Uma conversa informal entre dois pesquisadores da Universidade de São Paulo foi o ponto de partida para elaborar um sistema que torna mais eficiente a poda de árvores urbanas. O mecanismo usa luzes de laser para fazer uma varredura da árvore, fornecendo dados para um algoritmo calcular seu equilíbrio no computador e definir como vai ser feita a poda. A ferramenta, que já começa a ser testada na cidade de São Paulo , tem o seu funcionamento descrito em artigo da revista científica Trees .
A ideia surgiu durante uma conversa entre um biólogo de árvores e um engenheiro especializado em topologia na frente de uma grande árvore num restaurante de São Paulo, conta ao Jornal da USP o professor Marcos Silveira Buckeridge , do Instituto de Biociências (IB) da USP , um dos responsáveis pelo trabalho. O diálogo ocorreu com o também autor da pesquisa Emílio Carlos Nelli Silva, engenheiro e professor da Escola Politécnica (Poli) da USP .
O objetivo da pesquisa foi desenvolver um sistema computacional capaz de orientar podas urbanas de forma mais segura e eficiente, reduzindo o risco de queda de árvores durante eventos climáticos extremos, especialmente em casos de ventos fortes, relata o biólogo.
O trabalho integra escaneamento a laser (LiDAR), modelagem computacional e algoritmos de otimização estrutural para avaliar o equilíbrio biomecânico das árvores antes e depois da poda.
A pesquisa analisou a tipuana ( Tipuana tipu ), uma das árvores urbanas mais comuns em São Paulo .
A espécie apresenta crescimento vigoroso, copa ampla e alta tolerância ao ambiente urbano, incluindo poluição, calor e períodos de seca, descreve o professor do IB.
Por outro lado, podas excessivas ou mal executadas podem alterar sua arquitetura natural e aumentar sua vulnerabilidade mecânica ao vento .
Resistência estrutural
O estudo demonstrou que diferentes formas de poda podem modificar significativamente a resistência estrutural da árvore.
A poda altera diretamente a distribuição de peso, a simetria da copa e a forma como a árvore responde às cargas de vento, explica Buckeridge.
Quando realizada sem critérios biomecânicos, ela pode enfraquecer a estrutura natural da árvore, criando pontos de maior deformação e aumentando o risco de quebra ou de tombamento .
Para fazer a varredura das árvores, o sistema desenvolvido na pesquisa usa um dispositivo com a tecnologia LiDAR, uma técnica de escaneamento baseada em pulsos de laser .
O equipamento emite milhares de feixes de luz que atingem a árvore e retornam ao sensor, permitindo reconstruir sua geometria tridimensional com alta precisão, destaca o professor do IB. " A partir desses pulsos, é criada uma "nuvem de pontos que representa digitalmente o tronco, os galhos e a copa.
A varredura gera um modelo tridimensional detalhado da árvore, permitindo medir o volume, a distribuição dos galhos, a inclinação, a simetria da copa e a resposta estrutural ao vento, detalha Nelli Silva.
Esses dados alimentam modelos matemáticos capazes de simular deformações e identificar as regiões mais vulneráveis da árvore.
De acordo com Buckeridge, a ferramenta funciona como um sistema de apoio à decisão para Prefeituras, concessionárias e equipes de arborização urbana.
Ela permite avaliar previamente quais galhos podem ser removidos sem comprometer o equilíbrio biomecânico da árvore, salienta.
O sistema também pode ajudar a priorizar árvores de maior risco e orientar podas mais precisas e menos agressivas.
Processo automatizado
Para o sistema ser adotado em grande escala, o professor do IB observa que será necessário automatizar algumas etapas do processo, especialmente a geração de modelos tridimensionais e a análise computacional das árvores.
Também será importante integrar a ferramenta aos inventários urbanos existentes e ampliar os testes com diferentes espécies e em diferentes condições ambientais, recomenda.
Segundo o artigo, projetos piloto em setores urbanos específicos podem acelerar a adoção prática do sistema.
Há um projeto em andamento em São Paulo que está escaneando todas as árvores nas ruas da cidade, diz Buckeridge.
A ferramenta descrita no trabalho poderá ajudar muito a entender o estado atual delas e ajudar no manejo arbóreo, conclui.
O estudo envolveu pesquisadores do IB e dos Departamentos de Engenharia Mecânica, Mecatrônica e Engenharia Elétrica da Poli. Participaram da pesquisa Luís Otávio Trotti Martins Guedes de Souza, Fernanda Mendes de Rezende, Marcelo Knörich Zuffo, Julio Romano Meneghini, Marcos Silveira Buckeridge e Emílio Carlos Nelli Silva. O artigo Improving tree stability with optimized pruning: a comprehensive cycle method foi publicado na revista científica Trees .