam totalmente preservadas - o restante havia sido desmatado ou alvo de queimadas no passado.

Das 18 áreas, que somam 10,7 mil hectares, somente uma é pública, a estação experimental do Estado em Pindorama. Todas as outras estão dentro de fazendas, em área particular. Os pesquisadores colheram todas as amostras de fauna e flora encontradas e analisaram o material em laboratório.

O resultado impressionou: foram 1.860 espécies, das quais apenas oito estavam presentes em todos os fragmentos de mata. “Acreditávamos que haveria muito mais espécies em comum, mas, na verdade, essas áreas se comportam como ilhas isoladas, mantendo espécies próprias, por motivos que ainda desconhecemos”, diz Necchi.

Do total de seres vivos, 468 são plantas, 215 em risco de extinção, e 328 aves, da quais 41 correm o risco de desaparecer. O resultado do estudo foi publicado recentemente no livro “Fauna e flora de fragmentos florestais remanescentes da região norte do Estado de São Paulo”, da editora Holos. É o primeiro estudo completo da fauna e flora da região de Rio Preto, segundo Necchi.

Preservação

O pesquisador da Unesp alerta sobre a necessidade de preservação dessas 18 áreas. “Os 17 locais de mata remanescente estão fora da exigência legal de preservação, por isso o risco é grande”, diz Necchi.

Procurada, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente informou que, por serem propriedades particulares, caberia ao dono inscrever a área como reserva particular do patrimônio natural (RPPN). Com isso, o proprietário recebe incentivos fiscais para manter a área intocada. “A única atividade que pode ser explorada nessa área é o ecoturismo, dentro de um plano de manejo”, explica o pesquisador do Instituto Florestal Marco Aurélio Nalon. O Diário solicitou à Fundação Florestal, responsável pelo RPPN no Estado, se alguma das 17 áreas pesquisadas está inscrita no programa, mas não houve retorno até o fechamento desta edição.

Para evitar danos maiores a esses locais, a Polícia Ambiental tem intensificado a fiscalização dos aceiros, área sem vegetação que divide a mata dos canaviais e serve de proteção para a vegetação em caso de queima da palha da cana. “Quando notamos que o aceiro está muito sujo, notificamos o proprietário para limpar a área imediatamente”, diz o tenente Igor Hiassa.

Pesquisadores se perderam na mata

O raio X da fauna e da flora da região teve um contratempo em fevereiro de 2010. No dia 1º daquele mês, a pesquisadora Clélia Maria Mardegan e o motorista Paulo Maiorano coletavam amostras de solo na fazenda Águas Claras, em Sales, quando se perderam na mata, que tem 1,79 mil hectares, ao arriscar um atalho para retornar à estrada.

Cerca de 50 homens, entre Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Ambiental, funcionários da fazenda, além do helicóptero Águia da PM de Bauru e um cão farejador ajudaram nas buscas. mbos só foram localizados 32 horas depois, debilitados pela falta de água e alimento. “Se não encontrassem a gente hoje, não teríamos força até amanhã”, disse Clélia na época. “É uma mata muito fechada, e eles tomaram um rumo errado no caminho de volta. Foi um momento de muita apreensão em toda a equipe”, lembra o coordenador do estudo, Orlando Necchi Júnior.

Duas áreas são controladas

A região de Rio Preto conta com apenas duas estações ecológicas, áreas de mata nativa controladas pelo Estado, em Rio Preto e Paulo de Faria. A de Rio Preto fica dentro do antigo Instituto Penal Agrícola (IPA) e tem 168 hectares.É uma das poucas áreas de mata nativa remanescentes no município. Dentro dela, há uma pequena cachoeira com quatro metros de queda e um espelho d’água com 10 hectares. O Instituto Florestal planeja transformar a área em um campo de pesquisas de mata ciliar, o maior do Estado.

A estação de Paulo de Faria foi a primeira no Estado, criada em 1981. A área, com 435,7 hectares, se originou da desapropriação pela Companhia Energética de São Paulo (Cesp) em março de 1979, e serviu como refúgio à fauna da região atingida pela obra. A estação está entre os poucos remanescentes da floresta estacional semidecídua, transição entre a mata atlântica e o cerrado. É a vegetação predominante em toda a região.