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DCI

Só 10% das pesquisas são dedicadas a "doenças tropicais"

Publicado em 17 setembro 2003

Por Carolina Jardon - FARMACÊUTICA
Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que apenas 10% das pesquisas em saúde são dedicadas às doenças negligenciadas ou doenças tropicais, como mal de Chagas, Leishmaniose, Malária e Esquistossomose, entre outras. Essas moléstias correspondem a 90% do total de enfermidades no mundo. Entre 1975 e 1999, foram desenvolvidos 1.393 remédios. Dentre eles, apenas 13, ou seja, menos de 1%, foram destinados ao tratamento dessas doenças. A falta de interesse é, infelizmente, o retrato da lógica da indústria farmacêutica: o lucro. Segundo dados divulgados durante o 1º Seminário Internacional - Responsabilidade Social e Doenças Tropicais, realizado nesta terça em Brasília, - o ramo movimenta mais de 300 bilhões de dólares por ano. O seu principal nicho de mercado são os Estados Unidos que, sozinhos, são responsáveis por 40% de todas as vendas de produtos farmacêuticos. Quase todos remédios são voltados para doenças que preocupam mais o Primeiro Mundo, como câncer, doenças cardíacas, obesidade e problemas dermatológicos como calvície. Como as doenças tropicais ocorrem, quase que exclusivamente, em países pobres onde não há um mercado que ofereça retorno para o investimento aplicado, o desenvolvimento de remédios e pesquisas no ramo ficam esquecidos. A Malária, por exemplo, mata de 2 a 3 milhões de pessoas no mundo por ano. A enfermidade não possui nenhuma vacina aprovada pela comunidade científica e só existem cinco remédios para combatê-la. No Brasil, por exemplo, a cada ano aparecem 85 mil casos de Tuberculose, como 6 mil mortes. A Lechimaniose atinge só na Região Nordeste 3.500 pessoas todos os anos. Diante desse quadro caótico de saúde pública global, a Novartis, empresa farmacêutica com sede Suíça, desenvolveu em Cingapura o Instituto Novartis de Pesquisa de Doenças Tropicais que tem como objetivo torná-lo um centro de rede onde cientistas de todo o mundo estarão interligados investigando novos tratamentos e métodos de prevenção. Pesquisadores brasileiros foram convidados para integrar o time de profissionais em Cingapura. Aqui no Brasil, o Instituto Novartis contará com apóio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP e o Instituto Ethos. Em principio, o instituto irá se dedicar a Dengue e a Tuberculose, que juntas atingem todos os anos, segundo pesquisa da OMS, 200 milhões de pessoas em todo o mundo. Apesar de ser um Instituto sem fins lucrativos, a Novartis terá uma participação nas novas drogas que lá forem descobertas. Um funcionário da empresa explicou que a Novartis poderá ganhar as patentes dos produtos, quando esses forem descobertos por seus pesquisadores, ou apenas levar o registro de "agente facilitador" quando desenvolvidos por outros.