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Jornal do Brasil

Sítio arqueológico em plena Gamboa - Quintal era cemitério de escravos

Publicado em 27 fevereiro 1996

Arqueologia e antropologia estão em alta no Rio de Janeiro. No carnaval, a Beija-flor de Nilópolis apresentava tinha como enredo uma inusitada versão para o surgimento do povo brasileiro e perguntava: de onde vim e para onde vou? Dúvidas que podem desaparecer com a descoberta de ossadas humanas num terreno na Rua Pedro Ernesto, na Gamboa, Zona Portuária. De acordo com os técnicos do Departamento do Patrimônio Cultural da prefeitura, o local, no final do século 18 e início do século 19, abrigou o chamado Cemitério dos Pretos Novos, onde eram sepultados, em cova rasa, os escravos que desembarcavam mortos ou morriam após os primeiros dias no Brasil. "É uma descoberta muito importante e representa um documento valioso de como vivia a população carioca naquela época", afirma a secretária municipal de Cultura, Helena Severo. Segundo ela, através dos exames laboratoriais das ossadas, será possível traçar um perfil, até mesmo epidemiológico. "Naquele tempo, o Rio era assolado por diversas pestes. As pesquisas revelarão não apenas a idade e o sexo das pessoas que foram sepultadas, mas também como morreram, que tipo de moléstias, a expectativa de vida dos escravos e a qual grupo étnico pertenciam. As possibilidades são inúmeras", diz entusiasmada. Curiosamente, apesar de diversos registros históricos confirmarem a existência do cemitério naquela área, nunca houve qualquer pesquisa oficial para a comprovação. A descoberta das ossadas foi obra do acaso, quando Ana Maria Dela Merced Gonzales Graña Guimarães dos Anjos topou acidentalmente com os ossos ao revirar o solo para fazer obras em sua casa, no número 36 da Pedro Ernesto. "Os ossos estavam a pouco mais de dois palmos abaixo do solo. O que comprova o sepultamento em cova rasa, como ocorria com os escravos", explica o diretor do Departamento do Patrimônio, Alex Nicolaefe. Segundo Nicolaefe, é impossível precisar quantos corpos podem ter sido sepultados no cemitério. "As ossadas já encontradas pertencem a dezenas de corpos, que estão dispostos de forma horizontal e vertical", explica. A quantidade de ossos e a maneira como estão agrupados impressionou aos técnicos. "Vamos cavar mais fundo e certamente encontraremos mais ossos", acredita a arqueóloga Eliane Teixeira de Carvalho.