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Jornal do Brasil

Sivam terá radar brasileiro

Publicado em 12 setembro 2005

Por Virgínia Silveira

Primeiro equipamento com tecnologia 100% nacional será entregue à Aeronáutica em abril de 2006

São José dos Campos - O Brasil retomou a sua capacitação tecnológica na área de radares meteorológicos. A experiência adquirida com a participação no fornecimento dos radares do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) motivou a Atech Tecnologias Críticas ao desenvolvimento do primeiro radar 100% nacional. A Aeronáutica acaba de fechar um contrato com a empresa, no valor de US$ 1,9 milhão, para a aquisição do equipamento, que será entregue em abril do próximo ano.
- Este será o 11º radar meteorológico do Sivam, mas a diferença é que ele será desenvolvido com tecnologia brasileira - afirma Fábio Haruo Fukuda, diretor da Atmos.
A empresa foi criada no ano passado a partir de uma associação entre a Atech (60%) e a Omnisys (40%), que atua no desenvolvimento de sistemas meteorológicos e de telecomunicações.
A Omnisys trouxe para a Atmos o conhecimento tecnológico acumulado por seus fundadores durante o período em que trabalharam na antiga Elebra. A empresa, que fechou em 1997, produzia entre outras coisas, radares de aproximação e controle de tráfego aéreo. Também participou de vários programas estratégicos com a Aeronáutica, entre eles o caça AMX.
Os 10 radares meteorológicos do Sivam, segundo Fukuda, foram fornecidos pela empresa americana Enterprise, mas o processador digital foi feito pela Atech e o software meteorológico é alemão. A idéia inicial da Aeronáutica era que o fornecimento fosse feito integralmente pela indústria brasileira.
A Tectelcom Aeroespacial foi, inclusive, selecionada para desenvolver os radares, mas as dificuldades financeiras enfrentadas pela empresa inviabilizaram o fornecimento. A Aeronáutica já havia rescindido um outro contrato com a companhia, que previa o fornecimento de 10 radares para os Cindactas (Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo), localizados nas regiões de Brasília, Curitiba e Recife.
A Tectelcom só conseguiu entregar seis radares e ainda com dois anos de atraso. A empresa finalizou o desenvolvimento desse radar meteorológico, baseado em projeto feito pelo Centro Técnico Aeroespacial (CTA), na década de 70 e depois transferido para a Tecnasa.
- Temos potencial para fornecer os quatro radares que não foram entregues pela Tectelcom, mas a Aeronáutica ainda não retomou o contrato - disse Fukuda.
O Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (Cecomsaer) informou que não há previsão do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) de expandir a rede de radares meteorológicos do Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (Sisceab).
''Já foram instalados 11 canais meteorológicos nos radares de vigilância de área terminal, o que aumentou bastante a já satisfatória cobertura radar para acompanhamento das condições de tempo presente'', disse o Cecomsaer.
Apostando no potencial de mercado do seu radar, no entanto, a Atmos desenvolveu uma versão mais avançada do equipamento. O novo sistema possui banda X (freqüência de 9,5 gigahertz), com dois canais de transmissão e recepção, maior precisão para medir o índice de precipitação, além de capacidade para estudar o tamanho das gotas de chuva e fazer a detecção automática de granizo.
Em junho deste ano a Fapesp assinou contrato com a Atmos, no valor de R$ 1,3 milhão, para financiar o desenvolvimento do novo radar. O equipamento integrará o Sistema Integrado de Hidrometeorologia do Estado de São Paulo (Sihesp), que também prevê a aquisição de estações meteorológicas de superfície e a modernização de radares já existentes.
O projeto, coordenado pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), da Universidade de São Paulo (USP), ampliará a capacidade de observação e previsão de chuvas e tempestades na região metropolitana de São Paulo. Ao contrário do sistema que será fornecido para o Sivam, que opera numa faixa de freqüência menor (Banda S, com 2,8 gigahertz), o novo radar meteorológico do Sihesp será equipado com software meteorológico importado em função da necessidade de se ter os equipamentos prontos para o verão de 2006.
O diretor da Atmos ressalta, no entanto, que toda a parte de engenharia de integração será realizada pela empresa no Brasil. Para reforçar sua experiência nessa área, a Atmos desenvolveu um radar dopller (consegue medir a velocidade e eliminar o eco de solo, ou seja, a reflexão das ondas eletromagnéticas).
A Atech e a Ominsys investiram US$ 1 milhão no radar, que está instalado na área rural de Mogi das Cruzes, a 40 quilômetros de São Paulo. O sistema, com alcance de 400 quilômetros mede, em tempo real, as condições meteorológicas de toda a porção leste e sul do Estado de São Paulo, sul do Rio de Janeiro, parte do sul de Minas Gerais e do Paraná, incluindo o litoral paranaense.
O Brasil, de acordo com a Atmos, possui hoje 24 radares doppler em operação. A maior parte deles, 10 unidades, está no Sivam e os demais no Estado de São Paulo. Nos Estados Unidos existem cerca de 300 radares desse tipo, sendo que metade deles está a serviço da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA).
A Atmos, segundo o diretor Fábio Fukuda, está empenhada na busca de contratos para seu novo radar.
- Agora nós temos condições de participar em pé de igualdade com os produtos estrangeiros e estamos de olho na próxima aquisição de radar meteorológico que a Aeronáutica pretende fazer para o seu Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão - disse o executivo.