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Skate e Antropologia: uma conversa com o Prof. Dr. Giancarlo Machado

Publicado em 15 julho 2020

Por Leonardo Brandão

Meu primeiro contato com Giancarlo Machado foi pela Internet em 2007, e isso através de um blog que ele editava chamado “Skate é Cultura” (o qual chegou a receber a premiação de melhor blog neste mesmo ano durante as festividades do Troféu Street/Beach). Eu enviei um e-mail e ele respondeu; e assim começou uma relação que se consolidou em 2009, ano em que eu começava meu doutorado em História e fui visitá-lo em sua casa, à época, na cidade de São Paulo.

Mineiro, Giancarlo é um sujeito muito agradável e de bom papo. Começou a pesquisar skate ainda na graduação, fazendo carreira na pós-graduação (mestrado e doutorado, ambos na USP), depois passou num concurso público e se tornou professor universitário, atuando tanto na graduação quanto na pós-graduação. Além disso, em função de suas pesquisas e publicações acadêmicas sobre skate, Giancarlo se tornou uma das vozes mais importantes sobre o assunto, principalmente na relação entre a prática do skate, os espaços urbanos e a questão da citadinidade – relação essa que vem explorando através do método etnográfico.

Em isolamento social em função da pandemia do novo Coronavírus, esta entrevista ocorreu por e-mail e não por intermédio de um gravador, como geralmente são realizadas entrevistas. Ao todo, foram quatro questões sobre sua relação acadêmica com o skate, incluindo também sugestões bibliográficas e dicas de possíveis temas que ainda necessitam ser pesquisados.

1 – Como o skate se tornou, para você, um objeto de estudo?

R: Durante a minha graduação em Ciências Sociais, ainda no segundo período do curso, o professor responsável pela disciplina Antropologia II, Prof. Dr. João Batista de Almeida Costa, solicitou que cada aluno escolhesse algum tema a fim de realizar uma etnografia. Fiquei muito indeciso quanto a escolha. Sempre tive curiosidade por questões urbanas, sobretudo pela relação entre juventudes e cidades. Eu tinha notável interesse em compreender as particularidades de várias práticas e experiências citadinas – punk, rap, street art e principalmente skate de rua –, e, em decorrência disso, passei a cogitar a possibilidade de analisar, etnograficamente, um destes universos. Contudo, fiquei com receio de apresentar a proposta ao professor, pois não sabia, até então, da chance de estudar, sob uma perspectiva antropológica, aquilo que me era tão familiar. Um pouco tímido, resolvi compartilhar a intenção de fazer uma etnografia sobre a prática do skate, tendo como foco a sociabilidade entre os praticantes. O professor acolheu a minha proposta e me tranquilizou ao revelar algumas das diversas subáreas da Antropologia – como Antropologia Urbana, Antropologia do Esporte, Antropologia da Juventude – que se dedicam a analisar temas e situações parecidas. Fiquei muito empolgado e, desde então, passei a ler diversos autores ligados sobretudo a Antropologia Urbana brasileira – como José Guilherme Magnani, Eunice Durham, Teresa Caldeira, Heitor Frúgoli Jr., Gilberto Velho, Roberto DaMatta, Alba Zaluar, Janice Caiafa, dentre outros. O trabalho de campo iniciou-se em 2005. Fiz duas viagens para Belo Horizonte, e lá, na capital mineira, comecei a ter contato com skatistas amadores e profissionais a fim de descrever algumas de suas dinâmicas relacionais. No ano seguinte resolvi ampliar o recorte e, para tanto, elaborei um projeto de iniciação científica – sob a orientação do Prof. Dr. João Batista de Almeida Costa, e com financiamento da FAPEMIG – que objetivava analisar as redes de relações entre skatistas através de suas participações em campeonatos de skate. Acompanhei tais eventos em diferentes níveis: local, regional e nacional. Tive a oportunidade, em 2006, de fazer trabalho de campo no Circuito Drop Dead Am, realizado em Curitiba, a principal competição amadora do país. Importantes destaques do skate mundial contemporâneo, como Luan de Oliveira, Milton Martinez, Felipe Gustavo, Filipe Ortiz, Yuri Facchini, Letícia Bufoni etc., eram crianças na época e, mesmo assim, já se destacavam enquanto competidores. A iniciação científica durou dois anos e posteriormente foi transformada num trabalho de conclusão de curso intitulado “Todos juntos e misturados: um estudo sobre a formação das redes de relações entre skatistas em campeonatos de skate”, defendido em 2008. Os resultados da pesquisa foram publicados, anos após, em um capítulo da primeira coletânea acadêmica sobre skate do país, “Skate & Skatistas: questões contemporâneas” (EdUEL, 2012), organizada por Leonardo Brandão e Tony Honorato.

2 – Você estudou o skate tanto no mestrado quanto no doutorado. Trata-se de pesquisas complementares ou independentes? Você poderia explicá-las brevemente?

R: São pesquisas complementares. Inspirado pelo trabalho de conclusão da graduação, resolvi escolher um outro recorte para produzir uma nova pesquisa sobre skate. Fui aprovado no mestrado em Antropologia Social da USP, sob a orientação do Prof. Dr. Heitor Frúgoli Jr., especialista em Antropologia da Cidade, com bolsa FAPESP. Entre 2009 e 2011 desenvolvi, então, a dissertação intitulada “De carrinho pela cidade: a prática do street skate em São Paulo”. Meu foco foi a cidade de São Paulo, para onde me mudei a fim de aproveitar certas possibilidades profissionais e acadêmicas. A dissertação analisou como os skatistas relacionam suas práticas citadinas às práticas de cidadania a que estão sujeitos na capital paulista. Por meio da etnografia realizada, demonstrei que devido à valorização das ruas e dos equipamentos que nelas se encontram – os picos –, o fomento institucional a práticas de cidadania permeado por vieses esportivos (tal como tentado por meio de algumas iniciativas promovidas pelo poder público municipal) nem sempre logra êxito, visto que, se para alguns agentes políticos a noção de cidadania se aproxima, de certo modo, de uma civilidade, já para muitos skatistas – sobretudo para os praticantes da modalidade street skate – a condição de cidadão está mais relacionada a uma “sociabilidade alargada” (Agier, 1999) e ao direito de se apropriarem da cidade a partir de suas próprias lógicas. Nesse sentido a investigação evidenciou não só aspectos em torno do exercício de uma prática esportiva (como os múltiplos sentidos de um circuito de campeonatos), mas, sobretudo, as implicações em virtude dos usos e das apropriações dos espaços urbanos por parte dos praticantes. Não obstante apresentei como a cidade pode ser lida e ordenada simbolicamente por meio daquilo que muitos interlocutores chamavam de olhar skatista, e, ao me aproximar das perspectivas de Joseph (1993), concluí que a cidadania, na perspectiva dos interlocutores, pode ser vista como uma questão de urbanidade. Enfim, a construção de pistas e o estímulo ao skate esportivizado parecem não arrefecer os sentidos citadinos da sua prática. A dissertação foi defendida em 2011 e, posteriormente, foi transformada em livro, intitulado “De carrinho pela cidade: a prática do skate em São Paulo”, publicado em 2014 pela Editora Intermeios com financiamento da FAPESP.

Após a finalização do mestrado, resolvi aproveitar as suas lacunas e os seus desdobramentos com vistas a ampliar as análises. Fui aprovado no doutorado, novamente pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP, porém agora sob a orientação do Prof. Dr. José Guilherme Magnani, coordenador do Núcleo de Antropologia Urbana (NAU). A pesquisa contou, durante certo tempo, com financiamento da FAPESP. Mantive o foco na prática do skate de rua a fim de problematizar, por vias etnográficas, o exercício de uma forma de citadinidade (entendida como uma maneira astuciosa, transgressiva e tática de se fazer a cidade). Deste modo procurei evidenciar como a citadinidade é permeada por múltiplas configurações, enquadramentos, agenciamentos e contradições, além do jogo relacional entre estratégias e táticas que ocorre numa São Paulo considerada a partir de uma perspectiva citadina. As investigações trataram o skate de rua não apenas como uma prática multifacetada que transcorre no urbano, mas, igualmente, como sendo uma própria prática do urbano transposta por resistências, transgressões, conflitos e negociações, enfim, por posicionamentos díspares frente às governanças que são feitas dos espaços da cidade. Assim, objetivei analisar como os skatistas embaralham certos ordenamentos urbanos e põem em suspensão “embelezamentos estratégicos” de uma cidade gerenciada como mercadoria e voltada para práticas de cidadania que são englobadas sobretudo por lógicas de consumo. Identifiquei que muitas das estratégias institucionais que engendram certos sentidos do skate conforme suas próprias rubricas (como a criação de frentes parlamentarem em sua defesa, o incentivo ao seu lado esportivizado etc.) nada mais são do que uma regulação dos usos dos espaços urbanos por meio de uma constante tentativa de esportivização da citadinidade. Todavia, em tempos recentes, vêm ocorrendo situações inéditas que revelam que a citadinidade que permeia a prática do skate de rua, embora muito combatida, também tem sido alvo de determinadas pretensões econômicas e político-urbanísticas. Nessas circunstâncias, ao mesmo tempo em que os skatistas se apropriam da cidade, o mercado bem como as governanças urbanas vêm tentando se apropriar de suas experiências urbanas de acordo com variados interesses. Por fim, para além das contradições, foi possível concluir que ao ampliarem as possibilidades de usos da cidade, os skatistas potencializam a produção de uma cidade vivida, sentida e em processo (Agier, 2011), tornando-a mais porosa ao se esquivarem de eventuais pragmatismos e dispositivos gestionários que tentam condicionar a vida urbana.

3 – Atualmente você é professor do curso de Ciências Sociais e da Pós-graduação em Desenvolvimento Social na Unimontes/MG. Enquanto docente, a temática do skate aparece em suas aulas? Como? Pode relatar alguma experiência nesse sentido?

R: Sim, certamente. Sempre faço questão de partilhar as experiências em torno das minhas pesquisas sobre skate. Além disso, quando oferto disciplinas focadas em temáticas urbanas (como “Antropologia Urbana” em nível de graduação, e “Direito à cidade: perspectivas interdisciplinares”, na pós-graduação), destino uma das aulas para focar, detidamente, as questões urbanas que permeiam o universo do skate de rua (conflitos em torno dos usos e apropriações dos espaços urbanos, formas de sociabilidade, posicionamento das governanças urbanas, implicações da produção capitalista da cidade, etc.). E, claro, faço as devidas contextualizações teóricas e metodológicas e também produzo pontes com universos de outras práticas citadinas a fim de evidenciar as tantas contradições que se projetam sobre o cotidiano das cidades. A aula onde faço uma abordagem através das minhas pesquisas sobre skate geralmente ocorre ao final da disciplina, sobretudo após o estudo de autores como Michel Agier e Michel de Certeau. A pretensão é mostrar, por vias etnográficas, as implicações sobre o fazer-cidade, e, ainda, o jogo relacional entre estratégia e tática quando se trata das apropriações citadinas dos espaços urbanos – o que envolve astúcias, resistências, transgressões, mas também diálogos e mediações – e dos controles que delas são feitas. Os vídeos produzidos pelo Murilo Romão, skatista profissional e produtor do Flanantes (coletivo focado em retratar os usos criativos da cidade) ajudam, e muito, nas discussões.

4 – Por fim, no campo das Ciências Sociais – mais especificamente na Antropologia – há possibilidades temáticas promissoras nos estudos sobre skate. Em quais aspectos a antropologia ainda poderia contribuir com o avanço nos estudos sobre o universo do skate?

R: Ainda há muitas lacunas no universo do skate que precisam ser preenchidas. A maior parte dos estudos na Antropologia diz respeito aos usos e apropriações urbanas a partir da prática do skate de rua. Entretanto, outras questões urgentes carecem de análises aprofundadas. Destaco algumas delas: o universo do skate problematizado a partir dos marcadores sociais das diferenças (gênero, raça, classe, geração etc.); os impactos da institucionalização do skate olímpico na prática cotidiana; as experiências periféricas do skate; crítica a certos rótulos rasos que permeiam o seu universo, como a ideia de “tribo urbana” e de “esporte radical”; a relação com políticas públicas em nível local, regional e nacional; a mobilidade para cidades estrangeiras, sobretudo Barcelona; dentre tantas outras. Também considero importante o surgimento de estudos sobre os impactos da prática do skate em cidades pequenas e médias, além de etnografias realizadas fora dos grandes centros. De todo modo, é importante reconhecer que os estudos se intensificaram nesta década. E tudo indica que o interessa pelo skate como objeto de estudo aumentará ainda mais. Considero que cabe, ainda, uma maior articulação entre os pesquisadores sobre skate a fim de produzir eventos e publicações conjuntas. E, por fim, uma maior articulação com agentes deste universo, sobretudo com os da mídia e federações, para pensar nos rumos do skate nacional considerando não apenas a agenda esportiva, mas também o seu impacto social.

Referências indicadas:

AGIER, Michel. L’invention de la ville. Paris: Ed. des Archives Contemporaines, 1999.

_____. Antropologia da cidade: lugares, situações, movimentos. São Paulo: Terceiro Nome, 2011.

BRANDÃO, Leonardo; HONORATO, Tony (Orgs.). Skate & Skatistas: questões contemporâneas. Londrina: Eduel, 2012, pp. 63-86.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. 16. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2009.

JOSEPH, Isaac. “L’espace public comme lieu de l’action”. Annales de la recherche urbaine, v. 57, n. 1, pp. 211-217, 1993.

MACHADO, Giancarlo Marques Carraro. Todos juntos e misturados: um estudo sobre a formação das redes de relações entre skatistas em campeonatos de skate. Monografia (graduação em Ciências Sociais), Universidade Estadual de Montes Claros, Montes Claros – MG, 2008.

_____. De “carrinho” pela cidade: a prática do street skate em São Paulo. Dissertação (mestrado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.

_____. De “carrinho” pela cidade: a prática do skate em São Paulo. São Paulo: Editora Intermeios/FAPESP, 2014

_____. A cidade dos picos: a prática do skate e os desafios da citadinidade. Tese (doutorado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017.

Dados biográficos: Giancarlo Machado é doutor e mestre em Antropologia Social pela Universidade de

São Paulo (USP). Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Social da Universidade Estadual de Montes Claros (PPGDS/Unimontes-MG). Professor adjunto vinculado ao departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes-MG). É pesquisador do Núcleo de Antropologia Urbana (NAU/USP) e do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (LUDENS/USP). É autor do livro De carrinho pela cidade: a prática do skate em São Paulo (Ed. Intermeios/FAPESP) e organizador da coletânea Entre Jogos e Copas: reflexões de uma década esportiva (Ed. Intermeios/FAPESP). É coordenador da coleção Entre Jogos no âmbito da Editora Intermeios. Possui experiência na área da Antropologia, com ênfase em Antropologia Urbana, Antropologia da Juventude e Antropologia dos Esportes. É membro da Rede de Estudos e Pesquisas sobre Ações e Experiências Juvenis (REAJ) e associado efetivo da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) desde 2010.

Lattes: http://lattes.cnpq.br/5199223373148812