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Olhar Direto

Sistema de monitoramento de chuvas na Serra do Mar poderá prever desastres

Publicado em 18 janeiro 2010

Uma ferramenta de acompanhamento em tempo real das condições climáticas da Serra do Mar - Sistema de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Sismaden) - poderá se tornar importante para prever riscos de tragédias como a que ocorreu no réveillon em Angra dos Reis. O projeto agrega informações do trecho paulista da serra, entre os municípios de Itanhaém e Ubatuba.

As informações são da agência de notícias da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Segundo Chou Sin Chan, pesquisadora do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Sismaden recebe e processa automaticamente informações coletadas de diversas fontes, analisa os dados e caracteriza o nível do risco em diferentes regiões.

"As informações que chegam ao Sismaden são: chuvas e suas trajetórias detectadas por radar ou estimadas por satélite; localização dos relâmpagos; previsões numéricas de chuva; probabilidade da previsão de chuvas intensas; e índices de severidade das tempestades, além de leituras vindas de dez estações meteorológicas e cinco hidrológicas", explicou Chou.

Nos deslizamentos de Angra dos Reis houve relatos de moradores afirmando haver lamaçal e pedras descendo do morro antes da tragédia"

As estações enviam leituras em tempo real e automaticamente por meio do Satélite de Coleta de Dados (SCD-1) do Inpe, ou via sistema de telefonia por celular. "Essas informações são utilizadas para alimentar o modelo matemático de previsão de tempo e para o monitoramento das condições meteorológicas e hidrológicas. Em situações de risco, o envio das medidas de chuva em tempo real é crucial para tomada de ação", disse.

As informações meteorológicas são cruzadas com o mapeamento de áreas de riscos. O Sismaden verifica a iminência de extremos de chuvas em locais suscetíveis a deslizamento sobre áreas ocupadas. Se a resposta for positiva, o sistema emite um alerta categorizado por cores no qual vermelho significa estado de alerta máximo. As categorias de alerta vão de "observação", "atenção", "alerta" e "alerta máximo". A partir do estado de "atenção" equipes treinadas são enviadas ao local para vistoria de campo. A avaliação humana no local, de acordo com a pesquisadora, ainda é imprescindível para que ações de evacuação possam ser tomadas.

"Nos deslizamentos de Angra dos Reis (RJ) do início do mês, por exemplo, houve relatos de moradores afirmando haver lamaçal e pedras descendo do morro antes da tragédia", diz a pesquisadora. Esse seria um dos sinais que poderiam ser detectados por técnicos.

Trabalho complicado

A Serra do Mar abriga eventos climáticos extremamente heterogêneos, explica o pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Agostinho Tadashi Ogura, que também participou do projeto. "Pode estar fazendo sol na estação climática e uma chuva forte estar caindo a 1 quilômetro dali", disse. Também podem ocorrer diferenças no clima do pé da serra, na meia encosta e em seu topo. Instalar uma estação para cada trecho a ser considerado seria inviável, segundo Ogura.

O IPT criou um índice que avalia os riscos de deslizamento, o coeficiente de precipitação crítica (CPC). O CPC baseia-se em análises de índices de chuvas e os níveis que provocaram desastres em ocorrências passadas. Um CPC menor do que 1 é considerado estado normal; 1,2 já indica possibilidade de escorregamento induzido, quando a ação humana alterou o perfil da encosta. "Pode estar fazendo sol na estação climática e uma chuva forte estar caindo a 1 quilômetro dali"

Além do Inpe e do IPT, o projeto teve a participação de pesquisadores de outras instituições, como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O Sismaden é uma ferramenta desenvolvida no âmbito do Projeto Temático "Estudos da previsibilidade de eventos meteorológicos extremos na Serra do Mar". O trabalho é apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).